Abastecimento de água: solução inovadora para o Nordeste

Obras de transposição do São Francisco em 2015, na cidade de Cabrobó (PE). Foto: Wikimedia Commons

O acesso à água potável é uma das grandes questões do século XXI, que volta à tona em 22 de março quando se celebra o Dia Mundial da Água. Para tratar do assunto e apresentar soluções inovadoras para o Brasil e outros países, o Clube de Engenharia organizou a palestra “Suprimento de Água para o Nordeste”, no dia 26 de março, com o engenheiro mecânico Roberto Rodrigues, professor convidado da Pós-graduação em Engenharia de Sistemas Offshore da COPPE/UFRJ.

Dutos terrestres

Segundo o palestrante, as duas formas mais utilizadas, hoje, de fornecer água a regiões sem acesso a corpos hídricos são dessalinização e transporte da água. Muitas vezes são feitas em associação, uma vez que a dessalinização acontece no litoral e muitas regiões que sofrem com a seca ficam no interior dos países. No caso do Brasil, vários estados passam pelo problema da insuficiência dos reservatórios e falta de chuva ao longo do ano, mas as secas mais graves acontecem no sertão nordestino. Em sua apresentação, Rodrigues elogiou a transposição do Rio São Francisco, apesar dos custos do bombeamento de água para canais abertos em maior altitude e as perdas por evaporação. A obra envolveu a construção de dois eixos (Norte e Leste), atendendo cidades de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. Há ainda estudos para os eixos Oeste, servindo a partes do Ceará e do Piauí, e Sul, para atender o sertão da Bahia.

No entanto, o palestrante propôs outra solução, que envolveria a construção de um duto terrestre de 944 km conectando o sistema de transposição do Rio São Francisco com o Rio Tocantins. Para que seja possível, seria necessário antes finalizar a ferrovia Transnordestina, cujo projeto prevê conectar dois portos (Pecém, no Ceará, e Suape, em Pernambuco) a cidades no interior dos dois estados, encontrando-se as linhas em Salgueiro (CE) e chegando até Eliseu Martins (PI).

A Transnordestina começou a ser construída em 2006 e tem previsão de conclusão para 2027. A proposta de Rodrigues é que, exatamente em Salgueiro, onde passam canais do São Francisco, seja alocado um duto, utilizando a “faixa de servidão” da ferrovia, ou seja, a faixa de terreno nas margens da linha férrea que não pode ser ocupada. O duto chegaria a Eliseu Martins e seguiria, já sem a ferrovia, até o Maranhão. Seriam três trechos de dutos, conectando Salgueiro (PE) a Eliseu Martins (PI), seguindo até Estreito (MA), nas margens do Rio Tocantins, e de Estreito até São Geraldo da Ajuda (MA), nas margens do Rio Araguaia.

“A região seca ainda não contemplada com os eixos do São Francisco é exatamente esta, e o duto faria esse atendimento”, explicou.  A obra seria mais barata, uma vez que a logística de transporte dos dutos seria feita pela Transnordestina, e utilizando a faixa de servidão não seria necessário desapropriar novas terras para se enterrar os dutos. Outra vantagem é que o duto seria bidirecional: em vez de conduzir a água somente do ponto mais alto para o mais baixo, como é o caso dos canais, seria possível reverter o fluxo com bombeamento, uma alternativa, comparada à construção de novos eixos do São Francisco.

Dessalinização e transporte

Também foram apresentadas soluções de abastecimento adotadas no mundo, sendo uma delas a dessalinização, que inclusive vem sendo estudada pelo governo federal. Segundo Rodrigues, no método mais utilizado, da osmose reversa, dois volumes de água salgada geram um volume de água doce. Pode ser uma solução exitosa, como no caso de San Diego, na Califórnia (EUA), cuja planta de dessalinização fornece 190 mil m³/dia. O projeto é vantajoso por ser uma cidade próxima ao mar e em baixa altitude, pois se o destino da água é mais distante e se localiza em ponto mais alto, é necessário bombeamento, que pede energia. Por esse motivo, Rodrigues afirmou que a dessalinização é uma solução mais viável para países ricos.

Já o transporte de água pode ser feito por dutos, tanto terrestres quanto submarinos, ou com uso de transporte marítimo ou ferroviário. Um caso de sucesso é o da Arábia Saudita, que utiliza os dutos terrestres para transportar, por 412 quilômetros, um volume de 1,2 milhões de m³/dia de água dessalinizada entre o litoral e o interior. Existem ainda grandes projetos de dutos internacionais: um entre a Rússia e a China e outro atravessando o continente africano na região do Saara. O transporte marítimo também é uma opção, utilizando-se petroleiro de segunda mão, devidamente limpo, ou um tanque rebocado por outra embarcação. O transporte ferroviário é adotado em alguns lugares como os Estados Unidos, onde um trem com cem vagões transporta 7.000 m³ de água, sendo economicamente desvantajoso, porém útil em situações emergenciais.

A palestra de Roberto Rodrigues foi promovida pela Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e as divisões técnicas de Engenharia do Ambiente (DEA), Recursos Naturais Renováveis (DRNR), Recursos Hídricos e Saneamento (DRHS) e Engenharia de Segurança (DSG).

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