Eduardo di Blasi apresentou as estratégias que baseiam a ação segura em ambiente de trabalho. Foto: Fernando Alvim.

A engenharia nuclear está presente no cotidiano das pessoas: desde a nanotecnologia necessária nos eletrônicos portáteis até procedimentos médicos avançados. No entanto, ainda existe muito preconceito e desinformação, principalmente a respeito da segurança envolvida no trabalho com material radioativo. “Desmistificando a Energia Nuclear” foi o tema da palestra realizada no Clube de Engenharia no dia 04 de Junho, com a participação de Eduardo Di Blasi, engenheiro civil especialista em Engenharia Nuclear e membro da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN); Domingos D’Oliveira, engenheiro eletricista mestre em Engenharia Nuclear; e Neilson Ceia, engenheiro eletricista pós-graduado em Engenharia de Segurança do Trabalho e subchefe da Divisão Técnica de Engenharia de Segurança (DSG).

Mundo radioativo

Primeiro ponto destacado por Domingos D’Oliveira: vivemos num mundo radioativo. Os elementos radioativos estão na composição da Terra e são absorvidos pelos humanos no consumo de vegetais e animais. Outro conhecimento fundamental é a diferença entre irradiação e contaminação: a irradiação, tal como vem do Sol, acontece o tempo todo, mas nem sempre é ionizante. Irradiação ionizante é quando acontece a contaminação, ou seja, o corpo que foi irradiado passa a conter o elemento radioativo. Mesmo assim, nem sempre é permanente nem maléfico. O engenheiro explicou que existem níveis seguros de recursos radioativos que podem ser acessados na natureza, sendo que o que importa na verdade é a “dose”, a quantidade recebida. Embora haja muito receio quanto à atividade nuclear, Domingos mostrou que a maior parte da radiação que entra no homem (82%) vem de fatores naturais, 18% vem de exames médicos e somente 0,03% tem origem em centrais nucleares e testes militares. “Tudo à minha volta vai redundar numa certa quantidade de energia depositada no meu corpo. Seja qual for a fonte, eu estou imerso num mundo radioativo, sempre”, disse.

Mesmo assim, toda prática com material radioativo é cuidadosamente trabalhada para que os riscos sejam os menores possíveis. Os responsáveis precisam saber quais são os elementos antes inexistentes no ambiente em questão que serão inseridos, e suas respectivas quantidades. O monitoramento acontece em toda a vida útil da instalação, seja central nuclear, fins medicinais, entre outros. Assim, no que se refere à prática, D’Oliveira apresentou os três princípios fundamentais da radioproteção: justificativa, que é quando a prática em questão vai gerar mais benefício do que potencial dano; limitação de dose individual, que visa a utilizar a menor dose possível para que a prática aconteça sem agredir ninguém; e otimização da proteção, que se trata de continuar trabalhando novas técnicas e tecnologias para diminuir o risco na atividade, como por exemplo trocar trabalhadores por robôs.

Da esquerda para a direita: Domingos D’Oliveira, Neilson Ceia e Eduardo Di Blasi. Foto: Fernando Alvim.

Cultura de Segurança deve estar em todos

A respeito dessa responsabilidade, o tema Cultura de Segurança foi introduzido por Eduardo diBlasi, especialista em engenharia nuclear. A cultura de segurança é definida como os valores e comportamentos resultantes de um comprometimento coletivo dos líderes e indivíduos. Portanto, a noção de segurança para si e para todos precisa perpassar todo o corpo de funcionários, estando todos conscientes de que é preciso agir de forma segura. Segundo o palestrante, numa cultura de segurança bem estruturada, a segurança está acima de qualquer outra prioridade competitiva, inclusive vantagem econômica; a cultura de segurança deve ser sempre revitalizada; os líderes da organização devem garantir que o tema seja discutido; e é preciso sempre rever pontos fracos e fortes da cultura implementada. Ele falou sobre as cinco estratégias que são a base da ação segura, chamadas de 5 Es : excelência; eficiência, eficácia, efetividade e equilíbrio. São estratégias que, se aplicadas, garantem a execução de tarefas sem necessidade de retrabalho, a obtenção dos melhores resultados, utilização das técnicas mais atuais e qualificadas, e a noção, de cada indivíduo presente no processo, de que há outros dependentes do seu trabalho.

Procedimentos de segurança e monitoramento

A respeito especificamente das normas brasileiras que garantem a segurança em locais de trabalho com material nuclear, Neilson Ceia apresentou algumas definições e legislações. Como normas reguladoras, são aplicadas a NR 15, voltada para atividades e operações insalubres, e NR 16, que ampara os trabalhadores em atividades e ações perigosas, ou seja, com componente de periculosidade. Mais especificamente no caso de ambientes onde o trabalhador está exposto a radiações ionizantes ou substâncias radioativas, existe a Portaria nº 518, de 2003, do Ministério do Trabalho. As legislações vigentes visam a proteger tanto os trabalhadores quanto o meio ambiente.

Também existem as diretrizes e normas da CNEN, que orientam radioproteção, tratamento de resíduos, instalação e descomissionamento de usinas, entre outras atividades ligadas ao trabalho com material radioativo ionizante. Por exemplo, a norma 3.01 / 003:2011 define coeficientes de dose para indivíduos ocupacionalmente expostos (IOE), ou seja, medidas seguras de exposição. Ceia apresentou os parâmetros fundamentais aplicados na otimização da exposição dos IOE: tempo, fonte (material que irradia) e dose absorvida são alguns deles. Ou seja: qual é o material, por quanto tempo, e a dose absorvida, sendo que a dose terá efeitos diferentes dependendo da massa corporal da pessoa. Por fim, o especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho comentou que a gestão de risco é um assunto muito sério nas empresas que trabalham com radiação ionizante, e é obrigatório haver o Controle Radiológico de Trabalhadores: um monitoramento individual para medir as doses recebidas pelos trabalhadores. Esse histórico radiológico deve ser mantido por 30 anos, assim como é fundamental manter o histórico da área onde a atividade foi estabelecida.

O evento foi promovido pelo Clube de Engenharia, Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e Divisão Técnica de Engenharia de Segurança (DSG). Teve apoio das divisões técnicas de Ciência e Tecnologia (DCTEC), Engenharia do Ambiente (DEA), Engenharia Industrial (DEI), Energia (DEN), Eletrônica e Tecnologia da Informação (DETI), Manutenção (DMA), Engenharia Química (DTEQ), além da Associação dos Fiscais de Radioproteção e Segurança Nuclear (AFEN).

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