São João Marcos, primeira cidade histórica brasileira tombada pelo SPHAN e logo depois destombada e demolida para a ampliação do complexo hidrelétrico de Ribeirão das Lajes. Foto: José Edgar Costa.

A freguesia de São João Marcos nasceu em 1739, em pleno Ciclo do Café. A cidade cresceu e viveu tempos de glória como importante distrito cafeeiro até o dia que a Light, pertencente à companhia canadense Light and Power, comprou a Fazenda Olaria e pôs na porteira o aviso: “Proibida a entrada”. Começava ali uma longa e surpreendente história que tem sua origem nos problemas da falta d`água no Rio de Janeiro, além da necessidade de suprir a crescente demanda de energia elétrica da então capital federal.

A opção da companhia foi expropriar quase uma centena de fazendas e inundar São Sebastião do Arrozal, um distrito de São João Marcos, para a construção de uma barragem em Ribeirão das Lajes. A informação que se tem é que a falta de controle e planejamento acabou por deflagrar a proliferação da malária na região, como conta a arquiteta Maria Regina Pontin de Mattos, na apresentação do livro São João Marcos, Patrimônio e Progresso, editado em 2011 pelo Instituto Light. Na publicação, a proposta era fazer, na medida do possível, São João Marcos renascer para a História e reviver na memória dos sobreviventes: sempre orgulhosos de alguns famosos que nasceram ali, como o engenheiro e político, prefeito do então Distrito Federal, Pereira Passos (1902/1906); o advogado, político, jornalista e crítico literário Alfredo Pujol; e o magistrado, membro da Academia Brasileira de Letras, Ataulfo de Paiva.

Mas o Rio de Janeiro continuava precisando de água. Um novo e definitivo sacrifício foi imposto à cidade três décadas depois, quando, em 1938, a Light propõe o alagamento de toda a região para que fosse possível altear a barragem. A reação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) foi imediata. Na tentativa de salvar o rico conjunto histórico reconhece São João Marcos como patrimônio nacional. Em vão. No ano seguinte o presidente Getúlio Vargas revoga o tombamento e em um processo extremamente sofrido para a população indeniza os moradores e os obriga a deixar suas casas, imediatamente demolidas. Pasmem: as águas não atingiram toda a área demolida. São João Marcos foi inundada parcialmente e o resultado foi seu total abandono.

Foto: José Edgar Costa

Silêncio e mistério

Já nos anos 2000, o engenheiro Luiz Edmundo da Costa Leite, conselheiro vitalício do Clube de Engenharia, convidado pelo então presidente da Light, o também conselheiro Luiz Alquéres, foi conhecer o projeto do Instituto Light de recuperação da história de São João Marcos. Emocionado com o que viu e ouviu, dá o seu depoimento: “Achei essa história tão incrível que acabou virando uma das pautas da minha vida, inclusive em sala de aula. Era uma cidade próspera, do Ciclo do Café, que distribuía escravos por todo o Vale do Paraíba, com acesso à Baía de Guaratiba desde a Serra do Mar! Com um mistério até hoje não esclarecido: como a água não chegou na cota de inundação prevista? E como em uma sociedade tão bem informada, ainda hoje poucos são os que conhecem essa história? ” Divulgar a história de São João Marcos tem para ele uma importância ímpar.

A perplexidade maior de Luiz Edmundo, então professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi constatar que nem mesmo os profissionais do ramo de energia elétrica e de barragem tinham ouvido falar de São João Marcos e de sua história, que aconteceu a 100 quilômetros do Rio de janeiro há cerca de 80 anos. “Foi uma obra de engenharia que provocou um dano irreparável do ponto de vista histórico, humano e arquitetônico, e sem muita explicação”, questiona.

