Diálogos indústria e universidade: caminhos para o ensino da engenharia

Participaram do debate Marcelino Guedes F. M. Gomes, Edson W. Watanabe, Idarilho Nascimento, Domingos Rade, Fernando Amaral Sarcinelli Garcia e Jay Carreiro como moderador. Foto: Thelma Vidales

Um importante acordo de cooperação entre o Clube de Engenharia e a Sociedade Americana de Engenheiros Mecânicos (ASME, na sigla em inglês) foi firmado no dia 26 de julho, com a presença de pesquisadores, representantes do setor produtivo e de organizações de engenharia. O memorando de entendimento foi assinado durante o evento “Colaboração entre Indústria e Academia no Brasil”, que abordou os desafios e os potenciais de expansão da cooperação da academia no mercado e do mercado na academia, fruto da parceria da ASME com o Clube de Engenharia, a Associação Brasileira de Engenharia e Ciências Mecânicas (ABCM) e o Consulado Geral dos EUA no Rio de Janeiro.

Organização que promove arte, ciência e prática de engenheira de forma multidisciplinar, aliada às ciências ao redor do mundo, além de projetos, bolsas de estudo e premiações, a ASME estimula discussões em diferentes segmentos, como bioengenharia, energia, educação e carreira, design e produção, padrões e certificações e tecnologia e sociedade. O acordo firmado com o Clube de Engenharia prevê comunicação entre as duas organizações, buscando melhor intercâmbio de informação tecnológica, desenvolvimento de conhecimentos sobre códigos e normas organizacionais, com a ampliação de seu campo de abrangência e envolvimento da comunidade, além de explorar oportunidades de colaboração em seminário técnicos, oficinas e reuniões. Na ocasião do evento, a ASME também renovou um acordo similar com a ABCM.

O seminário realizado no Clube de Engenharia, além de debater sobre o necessário diálogo da indústria com a academia, também abriu a programação do E-Fest, grande encontro para estudantes promovido pela ASME na UFRJ, entre 27 e 29 de julho, com o apoio do Clube de Engenharia e um grande número de instituições e empresas. Pela primeira vez na América do Sul, essa é a sexta edição do evento da ASME, já realizado três vezes nos EUA e duas na Índia, com o objetivo criar um ambiente de inovação, conhecimento e competição para os estudantes e fomentar a troca de experiência com profissionais da área.

Assinaram o acordo, representando o Clube de Engenharia (no meio), Fernando Tourinho, diretor técnico, e Pedro Celestino, presidente, e representando a ASME (nas extremidades), Paul Stevenson, vice-presidente sênior para Estudantes e Recém-formados, e John Faucione, diretor sênior de Mídia, Conteúdo e Estratégia. Foto Thelma Vidales

Ensino e mercado de trabalho
Questões ligadas principalmente às dificuldades vistas hoje por acadêmicos e representantes da indústria para uma troca produtiva e constante no Brasil foram apresentadas. Participaram Marcelino Guedes F. M. Gomes, assessor da presidência da Petrobras Transporte S.A; Edson W. Watanabe, diretor da COPPE/UFRJ; Idarilho Nascimento, diretor comercial da Tenaris; Domingos Rade, diretor Científico e Técnico da Associação Brasileira de Engenharia e Ciências Mecânicas (ABCM) e professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA); e Fernando Amaral Sarcinelli Garcia, Estudante do 7º semestre de engenharia mecânica da UFRJ e um dos supervisores do E-fest. A moderação coube a Jay Carreiro, diretor comercial do Consulado Geral dos EUA no Rio de Janeiro.

Marcelino Guedes F. M. Gomes, assessor da presidência da Petrobras Transporte S.A, fez um retrospecto crítico da industrialização no Brasil, apontando as dificuldades existentes desde a época colonial e escravista até, já no século XX, o início da industrialização moderna capitaneada por governos nacionalistas e pelo conhecimento das universidades federais. Essa configuração trouxe, segundo ele, desafios quanto à competitividade do setor produtivo e dificuldade de diálogo entre esse, o governo e as universidades. “Por conta da nossa história, hoje nossos estudantes são muito voltados para concursos públicos. Quando teremos profissionais que não são formados para trabalhar no governo, numa universidade federal ou empresa estatal? A universidade precisa trazer essa preocupação. Falta, aos nossos estudantes, não só inovação, mas visão de negócios”, disse ele.

