Soberania nacional em questão: geopolítica e política externa

O embaixador Adhemar Bahadian, à esquerda, ao lado do mediador Francis Bogossian (ANE) e do professor e economista Mauricio Metri. Foto: Fernando Alvim

Dando continuidade à série “Brasil: Nação Protagonista”, o Clube de Engenharia promoveu, em 16 de maio, a palestra “Política Externa e Soberania”. O encontro contou com a participação do embaixador Adhemar Bahadian, do professor e economista Mauricio Metri e, como mediador, de Francis Bogossian, presidente da Academia Nacional de Engenharia (ANE) e ex-presidente do Clube de Engenharia.

O presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, destacou na abertura da palestra, a importância de se discutir a política externa do Brasil a partir de um reconhecimento das transformações da geopolítica mundial nos últimos anos. “Estamos diante de uma escalada de tensões internacionais, motivadas pela incapacidade dos EUA de sustentar sua posição hegemônica no mundo — a impossibilidade de continuar essa trajetória de guerra contínua em que se colocaram desde os atentados de 11 de setembro de 2001”, explicou ele. “Os EUA mudaram seu foco e passaram a utilizar a arma que têm, que é a arma econômica. Se eles perderam protagonismo industrial, no momento em que o centro de gravidade da produção industrial se deslocou para a Ásia, não só para a China, eles têm ainda 86% do fluxo financeiro internacional.  86% das trocas comerciais reguladas pelo dólar transitam por grupos americanos. A partir daí eles criaram um arcabouço legal que possibilita que intervenham em qualquer lugar do planeta. Essa é a nova forma de guerra dos EUA, a guerra econômica”, disse Celestino.

A ótica dos conflitos

Mauricio Metri, que é doutor em Economia pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atua, na mesma instituição, como professor do Instituto de Relações Internacionais e Defesa (IRID) e do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional (PEPI), trouxe uma aula sobre a relação entre as crises internacionais e sua influência na crise política nacional.

“Do ponto de vista internacional, acho que já há um relativo consenso que o mundo todo vive numa rota de intensa rivalidade entre as grandes potências”, disse Metri. “Rússia, EUA e China estão disputando todos os campos estratégicos”, afirmou, citando a geopolítica militar, a disputa por desenvolvimento tecnológico, além de debates no campo econômico, financeiro, e também na “ética e moral internacional”. Já no Brasil, segundo o professor, “a crise recente começou com uma natureza um pouco político-partidária. O processo eleitoral de 2014 ganhou um tônus, uma tensão, que logo depois foi sobreposta pela severa crise econômica que começa em 2015 e imediatamente vira uma crise institucional, que nos remete à Constituição de 1988, em que o que está em jogo são os princípios e garantias fundamentais de um Estado Democrático de Direito”. Para Metri, “é a crise da razão. Hoje a gente lida com uma situação de pós-verdade, em que as heranças do Iluminismo ocidental estão postas em xeque”.

Professor da UFRJ, Mauricio Metri delineou os vetores da crise política internacional e nacional. Foto: Fernando Alvim

Geopolítica de um Brasil em crise

Mauricio Metri citou um conjunto de “violências” e “fraturas” recentes no país que fundamentam sua análise da conjuntura.

Primeiro, o conflito distributivo entre capital e trabalho, com a flexibilização da legislação trabalhista e as políticas de ajuste fiscal. Segundo, os ataques aos instrumentos de soberania do Estado, como as investidas sobre a Petrobras e o desmonte das empresas nacionais de engenharia. “Desmontar a engenharia nacional é comprometer a capacidade de o Brasil desenvolver projetos de construção de rodovias, ferrovias, portos, hidrelétricas, gasodutos, oleodutos, tudo o que é necessário a um desenvolvimento econômico”, alertou Metri.

Em terceiro lugar, o professor destacou a violência sobre as próprias instituições que definem a soberania nacional, como a entrega da base de Alcântara para os EUA, a discussão para exploração da Amazônia junto de empresas americanas, e a entrega das reservas de petróleo ainda não exploradas. “São violências que estão incidindo sobre a sociedade brasileira, desde um ajuste fiscal severo, uma política de busca por um ajuste que, na verdade, gera um permanente estado de tensão, desemprego, exclusão e fome”, disse ele.

O quarto tipo de violência é social e diz respeito ao racismo estrutural no Brasil — resquício de nosso passado colonial escravocrata — que se choca com as políticas afirmativas da primeira década dos anos 2000, hoje em questionamento.

