Protótipo do avião de transporte militar KC-390, produzido pela Embraer na fábrica de Gavião Peixoto (SP). Foto: Gerson Fujiki/ Embraer

Por Joaquim Francisco de Carvalho
Doutor em energia (USP), ex-chefe do setor industrial do Ministério do Planejamento e ex-diretor industrial da Nuclen (atual Eletronuclear)
Publicado em Folha de S. Paulo (9/9/2018)

A associação da Embraer com a Boeing, mediante a criação de uma “joint venture” em que a segunda detém 80% do controle acionário, foi objeto de copioso noticiário orquestrado em tom de propaganda, no qual o negócio aparecia como altamente vantajoso para a Embraer.

Para estrear a propaganda, citava-se a associação da canadense Bombardier com a Airbus, esquecendo que o grupo europeu assumiu não mais do que 50,1% do controle da sociedade e que o objetivo desse acordo é o de ampliar o acesso das duas empresas ao mercado de jatos de médio porte (100 a 200 passageiros).

Os aviões continuarão a ser produzidos no Canadá (fuselagem e cockpit) e na Irlanda do Norte (asas).

A Embraer foi criada em 1969, por engenheiros oriundos do ITA (Instituto Tecnológico da Aeronáutica), que tinha sido criado em 1950, em São José dos Campos.

Essa origem e a proximidade geográfica favoreceram uma estreita cooperação entre pesquisadores e engenheiros das duas instituições, estimulando o desenvolvimento da tecnologia nacional nos campos da ciência dos materiais, eletrônica de instrumentação e controle, mecânica fina e de precisão etc.

Na estruturação desse importante complexo industrial, foi decisiva a participação do Estado, com sua capacidade de investimento e compra de equipamentos e, principalmente, com a sua liberdade para reinvestir parte dos lucros na transferência e adaptação de tecnologias provenientes de países desenvolvidos, assim como na formação de engenheiros, técnicos e operários especializados.

Foi assim que se consolidou no Brasil uma importante indústria de equipamentos eletromecânicos; criaram-se pequenas e médias indústrias e se formaram milhares de engenheiros e técnicos altamente qualificados, não apenas no campo da construção de aeronaves, mas também em diversos segmentos industriais, em áreas como construção mecânica, equipamentos elétricos, mecânica fina e eletrônica de instrumentação e controle.

As indústrias de autopeças e de máquinas-ferramentas, entre outras, progrediram muito no Brasil, graças a tecnologias desenvolvidas no ITA e na Embraer.

O ativo intangível representado pelo know-how acumulado nessa espécie de “Vale do Silício” não foi contemplado na associação com a Boeing –e esta não assume nenhum compromisso de manter no Brasil as atividades de pesquisa/desenvolvimento aqui desenvolvidas.

A Boeing concentra nos Estados Unidos toda a fabricação de seus aviões. É pouco provável que a “joint venture” por ela controlada tenha interesse em contratar serviços com firmas de engenharia brasileiras, muito menos por adquirir componentes fabricados no Brasil, de modo que, de certeza, serão extintas muitas empresas-satélites da Embraer, perdendo-se assim milhares de postos de trabalho qualificado, exatamente como vem acontecendo com as empresas de energia elétrica, que começaram a ser vendidas para grupos estrangeiros durante o governo FHC. E por aí vai-se desindustrializando o Brasil.

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