Brasil não deveria abrir mão de soberania na aviação, diz fundador da Azul

David Neeleman, que tem no currículo aéreas como JetBlue, WestJet e a portuguesa TAP, defende que mudanças devam vir acompanhadas de contrapartidas para equilibrar o ambiente competitivo

Letícia Fucuchima, O Estado de S.Paulo
14/12/2018

GENEBRA – O governo federal não deveria retirar o limite ao capital estrangeiro nas empresas aéreas que atuam no País sem reciprocidades que permitam às empresas brasileiras competir em melhores condições no mercado internacional. Essa é a visão de David Neeleman, fundador da Azul e atual presidente do conselho de administração da empresa. Em conversa com o Estadão/Broadcast, ele observou que o setor envolve interesses estratégicos e que, dessa forma, “o Brasil não deveria abrir mão de sua soberania sem pensar bem sobre o assunto”.

Neeleman destaca que não é contra a ideia de mudança dos limites ao capital estrangeiro – até mesmo para 100% -, mas defende que isso venha com contrapartidas para equilibrar o ambiente competitivo e que seja decidido com base em discussões apropriadas, e não por meio de “ordem rápida” do presidente.

De acordo com o empresário, somente um punhado de países pelo mundo permitem total controle estrangeiro em empresas aéreas sem nenhum tipo de reciprocidade. “Mas acredito que o limite (no Brasil) precisa ser revisado para pelo menos 49%”, diz.

Fundador de seis companhias aéreas

David Neeleman tem uma vasta experiência no setor, tendo ajudado a criar, ao longo de sua carreira, seis empresas aéreas. Além da Azul, ele esteve no quadro de fundadores da JetBlue e WestJet, e também esteve envolvido na privatização da portuguesa TAP. Atualmente se prepara para lançar mais uma, no mercado norte-americano.

Para Neeleman, as empresas aéreas brasileiras sofrem com restrições e normas que as tornam menos eficientes e competitivas no cenário internacional. Os pilotos brasileiros podem trabalhar menos horas do que os norte-americanos – um dos motivos pelos quais a Azul também se posicionava contra o acordo de céus abertos com os Estados Unidos, ratificado neste ano pelo governo de Michel Temer.

Além disso, diz, as empresas não podem cobrar por uma série de serviços aos consumidores, como fazem as ultra low costs americanas (empresas de baixíssimo custo), exemplifica.

Apesar disso, o fundador da Azul acredita que o mercado brasileiro já é “ultracompetitivo”, tendo às vezes quatro empresas operando na mesma rota – ainda que a própria Azul tenha uma vantagem nesse sentido, já que voa sozinha em várias rotas.

“Se (o mercado brasileiro) não fosse competitivo, não veríamos a Avianca Brasil pedindo recuperação judicial, ela seria capaz de cumprir com suas obrigações.”

Reação

A decisão de Temer de abrir o mercado de companhias aéreas para 100% do capital estrangeiro causou reações divergentes entre as empresas do ramo. Até então, a Azul, que tem a americana United entre suas acionistas, foi a única a se posicionar contrária à medida provisória. Já o Grupo Latam se disse favorável à abertura ao capital estrangeiro, apostando que estimulará o crescimento do mercado aéreo local.

“A Latam pertence a um grupo chileno, isso facilitará uma consolidação para eles”, opina Neeleman.

Já a Gol, que possui dois sócios estrangeiros (Delta e Air France-KLM), preferiu não se manifestar. Recentemente, a companhia anunciou uma reestruturação societária que envolve a incorporação de seu programa de fidelidade, a Smiles. Por causa da restrição de 20% ao capital estrangeiro vigente na época, o plano da Gol era transferir o controle direto da empresa operacional (GLA) ao fundo FIP Volluto, da família Constantino, que hoje controla diretamente a holding Gol e indiretamente a GLA e a Smiles. / Colaborou Luciana Collet

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