Foto: Pexels

Por Adhemar Bahadian, Embaixador aposentado
Jornal do Brasil (17/02/2018)

Às vezes me pergunto se ouvi bem certas frases de altas autoridades brasileiras. Venho lutando contra uma surdez incipiente, derivada da idade e da genética. Mas a surdez será um bálsamo diante da pirotecnia de ditos e malditos que andam por aí. Outro dia, chegou a meus cansados ouvidos a frase “por mim, eu privatizaria tudo, mas o Exército é contra a privatização da Petrobras”. Tive vontade de gritar de volta “também sou contra”. Quase no mesmo instante, ecoou outra frase do mesmo locutor: “As estatais são como filhos que se drogaram”. Esta, convenhamos, é de extremo mau gosto. Atinge famílias às voltas com um dos mais dolorosos problemas da modernidade e, de quebra, insulta a capacidade gerencial de honrados funcionários públicos. Cheguei a pensar que se deveria instituir um imposto de consumo por frases estúpidas. Creio que as contas públicas melhorariam muito. Não demoraram dois dias, sempre o mesmo locutor enunciou sua terceira pérola: “Pinochet transformou o Chile numa Suíça”. E agora, que se pode argumentar?

Enquanto a sociedade brasileira pranteava os mortos de Brumadinho, outra autoridade de alto coturno meteu as esporas no cavalo moribundo. “Precisamos reprivatizar a Vale”, dando a entender que as boas privatizações são as que ficam nas mãos de brancos de olhos azuis.

Ainda no domingo passado, neste mesmo espaço, recordei que o ministro alemão da Economia tinha dado a conhecer a estratégia industrial de seu país para o período 2019-2030, em que ressaltava a importância de o Estado alemão impedir a venda de empresas privadas para gigantes indústrias da China e dos Estados Unidos. Ora, o ministro alemão deixa claro que o capitalismo mundial está passando por uma tectônica arrumação de camadas, onde se decide o poder deste século 21. Nesta reorganização hostil, a Alemanha denuncia o pret-à-porter de uma geopolítica, em que China e Estados Unidos serão os dois polos a imantar a nova configuração mundial. Em outras palavras, a Alemanha pretende salvaguardar suas empresas e sua cultura da pasteurização galopante em diversas áreas do planeta em sangrenta turbulência.

Mais importante, a Alemanha está a dizer em alto e bom som exatamente o oposto do que nossos ilustres dirigentes governamentais propõem como rota para o Brasil. Aqui, ao contrário de lá, se tem uma visão derrotista do futuro. Nosso caminho será certamente o de aprofundar a subserviência aos poderosos e nos contentarmos, como historicamente nos contentamos, com um papel subordinado no rearranjo que se quer impor pela força de uma ideologia mambembe. Agora, vejam bem o disparate dessa opção. O Brasil talvez seja um dos poucos países que podem, sem ufanismos, pleitear uma posição de destaque na geopolítica deste século. Temos território, população e riquezas naturais para sê-lo. Pode-se argumentar que temos um território ainda a conquistar, uma população a instruir, e riquezas que se podem desperdiçar. Mas é exatamente aí que entra o elemento que nos falta dramaticamente neste momento. A determinação. Que sentido queremos dar a nosso país, que destino queremos para nossos filhos e netos já que o nosso se aproxima inexoravelmente do fim? Pelo que dizem alguns dos nossos sábios economistas e astutos políticos, devemos nos “integrar” ao mercado financeiramente globalizado, que dança diante de nós sua concupiscência argentária. Certo, poucos enriquecerão mais ainda. Seremos o país da desigualdade eterna, em que ricos e pobres se esquartejarão, como nas arenas romanas do Coliseu. É uma opção. Outra seria assumir o desenvolvimento econômico e social ao alcance de uma sociedade determinada a vencer as disparidades sociais, através do estímulo ao desenvolvimento do mercado interno, atraente para gregos e troianos. Em suma, carecemos de um programa de governo inteligente e sagaz a equilibrar nossas potencialidades e o investimento produtivo. Já o tentamos com algum êxito no passado. Lembremo-nos dos 50 anos em 5 de JK. Nações se constroem pela força de suas sociedades. Ninguém levantará por nós um só tijolo. Temos apenas nossas mulheres. E nossos “cojones”.

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