Pensar o futuro das nossas cidades não é trivial. Organismos vivos,  são reflexos das sociedades que as habitam e constroem e, justamente por isso, são únicas em si mesmas. E nem o mundo globalizado conseguirá derrubar isso. Para falar dessa impossibilidade de previsão de futuro sem imediatas reflexões e mudanças no presente, o arquiteto e urbanista Luiz Fernando Janot realizou palestra no último dia 29 de maio, no Clube de Engenharia. A proposta do evento organizado pela Divisão Técnica Especializada de Urbanismo e Planejamento Regional (DUR) era pensar caminhos para retomar as políticas de planejamento integrado e contínuo.

Ao longo da história, tentativas fracassadas nos levaram a aprender que o planejamento precisa estar obrigatoriamente relacionado à forma com que a sociedade se aproxima e se apropria dos espaços. Já se tentou outros caminhos. Hitler, por exemplo, buscou impor sua cultura e estabelecia parâmetros de cidades. Mais que impor uma nova cultura, a ideia era destruir o patrimônio nelas existentes e transformá-lo. “O melhor exemplo disso é Varsóvia, na Polônia. Ela foi completamente destruída e, ao ser reconstruída, insistiram em manter o traçado original, repetir as construções que existiam antes. Estavam fora de época, mas não fazia diferença. Queriam mostrar que uma cultura não se apaga com a força”, lembra Janot,  professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e conselheiro Superior do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

Dois tempos em um lugar
A percepção histórica das cidades é formadora daquilo que a própria cidade viria a ser dali em diante. “A cidade é um produto de diversas sociedades estratificadas em seu território ao longo da história. Ela é o somatório de todas as sociedades que a ocuparam”, destaca Janot, citando Roma, a cidade do século XXI que ainda guarda muito do império e das conquistas bélicas do passado. “Berlim é outro exemplo interessante. Ainda hoje, quase 30 anos depois da queda do muro, ainda é possível identificar características de ambos os lados e encontrar prédios que parecem ser do lado oriental construídos do lado ocidental”, destacou. A lição, segundo o urbanista, é simples: para o bem ou para o mal, a cidade do futuro será uma extensão da cidade que construímos hoje.

Não há ato passado que não bata à porta na formação das cidades de hoje. Quando as vias elevadas foram implantadas no Rio de Janeiro, por exemplo, como a Perimetral, elas determinaram o crescimento e desenvolvimento de diversas áreas. Com a retirada da Perimetral, essas áreas ganharão nova conformação. Não há escapatória: o passado bate à porta. Os refugiados de hoje são os cidadãos de países que foram profundamente explorados pela Europa no passado. Da mesma forma, quando veio a grande guerra, boa parte da sociedade europeia se espalhou pelo mundo como refugiada. “Se o capital pode ser volátil e se transferir de um país para o outro para se esconder em um canto de mundo através de operações muitas vezes ilegais, por que uma pessoa que chega de maneira ilegal não é aceita?”, indaga o professor.

O Rio e a Região Metropolitana
O Rio de Janeiro é uma cidade memorável, não só pela sua beleza estonteante, mas pelo seu povo plural e formação diversificada. Guardiã da história do Brasil, a cidade tem como características próprias os seus valores diversificados, a miscigenação do seu povo que faz do Rio uma metrópole diferenciada, um “purgatório da beleza e do caos”, afirma Janot. “Não há nada totalmente mal. Ela pode ter uma ordem, que é a ordem da cidade formal, e tem uma ordem na favela, de uma suposta desordem na forma de montar as suas estruturas, mas que precisa ser conhecida como uma ordem diferente, uma vez que representa 1/5 da nossa população”, destaca Janot.

