Em setembro de 2017, um trecho do calçadão da Praia da Macumba desmoronou. Em outubro, aconteceu novamente, incluindo ainda um trecho da ciclovia. Somando as ocorrências, caíram 300 metros do muro de contenção da orla. Para entender o fenômeno ocorrido e as ações emergenciais aplicadas pela Secretaria de Conservação e Meio Ambiente (Seconserma), sócios do Clube, conselheiros e convidados assistiram à palestra “A recuperação da praia da Macumba – Obras emergenciais realizadas e o projeto de recuperação definitiva” no dia 27 de março no Clube de Engenharia. Participaram o secretário de Conservação e Meio Ambiente do município Jorge Felippe Neto; o subsecretário Guilherme Campos; e o professor da Coppe/UFRJ Paulo Rosman. O evento ainda contou com a mediação do diretor de atividades técnicas do Clube Fernando Tourinho.

Problema recorrente com reparações paliativas
Segundo Jorge Felippe Neto, a ocorrência do dia 15 de setembro já era a sétima verificada na região desde a urbanização iniciada em 2005, e uma de suas causas foi o fato de nas outras seis vezes a solução ter sida a reaplicação do projeto original, sem garantir mais resistência no muro de contenção existente no local. Segundo o secretário, as obras emergenciais se iniciaram dois dia depois do ocorrido e o objetivo primário foi proteger os prédios próximos onde já se manifestava erosão. Elas envolveram o uso de enrocamento sintético, bolsas preenchidas com concreto, bolsas com areia para dissipar a força das ondas no local, e contenção com jet grouting para garantir a proteção em 700 metros de muro. A estrutura que já havia foi, portanto, reforçada.

O engenheiro e subsecretário Guilherme Campos explicou que o objetivo da solução proposta foi evitar novas erosões causadas pela força das ondas. “Foi feito todo um trabalho para que as edificações ficassem seguras de que não mais ocorreria o processo erosivo já ocorrido”. Em cima da contenção feita, a Seconserma hoje faz a urbanização do local, para garantir o uso da Praia da Macumba por seus moradores. Foi feito ainda um Controle de Qualidade de Projeto (CQP), tendo como um dos consultores o professor Paulo Rosman. O CQP foi um grupo de trabalho criado para estudar o projeto de modo que as obras tivessem grande durabilidade, evitando a recorrência do fenômeno.

Segundo Jorge Felippe, a ciclovia também será reconstruída e haverá a arborização do local. Ele ainda esclareceu que as obras de contenção têm prazo indefinido, tendo resistido a cerca de cinco fortes ressacas e uma tempestade até agora. “As obras se provaram eficazes para resistir a esse tipo de evento. Não houve sequer uma pedra movimentada no local”, afirmou. Em relação às obras definitivas, para evitar impacto dos movimentos de maré e fuga de areia e recompor grande parte da faixa de areia, a Seconserma pretende contratar a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para atualizar projeto feito no ano de 2000, e então conseguir financiamento. O empreendimento custaria entre 50 e 60 milhões de reais e a perspectiva é buscar verba junto a bancos de fomento estrangeiros e nacionais. A ideia é que os problemas não voltem a se repetir nas próximas décadas. O diretor Fernando Tourinho comentou os esclarecimentos da Seconserma: “Refazer uma obra seis vezes faz com que as pessoas percam a confiança, quando nós sabemos que temos o conhecimento tecnológico para isso. Ninguém faz milagre na engenharia com obras baratas”.

Urbanização versus fenômenos naturais
Para Paulo Rosman, docente na área de Engenharia Costeira na Coppe/UFRJ, a causa dos desmoronamentos foi a urbanização realizada no local sem considerar os fenômenos climáticos que ali atuam. O que se passou em 2017 foi muito semelhante a outro fenômeno de 1999, com a mesma causa meteorológica: foi um ano após El Niño muito forte, que mudou o padrão de ondas do Atlântico Sul. A Praia da Macumba se volta para o sul, tendo um movimento cíclico de areias. Na primavera e verão, as ondas vêm de sudeste, empurrando a  areia de leste para o oeste, em frente ao costão rochoso que separa a Praia da Macumba da Prainha. No outono e inverno, as ondas vêm de sudoeste, causando o sentido inverso na areia. “Esse movimento pendular na areia é absolutamente padrão. Em anos de El Niño muito forte, como tivemos em 1998, 1999, 2016 e 2017, durante todo o ano as ondas vêm de sudeste”, explicou. Assim, a areia da Praia da Macumba é deslocada durante todo o ano para o lado oeste, na boca do Canal de Sernambetiba, onde deveria haver um anteparo. Forma-se, então, um grande volume de sedimentos.

Segundo Rosman, em 1999 não havia tanta urbanização na Praia da Macumba, mas a prefeitura contratou equipe de Engenharia Costeira e Oceanografia da Coppe para realizar estudo sobre o fenômeno, em 2000.  O grupo concluiu que a urbanização ocupou a faixa de areia que a praia precisa ter para dissipar a energia das ondas. “Isso é uma infelicidade que fazemos no Brasil de norte a sul e pagamos altíssimo preço por isso”, lamentou o professor. Segundo ele, nenhuma estrutura que o homem possa construir é mais eficiente para dissipar a energia do mar do que as próprias praias, que precisam ter estoque de areia.

No entanto, a solução feita no local, à época, foi contrária ao relatório da Coppe, o qual dizia que o canal de Sernambetiba deveria se manter desobstruído para não inundar. A empresa que fazia a dragagem retirava a areia para si, evitando a formação do estoque de areia. Rosman comentou: “Na medida em que o estoque diminui, é como se a linha de praia estivesse se aproximando cada vez mais das benfeitorias urbanas. Você está contratando um problema”. Segundo ele, o projeto feito em 2000 é o que a Seconserma pretende efetuar agora, que consiste na construção de guias-correntes que irão maximizar a faixa de praia, estabilizar em profundidade suficiente para evitar sedimentação e ainda se conectarão com o calçadão. Ele ainda afirmou que, atualizado e aprovado o projeto, servirá como base para o licenciamento ambiental, cuja responsabilidade é do governo estadual.

O evento foi promovido pelo Clube de Engenharia, Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e Divisão Técnica de Geotecnia (DTG), com o apoio da Divisão Técnica de Construção (DCO) e da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS-Rio).

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