Foto: Fernando Alvim

Publicado no Jornal do Brasil – 28/10/2018

Presidente do Clube de Engenharia lamenta falta de proteção às empresas estratégicas no Brasil, estatais ou privadas

Reeleito em agosto para novo triênio à frente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino afirma que, como sempre desde 1930, o Brasil está diante de um acirramento da disputa entre aqueles que defendem um projeto de interesse nacional e os que pensam “para fora”. Tal se expressaria na atual administração da Petrobras e na possibilidade de venda da maioria acionária da Embraer para a americana Boeing. Celestino, que também preside a empresa de engenharia consultiva Icoplan, lembra que só chegamos a essa situação porque esquecemos a noção de planejamento da economia, que passaria, necessariamente, pela ativação da Construção Civil, mercado fértil em países como o Brasil.

GILBERTO MENEZES CÔRTES
GABRIEL VASCONCELOS

Como o senhor avalia a engenharia do país hoje?

Minha geração construiu o Brasil. Mas, hoje, vejo a engenharia brasileira em situação tão ruim que o essencial é o restabelecimento do conceito de planejamento na economia. Isso é essencial para o país, qualquer que seja o governo. É preciso resgatar uma visão de Estado, com preservação de empresas estratégicas e restabelecimento da Petrobras como indutora do desenvolvimento. A ideia de planejamento está esquecida desde (o ex-presidente Fernando) Collor, que transformou o ministério do Planejamento em um órgão de execução orçamentária, no ministério da Economia. Além disso, a praga da reeleição levou os governantes a se preocuparem apenas com empreendimentos que possam começar e terminar em seus mandatos. Investimentos de infraestrutura mais significativos, com prazo de maturação de oito a 12 anos, deixaram de ser interessantes do ponto de vista político. Mas a construção é o grande motor da economia. Basta lembrar que a grande transformação que esse país assistiu se deve a JK, que construiu Brasília e forçou o país a se voltar para dentro. E, hoje, os grandes mercados de engenharia do mundo são China, Rússia, Índia e Brasil, países de dimensões continentais, população e recursos naturais. Na Europa e nos EUA, o que existe é um esforço de reconstrução, mais caro do que fazer o novo.

“O essencial é o restabelecimento do conceito de planejamento na economia. Isso é essencial para o país, qualquer que seja o governo”

O senhor citou a Petrobras, como vê o atual momento da estatal?

A Petrobras é responsável por uma cadeia produtiva com mais de 5 mil empresas nacionais e estrangeiras, mas vem sendo submetida a um processo deliberado de esvaziamento e desvalorização. Não nego a Lava Jato, mas a questão da corrupção na Petrobras foi levada a um destaque político para destruir o que simboliza em termos de soberania. É claro que a corrupção tem de ser combatida e para ilustrar isso dou o exemplo da Alemanha. A Volkswagen foi pega enganando oito milhões de clientes pelo mundo no Dieselgate. Mas não deixou de produzir veículos. Sua direção foi afastada e processada, a empresa pagou multas bilionárias, mas a empresa ficou intacta por uma razão bem simples: é estratégica para a Alemanha. No Brasil, jogamos fora a criança, a água e a bacia.

“Não nego a Lava Jato, mas a questão da corrupção na Petrobras foi levada a um destaque político para destruir o que simboliza em termos de soberania nacional”

Então a corrupção não pesou?

É bom que os desvios tenham sido identificados. Mas a corrupção, eles mesmo dizem, representa de 1% a 3% do rombo. O que importa é o que a Petrobras conseguiu. Nos deu autonomia na produção de petróleo, derivados e petroquímicos essenciais à nossa soberania. Isso está sendo entregue. As chamadas parcerias estratégicas que o Parente fez, na prática, significam entregar um conhecimento que era exclusivo da Petrobras. Este tipo específico de parceria com multinacional, no setor de petróleo e gás, serve para ela aprender tudo que só você sabia. É por isso que fazia sentido a Petrobras ser operadora única, para manter a tecnologia na nossa mão. A Exxon já tem 41 bilhões de barris do pré-sal. Junto com Shell e Total, já levou o pré-sal brasileiro e nós vamos voltar à condição de importadores de derivados e petroquímicos da década de 1950, estrangulando o nosso desenvolvimento industrial. Vamos nos equiparar à Nigéria, que está do outro lado do Atlântico, tem 190 milhões de habitantes, é grande produtora de óleo bruto e não tem política de desenvolvimento. Nigéria e Noruega descobriram seu petróleo na mesma época. Enquanto a primeira deixou a produção na mão das multinacionais, bem como estamos fazendo aqui, a Noruega, então o país mais atrasado da Europa, criou uma empresa estatal para desenvolver o setor e fazer as parcerias necessárias. Hoje, em que pese a diferença populacional, o fato é que a Noruega tem o maior índice de desenvolvimento humano do planeta e a Nigéria é um barril de pólvora. A questão é como você lida com essa riqueza, simples assim. O que vivemos no Brasil, desde a revolução de 1930, é o mesmo processo: a clivagem entre os que pensam para dentro, no interesse do nosso povo e os que pensam para fora.

“Se persistirmos nessa direção, vamos nos equiparar à Nigéria, que tem 190 milhões de habitantes, é uma grande produtora de óleo bruto, mas não tem política de desenvolvimento”

Como vê o caso da Embraer, outra empresa de acúmulo tecnológico?

É fundamental manter a Embraer como empresa estratégica, porque tem 18 mil funcionários, dos quais 7 mil são engenheiros. É, talvez, a empresa brasileira com a maior base tecnológica, que tem, hoje, mais da metade do mercado de jatos regionais, uma participação significativa em jatos executivos e um projeto praticamente terminado de cargueiro, que substitui o Hércules, no final de sua vida útil. Agora, a fusão entre Bombardier e Airbus exige que a Embraer estabeleça uma parceria com outra gigante, que pode ser com os americanos da Boeing, os russos ou os chineses, que têm robustez no mercado mundial. Mas veja, parceria não significa entrega. Uma parceria com a Boeing para comercializar aviões próprios, utilizar bases de manutenção ou até produzir aviões nos EUA, não é problema. O que não pode é vender o controle acionário, porque aí a Boeing fecha a Embraer e tudo o que acumulamos ali em São José dos Campos (SP), desde 1950, vai para o ralo. Significaria voltar à condição colonial. E é isso o que está em jogo neste país: uma proposta de desenvolvimento que assegure a paz social e nossa inserção soberana no mundo ou a regressão à condição de produtor de matérias primas e produtos alimentícios.

Se as pesquisas se confirmarem, Jair Bolsonaro será eleito. Em seu entorno estão neoliberais como o economista Paulo Guedes e alguns militares. Se considerarmos a veia nacionalista da caserna, não haveria uma contradição de propósitos?

As Forças Armadas têm centros de pensamento estratégicos, que são a Escola Superior de Guerra, escolas de Estado Maior, além do ITA e do IME, órgãos que pensam o Brasil e estão voltados para o interesse nacional. Disso, não há dúvidas. O que não se sabe é se esse pensamento estratégico está articulado com a candidatura Bolsonaro. Esse é o problema. É preciso entender se estes militares estão dispostos ou não a respeitar e empregar essa capacidade estratégica. Porque do outro lado não há dúvida. Paulo Guedes tem zero visão.

 

 

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