Aparelhos de apoio e a manutenção de pontes e viadutos

Carlos Siqueira falou sobre a importância da manutenção dos aparelhos de apoio na vida útil de pontes e viadutos. Foto: Fernando Alvim.

Pontes e viadutos têm um dispositivo fundamental em suas estruturas: o aparelho de apoio, que faz a vinculação entre elementos como vigas e pilares, permitindo sua movimentação natural. “Aparelhos de Apoio de Estruturas de Concreto: Inspeções, Manutenções e Substituições” foi a palestra do dia 24 de abril no Clube de Engenharia, com o engenheiro civil e doutor em Patologia das Estruturas Carlos Henrique Siqueira. Consultor da Ponte Rio-Niterói para serviços de manutenção desde 1966, Siqueira também compõe a diretoria da Associação Brasileira de Pontes e Estruturas (ABPE).

O engenheiro focou a palestra em um tipo específico de aparelho: o “aparelho de apoio de elastômero fretado”, popularmente chamado de “neoprene” em função de uma marca popular do produto, composto por uma sobreposição de camadas de chapa de aço e um tipo de borracha, que é o elastômero. Fundamental na estabilidade de pontes e viadutos é regulado pela norma técnica NBR 19783 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT).

Aplicação e eficácia do apoio

Segundo Siqueira, os aparelhos de apoio funcionam corretamente se forem bem projetados, bem produzidos, com eficaz controle da qualidade e corretamente instalados. As questões de projeto e de fabricação, geralmente, não causam problemas, diferentemente do controle da qualidade e da instalação. Elastômeros devem seguir regras rígidas para terem sua utilização aprovada, sendo expostos a ensaios de dilatação e contração, sem poderem romper, dentre outros testes. Mesmo assim, se as fabricantes seguem as normas, não são muitos os problemas em relação à qualidade. O mais grave, para Siqueira, é a incorreta instalação dos aparelhos de apoio: “Na minha visão, aqui está o problema. Nós exigimos muito do fabricante sem olhar para a instalação”. Em muitas obras os responsáveis não sabem onde e como posicionar o aparelho de apoio, de modo que este fica “sobrando” na estrutura, sem distribuir bem a carga que recebe, podendo sofrer deformações e perder sua eficiência.

Monitoramento e substituição

Aparentemente pequeno, o aparelho de apoio é valioso, não somente em sua função, mas economicamente: cada decímetro cúbico de elastômero custa, em média, 80 reais. A ponte Rio-Niterói contém 3.200 aparelhos de apoio, e no ano de 2014 foram trocados oito, o que custou três milhões de reais. A substituição dos dispositivos não é somente cara, como também complexa: ficam posicionados no meio de pontes e viadutos, que não podem ser interditados com grande frequência. Na própria Rio-Niterói, quando ainda não tinha o fluxo de carros que tem hoje, no ano de 1987, a troca de um aparelho foi uma operação de 15 dias que interditou parte da via.

Siqueira entende que nem sempre um aparelho de apoio aparentemente deformado se torna inútil – ou perigoso – e deve ser trocado. O produto tem uma reserva de resistência que garante sua eficácia mesmo quando visualmente desagradável. Muitas vezes é possível consertar a situação – se o aparelho estiver apenas torto, por exemplo – e analisar melhor antes de realizar todos os procedimentos de substituição. “Ninguém demole um pilar para fazer outro, mas um aparelho de apoio todo mundo quer trocar. Não é assim. Isso tem custo. E já existe uma metodologia consagrada mundialmente que se pode fazer”, comentou. Por isso, tão importante quanto são os aparelhos de apoio nas pontes e viadutos, é a vistoria periódica dos mesmos. Na Ponte, os mais de 3000 aparelhos são vistoriados anualmente, e 88 deles demandam maior atenção. O engenheiro estabeleceu alguns parâmetros: se os apoios estiverem intrinsecamente disformes, não totalmente assentes, ou com bojamento acentuado, não é necessário mexer; se estiver fora do lugar e com tendência a cair, é possível ajeitar sua posição sem trocar; e somente se o apoio estiver com esmagamento, vínculos estruturais e desnível na junta de dilatação a substituição é necessária.

Recomendações valiosas

Por fim, o especialista deixou recomendações para a boa utilização do elastômero: sempre ter um profissional acompanhando a produção; a empresa da obra marcar presença no controle de qualidade; fazer o gerenciamento da aplicação; e monitorar com frequência os aparelhos na estrutura. Siqueira enfatizou que contratar um profissional para monitorar tem custo-benefício muito melhor do que fazer a substituição do aparelho.

Ao final da palestra, o engenheiro respondeu a perguntas e foi elogiado pelo respeitado engenheiro civil Bruno Contarini, conselheiro do Clube, que foi o diretor responsável pela ponte em sua construção: “O Siqueira é o responsável pela manutenção da Ponte Rio-Niterói, que para mim é a melhor manutenção do mundo. Ele está dando aula de manutenção da Ponte e eu estou satisfeitíssimo”.

O evento, promovido pela Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e a Divisão Técnica de Estruturas (DES), contou com o apoio da Associação Brasileira de Engenharia e Consultoria Estrutural (ABECE) e Instituto Brasileiro do Concreto (IBRACON).

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