Em quinto lugar, e de um ponto de vista mais global, Metri citou a fratura nas relações políticas internacionais, com os movimentos da política externa brasileira na primeira década dos anos 2000 e a consequente reação dos países mais ricos. “Uma série de iniciativas recentes, como a Unasul, a reformulação do Mercosul, o BRICS, uma política externa multilateral de viés Sul-Sul, isso tudo teve um forte antagonismo com a potência hegemônica, os EUA. Foi uma fratura com a posição americana e em como os EUA entendem a América do Sul como dentro do seu espaço estratégico, em que não deve haver uma potência ou uma aliança de potências que se insiram de forma autônoma, independente”.

Para Mauricio Metri, o entendimento dessa conjuntura, complexa e com vários vetores, é essencial para analisar os rumos das políticas nacionais em 2019, tanto as externas quanto as internas. “Haveria razões para supor que o Brasil foi objeto de um conflito, de iniciativas estratégicas para destruição da nossa sociedade, da nossa soberania, dos instrumentos que permitiram esse tipo de inserção internacional? Eu suponho que sim, que tiveram razões, e que de certa forma isso começa a dar sentido para a loucura toda que a gente assiste no atual governo”, analisou Metri. “Combinar uma política econômica recessiva, de ajustes e mais ajustes, num contexto de recessão grave há quatro ou cinco anos, a uma política em que você arma a população e que você permite o homicídio, flexibiliza a possibilidade de homicídio, é você jogar essa sociedade num caminho de esgarçamento social que beira uma guerra civil. Porque juntar a fome, a pobreza, e armar a população, é uma combinação extremamente explosiva. Em última instância, vai ser uma guerra de todos contra todos”, criticou o professor.

Papel das Forças Armadas

O embaixador Adhemar Bahadian iniciou sua palestra tocando em tópicos citados por Mauricio Metri, como o papel das Forças Armadas no atual contexto brasileiro. Bahadian lembrou que, ao longo de sua história, a Marinha, o Exército e a Aeronáutica sempre foram reconhecidas como nacionalistas — apesar da Ditadura Militar alinhada com os EUA — e que essa posição hoje entra em conflito com o viés de desmonte das políticas e da economia nacional do atual governo. A crise na Venezuela também impôs uma situação delicada para as Forças Armadas, que nas negociações internas recusaram apoiar uma intervenção militar dos EUA no país vizinho, e que logo depois se viram ameaçadas de um corte no orçamento de 40%. Soma-se o fato de o atual presidente ser um militar reformado, embora com histórico de conflitos quando era do efetivo, e a própria proposta de Reforma da Previdência, que não altera os benefícios dos militares reformados. “As coisas não combinam”, resumiu Bahadian.

“Aqui se encontra o núcleo do problema, que pode ser de nos levar para uma situação de grande dilaceramento social, ou talvez a uma solução mais negociada, ou mais de acordo com o que estamos vendo ao longo dos últimos 40, 50 ou 60 anos da História do Brasil”, disse ele. Para o embaixador, a única solução para que o Brasil não se aprofunde em suas crises é uma negociação com os EUA, embora os termos dessa negociação ainda sejam difíceis de vislumbrar, principalmente levando em consideração a soberania nacional. Para ele, no entanto, a defesa do atual governo de uma “intimidade diplomática e estratégica” com os EUA seria impensável em qualquer outro momento da história do Brasil, mesmo logo após o Golpe de 1964. A situação é mais complexa porque os EUA também passam por um período de tensão social desde a eleição de Donald Trump.

O embaixador Adhemar Bahadian discutiu o papel das Forças Armadas no contexto atual brasileiro. Foto: Fernando Alvim

Caminhos para o desenvolvimento

“O que estamos vivendo é a crise de um sistema econômico, uma crise entre capital e trabalho”, reforçou Adhemar Bahadian, citando a fala anterior de Mauricio Metri. “Estamos adaptando um país como o Brasil, um país subdesenvolvido, que tem uma fronteira enorme de crescimento, a uma política trazida, por exemplo, pela Reforma Trabalhista, que é de países desenvolvidos”, criticou ele, citando também a diminuição da força dos sindicatos, também uma medida adotada por países desenvolvidos. “Todas essas coisas são estratégias para se reduzir a força do trabalho e colocar o capital e o detentor do capital e do poder de mercado com muito mais faca e queijo na mão. Eu acho que esse processo, que é universal, vai rachar, e vai rachar nos EUA também”, apostou o embaixador.

Para Mauricio Metri, é essencial falar em geopolítica para entender os potenciais do Brasil. “Existe um certo tabu em falar de geopolítica. Isso dentro da universidade é muito claro, como se falar de geopolítica fosse um assunto dos quartéis”, ponderou ele. “Existe um trauma, uma ferida ainda aberta na sociedade brasileira do período do Regime Militar. Digamos que tratar desse assunto sempre tem um viés delicado, sobretudo dentro das universidades que foram vítimas de arbítrio”.

Clique aqui para assistir ao evento na íntegra no canal do Youtube do Clube de Engenharia.

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