Aproveitamento da água das chuvas: solução para crise hídrica

O problema da escassez de água, mais marcante e grave em alguns locais e épocas do ano, pode ser considerado no Brasil e atinge muitas outras nações. Brasília já completou um ano em sistema de rodízio de abastecimento de água dos bairros, e em todo o ano de 2017, 23% dos municípios do país pediram socorro ao governo federal em virtude de seca e estiagem. Ao mesmo tempo, os cidadãos abastecidos usam o recurso sem controle, desperdiçando. Para o engenheiro civil especialista em engenharia sanitária e ambiental Leonardo Heitor Richa Nogueira, a principal solução hoje para as crises hídricas urbanas é o uso da água da chuva. No dia 09 de abril, ele apresentou a palestra “O aproveitamento da água da chuva nas edificações” no Clube de Engenharia. O evento contou com a promoção da Diretoria de Atividades Técnicas (DAT), Divisão Técnica de Engenharia do Ambiente (DEA), Divisão Técnica de Construção (DCO), Divisão Técnica de Ciência e Tecnologia (DCTEC) e Divisão Técnica de Engenharia Econômica (DEC).

As vantagens
A água da chuva, segundo lei, pertence ao dono do terreno onde cai, sendo, portanto, gratuita. Muitos podem ser os benefícios de sua utilização em domicílios, indústrias, prédios públicos, entre outros. Segundo Leonardo Nogueira, o recurso pode suprir até 50% do consumo no local. Consequentemente, reduz o valor da conta de água, e ainda contribui para a redução das enchentes nas cidades, uma vez que essa água não vai chegar às vias públicas. O custo de manutenção é baixo e, como uma benfeitoria, adiciona valor à propriedade. Infelizmente, no entanto, a divulgação dos benefícios desse uso não acontece porque não interessa nem ao poder público, que tem sua parcela na conta, e nem às empresas. “Aos grandes agentes financeiros interessa financiar empreendimentos de grande porte. À indústria interessa, para todo o sistema de saneamento, opções como osmose reversa, dessalinização, soluções que custam muito. A água da chuva está como não recomendada”, afirmou. Enquanto a empresa fornecedora de água não quer perder sua parcela no fornecimento – e consequente arrecadação – e até o poder público prefere implementar soluções mais custosas, como a dessalinização de água marinha, para gerar imagem de impacto, a técnica fica esquecida.

Como acontece
Existem alguns procedimentos básicos para a captação da água da chuva para aproveitamento, embora variem em cada propriedade. Eles são: captação a partir da cobertura ou chão da casa; remoção de detritos por grade ou tela; descarte do escoamento inicial; e desinfecção. A água pode ser armazenada num reservatório, com um sistema para não transbordar, e ser escoada ao chegar no limite. No processo pode haver tantas filtrações quanto se desejar a limpidez da água, e ainda uma bomba para enviar a água a um encanamento adaptado.

IPTU Verde e base legal
O IPTU Verde, recurso que premia edificações que atendem a critérios de sustentabilidade com desconto no IPTU, dentre eles a utilização da água pluvial, já é adotado por mais de 50 municípios brasileiros. No Rio de Janeiro, existe um projeto de lei do início de 2017 que ainda não teve encaminhamento. “Alguém tem que fazer as contas e mostrar que a prefeitura abre mão da arrecadação para economizar na rede de drenagem”, afirmou o engenheiro. O aproveitamento da água das chuvas ainda é um dos objetivos da Política Nacional de Recursos Hídricos e está presente em lei estadual no Rio de Janeiro desde 2004 e lei municipal desde 2011.

Quando utilizar a técnica
Um dos pontos para se planejar corretamente o uso das águas pluviais é a medição da ocorrência de chuvas no local. O ideal é restringir o máximo possível a área de estudo, como na escala do bairro, e analisar uma longa série histórica de chuva, para que se possa determinar em que épocas – e se – o sistema será mais vantajoso. Mais importante ainda é analisar se é possível captar grande quantidade de água, seja pelo telhado ou pelo chão, e se ela terá grande uso. Um edifício com uma área de coleta pequena, por exemplo, que vá implementar uma obra para que a água chegue aos banheiros de um grande número de  apartamentos, pode não ter vantagens financeiras. Se a água for destinada somente a limpeza de superfícies, sem necessidade de grandes obras, torna-se mais vantajosa. Ao mesmo tempo, pode ser benéfico para um shopping, com um grande telhado, para abastecer grande parte dos banheiros e a torre de resfriamento, e não ser vantajoso para uma grande loja com a mesma área de coleta. Depende, portanto, de qual é a função daquele edifício e quantas pessoas serão beneficiadas – ou em quantos usos poderá ser feita a substituição. Alguns usos não potáveis possíveis são: descarga de vaso sanitário e mictório; torre de resfriamento onde há muitos aparelhos de ar condicionado; rega de jardim; e limpeza de superfícies. Quando o uso é majoritariamente não potável e dispensa grandes obras, o investimento se paga em menor prazo.

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