Palestra Milton Vargas debate aterro sanitário e geotecnia

Jucá apresentou a engenharia geotécnica envolvida na construção e operação de aterros sanitários. Foto: Fernando Alvim.

As soluções para o problema do lixo no Brasil ainda desenham um cenário desanimador: existem 3.331 lixões funcionando no país, e menos da metade das cidades brasileiras, um total de 2.239, seguem a legislação destinando o lixo a aterros sanitários. No entanto, o setor só cresce e gera bilhões de reais todos os anos. Este foi o tema da Palestra Milton Vargas, da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS), realizada no Clube de Engenharia no dia 09 de maio. O professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), José Fernando Thomé Jucá, apresentou o trabalho “Geotecnia ambiental aplicada e depósitos de resíduos sólidos: investigação geoambiental, projetos e controle tecnológico de obras”.

O Brasil é a oitava potência do mundo em geração de lixo. O número de lixões no país é preocupante: produzimos, somente no ano de 2017, cerca de 78 milhões de toneladas de lixo, informa Jucá. No que compete ao tratamento, a quantidade de aterros vem aumentando, enquanto as cidades fecham lixões, mas a evolução é acompanhada por uma contradição, na visão do palestrante: o setor de resíduos em geral, seja lixo, resíduo industrial, mineral ou outros, é trabalhado por apenas 1,5% dos de profissionais especializados. A qualidade dos trabalhadores em aterros também é um obstáculo para o setor: menos de 1% tem ensino superior.

Geotecnia aplicada

O palestrante explicou que o aterro sanitário é “uma obra geotécnica por excelência”, com compactação, movimento de massa, densidade, dentre outras características. Se mal operado, pode apresentar tantos riscos quanto uma encosta, um morro ou uma barragem, além da poluição atmosférica com os gases. Ao longo da apresentação, Jucá deu mais detalhes sobre a engenharia envolvida nos aterros sanitários, que chegam a ter centenas de metros de altura. A estrutura tem alguns elementos fundamentais: a compactação do lixo; uma camada de cobertura permeável para entrada de água e saída de gases; uma camada de base impermeável; e o sistema de drenagem de líquido (chorume) e gases (metano e dióxido de carbono, principalmente). Com a constante decomposição de matéria orgânica ao longo do tempo, a massa compactada muda de características, o que torna fundamental o conhecimento dos parâmetros envolvidos.

Jucá mostrou como fazer estudos necessários para a boa operação do aterro, como permeabilidade, resistência e medição de infiltração, além de reunir orientações em relação à drenagem, que é fundamental. Os drenos podem sofrer entupimento microbiológico e romper, gerando efeitos que vão além do mau cheiro, como a poluição atmosférica e, mais grave, a ruptura da massa, fazendo com que um volume do aterro caia.

Outro tema abordado foi o potencial econômico do aterro sanitário: o gás pode ser utilizado como biogás e o chorume como adubo, mas o que se destaca no Brasil é a separação de resíduos de alto poder calorífico e transformação em Combustível Derivado de Resíduos (CDR). Muitas fábricas de cimento estão comprando lixo de alto poder calorífico com baixa umidade para substituir o coque de petróleo (“petroleum coke” ou “petcoke”), combustível sólido derivado do petróleo cujo preço varia de acordo com o dólar.

Geotecnia ambiental

Jucá também dedicou um tempo para falar de sua área de atuação, a Geotecnia Ambiental, que une esta área da engenharia fundamental para a estabilidade de estruturas à preservação ambiental. É um campo muito amplo, que estuda desde a gênese do solo até o uso de agrotóxicos, contaminantes, materiais nocivos ao solo e outros. Por esse motivo, é fundamental, como destacou, a atuação em equipe multidisciplinar, com biólogos, químicos e outros. Segundo Jucá, existem hoje 75 pesquisas de Geotecnia Ambiental em desenvolvimento apoiadas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e outras centenas de pesquisas de Geotecnia e de Meio Ambiente. A tendência, para ele, é que as duas áreas se juntem e a própria Geotecnia tenha sempre a visão ambiental, deixando de existir a área específica. “A ideia é que nós tenhamos sempre unidos os conhecimentos tanto da Geotecnia quanto de Meio Ambiente, e a sustentabilidade como pano de fundo”, defendeu.

A palestra Milton Vargas acontece anualmente, organizada pela ABMS, e o palestrante escolhido faz a apresentação itinerante em diversas cidades do país.  O evento homenageia o professor Milton Vargas, ícone da engenharia geotécnica, um dos primeiros a lecionar mecânica dos solos no país, no início dos anos 40, e um dos fundadores da ABMS. Milton Vargas faleceu em 2011.

O evento foi promovido pela Diretoria de Atividades Técnica (DAT) e Divisão Técnica de Geotecnia (DTG). Na organização, a ABMS contou com o apoio do Núcleo Regional do Rio de Janeiro da ABMS.

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