O Brasil do futuro e a energia nuclear

Leonam Guimarães, presidente da Eletronuclear. Foto: Juliana Portella.

“Se o século XIX foi do carvão e o século XX do petróleo, o século XXI será nuclear”. Com essa frase o presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, abriu a palestra “O Futuro da Energia Nuclear”, de Leonam Guimarães, no dia 18 de junho. Guimarães é presidente da Eletronuclear, engenheiro naval e oceânico, mestre em Engenharia Nuclear e doutor em Engenharia Naval e Oceânica. Também integrou a mesa o presidente da Academia Nacional de Engenharia (ANE), Francis Bogossian.

A projeção apresentada por Celestino foi confirmada por Guimarães, ao defender que o uso de fontes estáveis na matriz energética é uma necessidade da sociedade e um caminho para o desenvolvimento econômico e social. E mais: embora a revolução que se espera do nuclear ainda não tenha começado, chegará inevitavelmente por necessidade da população, uma vez que as energias que historicamente se destacam são as mais densas possíveis, caso da nuclear. Mas toda a eficiência que a energia nuclear oferece esbarra na aprovação da sociedade.  “É o pior caso de marketing da história”, por ter sido apresentada ao mundo pelas bombas de Hiroshima e Nagasaki, afirma o presidente da Eletronuclear. “O medo da arma nuclear passou por uma simbiose e virou o medo consequentemente da usina nuclear”, afirmou.

O potencial brasileiro

O Brasil é o nono maior produtor de energia elétrica do mundo, destacando-se pelo uso das hidrelétricas, enquanto a maior parte dos países utiliza em grande escala na matriz o carvão  e o gás natural, combustíveis fósseis considerados fonte de energia não renovável. A energia nuclear corresponde a 2,5% da energia elétrica gerada no país, mas é uma porcentagem fundamental para manter a estabilidade do sistema elétrico nacional, segundo Leonam Guimarães. E mesmo que se façam outros usos da energia nuclear, como na medicina, ainda é ínfimo o que se realiza comparado com seu potencial. O Brasil está entre a sexta e a sétima posições no mundo em reservas de urânio, espalhadas em diversos Estados, e ainda com reservas não exploradas. Somente o Brasil, Estados Unidos e Rússia dominam três pilares fundamentais da energia nuclear: recursos tecnológicos, reserva de urânio e usina com experiência operacional.

A estratégia do investimento nessa forma de energia se dá por diversos motivos, entre eles o domínio total sobre o ciclo do combustível; a segurança contra crises internacionais na cadeia de suprimento do combustível nuclear; e a segurança contra volatilidade de preços no mercado. Além disso, é uma energia limpa; não emite Gases de Efeito Estufa (GEE). Neste ponto, Leonam Guimarães lembra das metas de redução de GEE assumidas pelo Brasil no Protocolo de Paris: o país deve ter participação de 45% de energias renováveis em sua matriz energética até 2030. Apesar do crescimento de energias como eólica e solar, Guimarães acredita que falta um olhar para a nuclear, inclusive com políticas públicas: “Se o objetivo é reduzir as emissões de forma significativa, não podemos descartar outras opções ou criar políticas públicas para incentivar exclusivamente a energia renovável".

Angra III: avançam tentativas para retomar obras

Pesquisas realizadas indicam que a nova usina terá grandes impactos socioeconômicos: cada R$ 1 injetado no projeto se torna R$1,12 a nível local, R$ 1,57 no Estado do Rio de Janeiro, R$ 1,97 no Sudeste e R$ 2,28 no Brasil. Entre as vantagens da usina estão a segurança energética; alta confiabilidade; e proximidade dos centros de consumo. Guimarães explicou que a usina representará não somente uma nova fonte como uma segurança em todo o Sistema Interligado Nacional: se sua energia fosse despachada com a tarifa até então de referência, de R$ 480 por megawatt/hora, considerado um valor alto, mesmo assim o custo total do sistema elétrico brasileiro diminuiria. Mas a expectativa, segundo ele, é diminuir a tarifa.

O "marco zero" da construção de Angra III, representado pela primeira concretagem na laje de fundação do reator, aconteceu em 2010. Por volta de 2015 as obras foram interrompidas porque a estrutura de financiamento da usina previa uma contrapartida de capital próprio da Eletronuclear com a qual a empresa não era capaz de arcar. Outro fator para a perda de capacidade de investimento por parte da empresa foi a Medida Provisória 579/2012, que se tornou a Lei 12.783/2013, explicou Leonam Guimarães.

Atualmente, a equipe da Eletronuclear trabalha para preservar os equipamentos comprados e estruturas já construídas, incluindo a esfera de contenção do reator de Angra III, concluída até a metade. O progresso físico do empreendimento como um todo é da ordem de 60%. Segundo Leonam, a retomada das obras visa inclusive a otimizar o conhecimento acumulado pela empresa para a finalização da contenção esférica do reator: “É uma experiência operacional que está se perdendo. Ainda temos gente que trabalhou nisso mas vai se perder, mesmo porque os novos projetos, em geral, não têm contenção esférica. Todos têm contenção cilíndrica”, explicou.

O investimento já realizado é da ordem de 9 bilhões de reais, e o custo para conclusão é de 15 bilhões. Mas existe também um cálculo para não conclusão: rescisão de contratos com fornecedores, desmontagem do que foi feito, elaboração de Plano de Recuperação de Áreas Degradadas, entre outras atividades necessárias somariam um custo de 11 bilhões de reais. Para a Eletronuclear, não concluir Angra III não é uma opção. A empresa avança com as tentativas de retomada, tendo realizado sondagem de mercado para identificar empresas que poderiam se tornar parceiras, seguindo o critério de escolher uma que seja detentora e proprietária da tecnologia de usina PWR, priorizando uma parceria não somente financeira mas também tecnológica. A expectativa é, até o final de 2019, publicar um edital de chamada pública para atração de parceiro e fazer o leilão, com modalidade ainda a ser definida. Se tudo der certo, segundo Leonam Guimarães, as obras podem recomeçar no segundo semestre de 2020.

O evento foi promovido pela Academia Nacional de Engenharia (ANE), com o apoio do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (CREA-RJ) e do Clube de Engenharia.

Veja aqui a apresentação de Leonam Guimarães.

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