Edson W. Watanabe, diretor da COPPE/UFRJ, apresentou as propostas que a instituição tem buscado para fomentar o diálogo entre mercado e universidade. Contando com projetos junto a grandes empresas, como a Petrobras, a UFRJ possui uma fundação voltada justamente para o diálogo entre mercado e academia. “Eu gastei alguns anos discutindo com especialistas sobre o que seria inovação, e chegamos à conclusão de que não é uma tese, uma patente, uma boa ideia. Inovação pode ser qualquer coisa que seja novo, funcione, e que o mercado aprove. Nós temos muitas coisas, muitas novidades científicas, mas que precisam subir na escala [de inovação]. Quando passo um questionário para os alunos perguntando o que eles querem ser, muitos dizem que querem fazer concurso. Temos de virar esse jogo”, criticou o professor.

Ao expor sua visão Idarilho Nascimento, diretor comercial da Tenaris, afirmou a necessidade de profissionais com formação para além da técnica, abrangendo gestão e inovação, preparados, por exemplo, para as transformações da chamada Indústria 4.0.

Domingos Rade, diretor Científico e Técnico da Associação Brasileira de Engenharia e Ciências Mecânicas (ABCM) e professor do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) registrou a cobrança que existe por inovação tecnológica nas universidades, o que vai de encontro com as dificuldades burocráticas de desenvolver novas tecnologias nas instituições de ensino. Ele citou a regulamentação, neste ano, do novo Marco Legal da Inovação, embora afirme que a comunidade científica apresente críticas, como a permanência de impostos sobre importação de tecnologias. Tudo isso, segundo o professor, impacta no ensino da engenharia e na capacitação dos estudantes para os desafios do mercado de trabalho, inclusive pelas diferenças de qualidade entre a maioria das universidades privadas e as universidades públicas.

Estudante do 7º semestre de engenharia mecânica da UFRJ, Fernando Amaral Sarcinelli Garcia afirmou o grande interesse que estudantes têm, no geral, em projetos vindos da indústria e dos setores produtivos da sociedade. A curiosidade e a necessidade de aprender e ganhar experiência estão no cerne dos estudantes de engenharia e, para ele, maior cooperação entre indústria e universidade é sempre bem-vinda.

Plenário que discutiu integração entre universidade e mercado de trabalho também comemorou a assinatura de acordo de cooperação do Clube de Engenharia com a Sociedade Americana de Engenheiros Mecânicos . Foto: Thelma Vidales

Acordo estratégico entre entidades
John Faucione, diretor sênior de Mídia, Conteúdo e Estratégia da ASME e editor-chefe da Mechanical Engineering Magazine celebrou a parceria com o Clube de Engenharia. “Acreditamos que esse acordo representa um passo para um compromisso e uma colaboração da ASME no Brasil. Estamos passando por uma renovação. Nosso foco inclui a ênfase na engenharia para o desenvolvimento global, usando o know-how de tecnologia transformativa e promovendo a competência técnica entre engenheiros e a engenharia para o público em geral. Para isso, precisamos da colaboração do corpo docente das universidades, dos administradores e dos líderes do setor industrial”, disse ele.

Já Paul Stevenson, vice-presidente sênior para Estudantes e Recém-formados da entidade americana, lembrou que, além de competência, o ensino de engenharia deve também contemplar habilidades para trabalhar em grupo, comunicar-se e estabelecer sinergia entre profissionais. “Nós queremos transformar a educação em engenharia através desse diálogo entre o mundo acadêmico e o setor industrial. Acreditamos que deve haver uma colaboração entre esses dois setores para se estabelecerem as melhores práticas no ensino de engenharia”, afirmou.

Além de Faucione e Stevenson, estiveram presentes representando a ASME Aisha Lawrey, diretora de Educação em Engenharia, que tratou da cooperação entre academia e indústria na formulação dos currículos, e Thomas Costabile, diretor executivo, que, em vídeo, parabenizou a iniciativa.

Pedro Celestino, presidente do Clube de Engenharia, e Fernando Tourinho, diretor técnico da entidade, também comemoraram o acordo e a discussão em pauta. “Esse é o início de uma longa jornada no sentido de aproximarmos culturas tecnológicas. No lado brasileiro, que teve uma industrialização tardia, temos muito que aprender com a ASME. Agrademos também à COPPE/UFRJ, nossa instituição acadêmica mais avançada, com mais de 40 anos de serviços prestados à nossa engenharia e tecnologia”, disse Pedro Celestino. “A base do desenvolvimento é a engenharia. Espero que a ASME esteja conosco, para que possamos desenvolver projetos de extrema importância para o Brasil e o mundo”, salientou Fernando Tourinho.

Reforçando literalmente a expectativa do diretor técnico Fernando Tourinho de maior proximidade entre as instituições, o diretor da ASME, John Faucione, informou já estar de posse das chaves das salas que, a partir daquela data, serão ocupadas pela ASME no edifício sede do Clube de Engenharia, na Av. Rio Branco.

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