Mas Luiz Edmundo deixa claro que considera um equívoco associar o caso a um grande erro de engenharia. “A engenharia que existe em todo aquele complexo de Ribeirão das Lajes é espetacular. O túnel tem tecnologia dos suecos do início do século passado. É um negócio fantástico. Como iam errar a cota de inundação de uma barragem? Não precisa ser engenheiro para saber onde a água vai chegar. Acredito que existem outras razões que não estão bem explicadas”.

Clube de Engenharia presente

Com a curiosidade aguçada o Conselheiro constatou que o debate sobre uma nova fonte de abastecimento para a capital do país, no que compete à possibilidade de uso do Ribeirão das Lajes, vinha desde pelo menos 1934 até 1937 em destaque no Clube de Engenharia. Em novembro de 1934 foi publicado na Revista do Clube de Engenharia o parecer de uma comissão designada pelo Ministro da Educação e Saúde Pública, com a participação do engenheiro Maurício Joppert da Silva, que 10 anos depois seria presidente do Clube. O parecer comprovava o processo de autopurificação natural da água nos açudes e afirmava ser São João Marcos o único foco de contaminação. Divergências e acirrados debates estão registrados em palestras e artigos.

O professor R. B. Carvalho Neto critica palestra realizada pelo também associado Joaquim Breves em setembro de 1935. O assunto volta a debate porque parte do Clube havia discordado do parecer da comissão. Nesse texto Carvalho Neto defende o parecer da comissão e critica Breves, que contestava a autopurificação das águas e também que seria possível purificar por outras resoluções como a cloração das águas. Em fevereiro de 1936 Mauricio Joppert reafirma que as águas se autopurificam e lembra que o relatório da comissão aponta a necessidade de subir em 8 metros a crista da barragem no futuro, a médio prazo, já que no ano de 1958 a barragem estaria com a capacidade projetada esgotada.

A mesma edição traz a conferência do Breves e a posição antagônica de Henrique de Novaes publicada no artigo “Meu depoimento final sobre o Ribeirão das Lajes”. Citando São João Marcos, afirma:  “Também a história das epidemias de São João Marcos tem sido muito mal contada e maldosamente explorada; elas sempre apareceram e ceifaram a população marginal de Ribeirão das Lajes antes do seu represamento e eram oriundas das baixadas alagadiças e mal drenadas, hoje afogadas pelo açude”. Para ele, transbordar o Paraíba seria muito pior, com “graves consequências”. O debate continua acirrado durante 1936 e em 1941 o alagamento se concretiza.

Em 1947 a edição de julho da Revista do Clube de Engenharia volta ao tema com a visita dos ministros da Viação, Clovis Pestana, e da Agricultura, Daniel de Carvalho, a Ribeirão das Lajes e Barra do Piraí. A matéria traz, entre outras informações, os principais dados sobre o aproveitamento de Ribeirão das Lajes: a potência total de quando terminadas as obras previstas seria de 640.000 kW, 3 barragens em funcionamento; 2 usinas elevatórias, 1 reservatório, 1 dique, 1 canal e 2 túneis.

Foto: José Edgar Costa

Resgate histórico

Como ex-presidente da Light, profundo conhecedor da história de São João Marcos, Luiz Alquéres vai direto ao assunto e explica o que levou à decisão de fazer a barragem: “A Light tinha interesse e se não fizesse ali seria em outro lugar, como foram feitas milhares de barragens Brasil afora. Mas o Governo Federal sempre premido por dificuldades de orçamentos, para resolver o problema da água da capital e ao mesmo tempo atender à necessidade de energia elétrica do Rio, propôs à Light fazer a barragem um pouco mais alta, com uma acumulação para a água poder ser usada no abastecimento do Rio. Não podemos esquecer que na época o Rio de Janeiro era o Distrito Federal. E o Governo Federal permite que Light faça a barragem, desde que concordasse em fazer um pouco mais alto, com uma acumulação de forma tal que a água pudesse ser usada no abastecimento do Rio. Então, na decisão de fazer a obra, havia esse duplo objetivo, tentar empurrar na Light, ou seja, nos consumidores de energia elétrica, o investimento nos recursos necessários para dar água para o Rio de Janeiro. A energia elétrica estava embutida no investimento dos recursos necessários para levar água à população do Rio. Era um negócio estranho à Light. Mas assim foi feito”.

