Viaduto da pista expressa da Marginal Pinheiros, em São Paulo, que cedeu cerca de dois metros em novembro de 2018. Foto: Agência Brasil

Miguel Fernández y Fernández
Engenheiro consultor

Na letra da música de “O Bêbado e o Equilibrista” (*1), com genial ironia e oportunidade, João Bosco e Aldir Blanc cutucavam o ambiente de então lembrando:  “caía…./ a tarde feito um viaduto…/  e um bêbado trajando luto…/  me lembrou Carlitos….”

Lembrei-me disso quando, já no segundo semestre de 2018, caiu um viaduto em Gênova, na Itália, e me propus a escrever um artigo sobre as obras de engenharia, cada vez mais feitas pelo menor custo, cada vez com menos manutenção, mas ao mesmo tempo se acreditando que são eternas.

Com o colapso dos viadutos das Marginais em São Paulo e de adutoras da CEDAE no Rio, logo em seguida, achei que poderia parecer oportunismo barato e deixei “prá lá”.

Agora, com o acidente da Barragem do Feijão, vejo que não há como fugir ao tema. Algo está muito errado.

Quando do lamentável “acidente” de Mariana, um destacado colega engenheiro, de minhas relações profissionais, especialista em mecânica dos solos, foi contratado por um fundo de investimentos estrangeiro para fazer um diagnóstico do que houvera. Esse fundo tinha investido em uma das sócias do empreendimento (da SAMARCO Mineração). O trabalho era confidencial e nunca pude vê-lo, mas entre uma conversa social e outra, soube que a conclusão-opinião desse colega foi mais ou menos a seguinte:

“O presidente das empresas é contratado porque tem um MBA de lugar importante e fala bem inglês, o diretor financeiro idem, o diretor técnico também. Esses gênios dos MBAs precisam maximizar resultados financeiros no exercício fiscal dos balanços para agradar os acionistas e garantir sua parte (bônus), tudo dentro da lei, claro! 

E quais são as leis que eles seguem? As de engenharia (da física, da matemática, da química, do bom senso)? Não!  Nos cursos de MBA são as leis do menor custo a qualquer custo, as leis da burocracia, da terceirização até de atividades-fim (porque a legislação é confusa e extorsiva, o que até é verdade) as leis dos labirintos jurídicos, da justiça adjetiva, dos incentivos fiscais particulares, da reserva de mercado, dos balanços contábeis pedalados, das sutilezas financeiras, dos caras que chamam “capital próprio” de “equity” e se sentem superiores porque sabem “de cor” o significado de CAPEX, OPEX ou EBITDA. Que acham que quanto mais fiscais, leis e regulamentos melhor já que é um “ambiente regulado” a seu favor: atrapalha o surgimento de concorrência, claro!

Efetivamente, antes dos acidentes todos no campo usavam capacetes (embora 90% da obra fosse a céu aberto), cinto de segurança, coletes sinalizadores, luvas, botas, óculos, só se podia circular a 20 km/h e com faróis acessos!, sirenes, treinamentos para evacuação (horrível o termo), enfim… Para os fiscais e a governança (nome bacana!), seguiam-se todas as regras, e o problema de mecânica dos solos era apenas mais um. O pessoal dos MBAs, os fiscais, a opinião pública e a publicada não conseguem entender, como uma barragem com ART, CAT e demais papeladas do CREA, dos órgãos ambientais, arqueológicos, antropológicos, florestais, ISS, ICM, PIS, COFINS, IR, IPI, refeitórios fiscalizados pela ANVISA, cotas de PCDs atedidas, pode cair (colapsar)… Se as papeladas e taxas estavam todas pagas em dia, a segurança do trabalho perfeitamente conforme os manuais, férias em dia, tudo contratado pelo menor custo para não haver sacanagem! Não, não é possível que tenha caído! “

Tenho para mim que se o comunismo não acabou com o capitalismo, os cursos de MBA vão conseguir: diminuir estoques, vender ativos, substituir a experiência e a excelência por mão de obra mais barata, contornar e adiar situações e problemas (sem resolve-los “naquele exercício fiscal”), contratar tudo pelo “menor custo” (seja nas obras, no fornecimento ou no projeto), seja em industrias repetitivas seja em engenharias que precisam ser customizadas, como as de infraestrutura,  para eles é tudo a mesma coisa.

Essa “Barragem do Feijão” que colapsou em Brumadinho, MG (nem chovendo estava nessa 6ª feira, 25 de janeiro de 2019), novamente nos arredores de Belo Horizonte, isolando o notável Inhotim, era outra “barragem de rejeitos de mineração”, ou seja, onde se pretende acumular, para sempre, o que não se aproveita do material minerado.

Foi alteada pelo método quase criminoso de incrementos a montante. Originalmente tinha cerca de 40m e já estava com 75m ou mais (números não confirmados). Dizem que estava sem receber mais rejeitos e sendo reforçada. Reforçada porque se sabia que a segurança era precária. Nos bastidores sabe-se mais, mas não se diz.

O número de vitimas será recorde, o que garantirá uma longa atenção da mídia. Não é um problema apenas da engenharia brasileira. Outros acidentes similares acontecem pelo mundo, alguns sem vítimas, portanto com pouca repercussão. Certamente haverá os que se dedicarão a discutir se a culpa foi dos militares, do PSDB, do PT ou do novo governo. Enquanto não se revalorizar a engenharia, os acidentes seguirão aumentando, e cada vez mais perto de mim e do leitor.

(*1) aproveite para ouvir a letra e a música e relembrar muitas coisas!

Texto semelhante, também de minha autoria, foi publicado no sábado, 26 de janeiro de 2019, pelo Jornal do Brasil, na página do editorial, menos de 20 horas após o acidente.

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