Não se trata de um castelo medieval no alto de uma colina cercado por muros. O Rio é, na verdade, a sua região metropolitana também. Com cerca de 6 milhões e meio de habitantes, a cidade recebe diariamente 1 milhão de pessoas que dela entram e saem indo e vindo da região metropolitana. O fator geográfico que une o Rio à região metropolitana, a Baía de Guanabara é, na opinião de Janot, o fator catalisador que se pode ter para a região metropolitana. “Infelizmente (a Baía de Guanabara) foi deixada de lado. Hj é uma cloaca, uma imundice”, lamentou.

Deslocamentos e planejamento 
Um dado é fundamental para entender a cidade: a população do Rio de Janeiro não cresce. Ela apenas se desloca. “Nesse cenário, houve um modelo de crescimento da classe média. Então, se na minha geração eu morava num casarão com a família toda e só com 11 anos de idade meus pais puderam comprar um apartamento, hoje, as pessoas estão morando sozinhas. A cultura mudou. Assim, geram mais uma unidade habitacional. O núcleo familiar que era agregador passou a ser desagregado. E isso não é ruim nem bom, mas apenas reflexo de vontades e modelos culturais das pessoas fazendo suas escolhas”, explica.

A expansão da cidade para a Zona Oeste segue o raciocínio da locomoção da sociedade estável. As pessoas que estão enchendo a Barra da Tijuca, completando seus prédios e conjuntos gigantescos são as que estão saindo da zona norte. “A Barra tem 400 mil habitantes. A zona norte tem 3 milhões. Todos os investimentos públicos estão sendo feitos na Barra ao invés de onde está a população que precisa. Quando você foca o crescimento para a Barra, as pessoas que saem de um local com infraestrutura precária vão buscar uma qualidade de vida melhor para seus desejos e anseios. O que ele deixa pra trás é uma habitação desvalorizada, não ocupada, que começa a gerar vazio urbanos, ocupados pela informalidade. Nasce daí um ciclo vicioso que vai depreciando os imóveis nessas localidades fazendo com que elas sejam entregues ao abandono”, destaca o professor.

Expansão com base no lucro
O projeto do Porto Maravilha é um exemplo de onde as cidades chegaram sem um pensamento estratégico, de Estado. Uma imensa região de 5 milhões de metros quadrados – a fim de comparação, Copacabana é meio milhão de metros quadrados menor – foi pensada em lotes, setores de ocupação. Para o projeto ser viável são necessários 7 bilhões de reais para fazer a infraestrutura. Para isso, venderam o direito de construir acima da cota única, os CEPACs. À medida que as contas não fechavam, mais e mais prédios eram planejados até que a meta foi batida. “Não foi projetado como urbanismo, mas como capacidade econômica de gerar dinheiro suficiente para fazer a infraestrutura através da outorga onerosa do direito de construir. Para vender rápido, os edifícios tinham destino empresarial. Jogaram no mercado em sistema de leilão e, por duas vezes, os leilões não tiveram interessados”.

Sem o devido planejamento, a nova região portuária representa um perigo para o centro do Rio. O centro histórico, que guarda não só a história da cidade, mas do país, pode ser esvaziado, transferido para a zona do porto, cair em decadência. “É o que acontece quando não se pensa o planejamento urbano, mas uma operação econômica. Mais que a sua viabilidade financeira, as cidades precisam ser pensadas com base na população que sobrevive na informalidade e tratada com a devida consideração. O ano eleitoral parece muito oportuno pra despertar o Poder Público e debater democraticamente a questão da informalidade em nossa cidade. Se todos não agirem rapidamente, amanhã pode ser tarde demais. Quando você cria esses guetos de riqueza ou classe média, informalmente está criando também guetos de pobreza. Os gastos foram altos para levar a Olimpíada e sua infraestrutura para a Barra, em torno de 3 milhões. Com isso seria possível renovar toda a rede ferroviária e metrô de superfície. Planejamento urbano não pode ser feito porque algum determinante se impõe. Quando se trabalha com Plano Diretor é preciso pensar a cidade que se quer construir. Ao meu ver, queremos a cidade para as pessoas. Uma cidade plural”, finaliza o professor Janot.

 

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