Alquéres lembra que “os tempos eram de rolo compressor, entre 1935 e 1937, pouco antes da Segunda Guerra Mundial, em plena ditadura de Getúlio Vargas. É lógico que o projeto poderia perfeitamente prever a construção de diques para proteger e salvar a cidade. Por isso foi tombada. Sua importância era evidente”, afirma. Do ponto de vista técnico Alquéres não tem dúvida de que a obra de distribuição de água foi importante para o Rio de Janeiro.  “Mas a geração de energia, também importante, poderia trazer a linha de transmissão de outro lugar”, critica, e não responsabiliza a Light.

Entende que a responsabilidade coube aos que decidiram resolver o problema de água do Rio com os recursos da Light. “Até hoje aquela obra é fundamental, porque a água vem do Paraíba e depois vai até o Guandu onde é captada. Você bombeia 120 m³/segundo do Paraíba, em um lugar chamado Santa Cecília, gera eletricidade e joga essa água no rio Guandu. Do Guandu a Cedae faz uma captação de 60 m³/segundo, a metade do que tira do Paraíba. Mas seria possível captar esses 60 m³/segundo um pouco mais abaixo”, assegura. É neste contexto que considera que o destombamento de São João Marcos foi um erro de projeto por não avaliar sua importância cultural e imponência: “era a Ouro Preto do Vale do Paraíba”, compara.

Foi com sua posse na Light, em 2006, que os sobreviventes e a cidade foram resgatados da invisibilidade. Para ele era um compromisso moral e ético criar a partir das ruínas da cidade o Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos. “Outro presidente não faria isso. Tanto que a Light está tendo muita dificuldade de manter esse projeto vivo. Vale a pena visitar. A área ficou muito bonita, nasceram muitas árvores chamadas “mulungu”, com flores vermelhas, que o pessoal diz que é o sangue dos que morreram de tristeza. Tem toda uma mística. O cemitério da cidade nunca foi inundado, está lá no alto do morro”. Vale a pena visitar, convida.

Foto: José Edgar Costa

Um outro olhar

Conhecedor há anos da história de São João Marcos, o arquiteto Mozart Vitor Serra, com graduação em economia e planejamento urbano pela Universidade da Califórnia, Berkeley, na ocasião diretor do Instituto Light, órgão voltado para iniciativas vinculadas à sociedade, foi um dos mais importantes parceiros de Alquéres na ousada empreitada da criação do Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos, inaugurado já na gestão de Jerson Kelman como presidente da Light.

“Quando o Alquéres assumiu a presidência da empresa fui visitar as ruínas e constatei que ainda havia na região muitos sinais da cidade. Eram paredes, fundações de pedra cobertas pelo mato, tudo no reservatório de Lajes, área da Light’, conta Mozart. Com um novo olhar e total apoio da diretoria e presidência da empresa, deu o primeiro passo: fazer a limpeza do sítio da antiga cidade para, em seguida, obter a autorização do IPHAN para fazer o que talvez tenha sido um dos primeiros projetos de arqueologia urbana no país, feito pelo Instituto de Arqueologia do Brasil. Com isso começaram a reaparecer o velho teatro, a igreja, os baldrames das calçadas, o arruamento. Era possível ver os grandes espaços, as praças, as pontes, o cemitério. Foi feito, ainda, um pequeno museu no qual está exposto tudo o que se encontrou nas ruínas e é contada a história de São João Marcos. E, finalmente, foi feito o projeto de paisagismo. Em cerca de 3 anos de trabalho, a cidade renascia, já com um programa educacional de visitas que contabilizavam cerca de 12 mil a 14 mil visitantes por ano.

