“O sistema de transportes no Rio de Janeiro atingiu o caos. A dependência dos ônibus atingiu o paroxismo”. Foto: Agência Brasil

Publicado no Jornal do Brasil (18/10/18)

Luiz Antonio Cosenza, Presidente do CREA-RJ
Miguel Bahury, Conselheiro do Crea-RJ; ex-secretário municipal de Transportes, ex-presidente do Metrô e da CET-RIO

O sistema de transportes no Rio de Janeiro atingiu o caos. A mobilidade urbana está à beira do colapso. A falta de planejamento, a desorganização tarifária, a ausência de controle e de fiscalização deixam os usuários entregues à própria sorte.

Veículos com idade média superior a quatro anos circulam em condições precárias, muitos com chassis inadequados e com degraus altos, dificultando o acesso. Frequentes interrupções de linhas de ônibus, empresas de ônibus fechando as portas, desempregando mais de dois mil rodoviários, BRTs depredados por atos de vandalismo, plano de ampliação do BRS paralisado, vans liberadas, evasões frequentes e diminuição da oferta do transporte regular estão causando enormes prejuízos à população.

A leniência do poder público no Município do Rio e no governo estadual, o impasse entre a prefeitura e as empresas do setor, a suspensão da racionalização das linhas, a falta de integração e a demora na climatização total da frota contribuem ainda mais para agravar esse quadro danoso, e a população, que já sofre com a crise do desemprego e da segurança, não vislumbra perspectiva de melhora.

Além de tudo, a prefeitura, nas linhas municipais; e o governo estadual, nas intermunicipais, não têm nenhum controle sobre o sistema tarifário, que é totalmente controlado pela Fetranspor, responsável pela administração do RioCard e pela emissão, comercialização e distribuição do vale-transporte.

Deve-se estabelecer um plano de reorganização tarifária. As planilhas tarifárias devem ser transparentes e refletir o custo real do transporte, contemplando, além do custo/km, a relação passageiros/km, linha por linha, objetivando um conhecimento global do problema tarifário, com vistas ao estabelecimento real do custo/passageiro.

O controle e gerenciamento pela prefeitura e pelo governo estadual do sistema tarifário possibilitariam o domínio total do número de passageiros transportados e do total arrecadado, hoje inexistente, e maior racionalização dos valores das tarifas. Há que se chegar a um preço justo que não penalize a população, mas que, por outro lado, possibilite aos empresários cobrir seus custos e manter a margem legal de lucros para evitar a degradação do sistema, como ocorre hoje.

É imperativo que o poder público exerça sua primazia na condução da mobilidade urbana, no controle tarifário e na proteção sagrada dos direitos dos usuários, evitando-se o estado de anomia existente.

A dependência dos ônibus atingiu o paroxismo. Em consequência desse sistema equivocado, que contraria a política de transporte urbano adotada pelas principais cidades do mundo, os deslocamentos de toda a nossa região metropolitana passaram a ser completamente dominados por ônibus, que têm capacidade de transportar apenas 12 mil passageiros/hora, em detrimento dos transportes de massa, trem e metrô, que têm capacidade de absorver 40 a 60 mil passageiros/hora, com custos de manutenção substancialmente menores e que possibilitam um deslocamento mais rápido, seguro, confortável e sem poluição.

Na região metropolitana do Rio ocorrem 22,1 milhões viagens/dia, das quais 11 milhões por transporte coletivo, 4,4 milhões por transporte individual e 6,7 milhões de viagens/dia a pé, conforme o Plano Diretor de Transportes da Região Metropolitana.

Das 11 milhões viagens/dia por transporte coletivo, os ônibus, que deveriam ser transporte complementar, respondem por 77% delas e, pasmem, o metrô e os trens, juntos, por apenas 11%, transportando, respectivamente, apenas 700 mil passageiros/ dia e 560 mil passageiros/dia, enquanto as barcas transportam apenas 1%. Enquanto isso, à guisa de ilustração, os metrôs de SP, Seul e Cidade do México, que iniciaram a construção na mesma época do Rio, já transportam, respectivamente, 4,6 milhões, 8 milhões e 3,9 milhões de passageiros/dia.

Essa herança perversa há que ser corrigida, priorizando- se o transporte de massa, trem e metrô, e restabelecendo-se a autoridade pública na gestão do transporte de passageiros.

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