Com o mesmo espírito emocionado de fazer renascer o que ainda havia de vida ali, Mozart, responsável pela concepção e coordenação do projeto do Parque, também desenha o cenário da área inundada: “era uma das mais antigas cidades do Vale do Paraíba fluminense, situada ao longo de uma das primeiras vias de penetração para o interior dos Estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, que atravessava a Mata Atlântica e se dirigia serra acima. Com o crescimento do café, adquiriu muita importância. Era o caminho de subida e descida de escravos que chegavam no porto de Mangaratiba. Com o término do Ciclo do Café ela praticamente desaparece, perde vitalidade e fica esquecida. Mas quando as estradas de ferro se estabelecem curiosamente volta a fazer parte da vida dessa grande região da cidade do Rio de Janeiro como uma cidade de férias, como uma cidade serrana muito aprazível, muito bonita, até ser tombada, destombada e condenada, em meio a grande a polêmica em torno da necessidade ou não do destombamento, já que as águas pouco invadiram a cidade. Existe o registro disso”.

Foto: José Edgar Costa

A saga do Dr. Coelho

Personagem em determinado momento protagonista na história de São João Marcos o engenheiro eletricista José Dias Coelho Júnior, formado em Itajubá, foi destacado pela Light para coordenar os trabalhos na cidade quando já estava decidido o alagamento.

A necessidade de montar equipe de trabalhadores locais, de conviver diária e diretamente com uma sociedade impactada com a notícia de que teria que deixar para traz o patrimônio físico e afetivo construído durante toda a vida não era uma tarefa trivial. Muito ao contrário, como conta o seu filho, Franklin Coelho, também engenheiro e sócio do Clube de Engenharia.

“Depois do Dr. Coelho, como era conhecido, ter feito o levantamento topográfico junto com João Costa, começaram as avaliações para o processo de desapropriação. Os advogados chegaram. As avaliações eram feitas por valores muito abaixo do valor real dos imóveis. Apesar do Dr Coelho ser funcionário da Companhia, seu perfil profissional marcado pela integridade de gestos e sentimentos ganhou a cidade. Indignados com o valor dos imóveis estipulados pelos advogados, os moradores passaram a  procurá-lo para perguntar se poderia dar um valor real. Sensibilizado com a situação do povo marcossense, disse  que oficialmente não poderia dar um valor, mas passou a dar extra-oficialmente. Como não podia deixar de ser, os advogados passaram a ver nele um inimigo a ser eliminado”. Na impossibilidade de conciliar interesses tão díspares, a saída foi pedir demissão.

A vida já havia levado o engenheiro a se envolver a tal ponto com a população que pouco tempo depois casou-se com uma marcossense, filha de um comerciante, que foi sua companheira por toda a vida e com quem teve cinco filhos. Logo em seguida foi trabalhar na então Companhia Telefônica Brasileira (CTB), até que em 1964 o governo militar, entendendo ser de Segurança Nacional a área de telecomunicações, aposentou compulsoriamente toda a diretoria, a maioria na faixa dos 50 anos.

Coelho dedica-se a partir de então ao trabalho voluntário na área de Engenharia, em instituições como a Federação Brasileira de Associações de Engenheiros (Febrae), e em especial no Clube de Engenharia. Durante muitos anos, talvez décadas, conviveu diariamente com os funcionários Fernando Ribeiro e Nelson Silva, recentemente homenageados como os mais antigos da Casa, festejando, respectivamente, 44 e 50 anos de dedicação à instituição.

São fatos representados em todas as suas dimensões. A maioria, com um belo acervo fotográfico do marcossense José Edgar Costa, renasce no Parque Arqueológico e Ambiental de São João Marcos. Ali está um museu a céu aberto, situado no município de Rio Claro. O projeto, em junho de 2019 vai comemorar oito anos de resgate de um capítulo histórico, tendo, em grande parte, os engenheiros como personagens decisivos no debate que trata, entre outras questões, da Engenharia e do Desenvolvimento, e seus conflitos na relação com a preservação da memória e das tradições culturais.

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