Exportação de minério de ferro: navios expostos à instabilidade

Fernando Saboya apresentou os riscos da exportação de minério de ferro em águas tropicais. Foto: Fernando Alvim

O Brasil tem o minério de ferro como um bem fundamental para sua economia, representando cerca de 75% de nossa exportação mineral. A produção nacional, por ano, fica na casa dos 2 bilhões de toneladas. No entanto, uma das principais rotas que o produto faz, entre Brasil e China, tornou-se um perigo para o próprio negócio: em situações de fortes tempestades, o minério de ferro pode se liquefazer e afetar a movimentação da embarcação, que em alguns casos chega a naufragar. Para falar sobre esse campo pouco explorado na Geotecnia, alvo de muito ceticismo e dúvidas, o Clube de Engenharia promoveu a palestra “Liquefação de Minério de Ferro durante transporte marítimo: modelagem física e numérica”, no dia 16 de maio, com Fernando Saboya, engenheiro civil, com mestrado e doutorado na mesma área, e professor na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF).

O problema: umidade do material e tempestades

O que acontece, na prática, é que o minério de ferro é embarcado numa quantidade que pode chegar a centenas de milhares de toneladas, ou o quanto couber no navio, e o movimento da embarcação, principalmente se brusco, faz com que a umidade se desloque no interior da pilha, tornando alguns pontos mais saturados do que outros.

Segundo Saboya, nos últimos 30 anos têm se multiplicado as tempestades tropicais, inclusive na rota Brasil-China que passa pelo sul da África. Nessa situação, o navio pode girar em torno de seu eixo aproximadamente 40 graus, entrando em grande instabilidade. O sólido dentro da embarcação passa a se movimentar, mudando seu centro de gravidade, e a umidade deslocada torna o material viscoso e pode pesar o navio para um lado só. Essa circunstância tem o potencial de ser “instantânea e catastrófica”, segundo Saboya.

O palestrante explicou que a maior parte dos acidentes fatais com navios do tipo é associada à liquefação da carga sendo transportada. Mesmo assim, ainda existe muito ceticismo em relação à ocorrência desse tipo de evento, por isso o professor apresentou testes realizados em laboratório, com modelagens físicas e numéricas, com o propósito de compreender o que de fato acontece com o minério de ferro em condições marítimas adversas. Nos testes foi utilizada gelatina em pó para simular o minério de ferro, além de equipamentos como centrífuga e rolling table para simular os movimentos pelos quais passa a embarcação na rota percorrida. Com os testes, a equipe de pesquisa percebeu que, com o intenso movimento do mar em situação de tempestade, a água que compõe a umidade do material migra para o fundo da pilha, de modo que a zona saturada se forma na base da embarcação.O material sai de um estado de “pilha” para um estado completamente horizontal, movimentando-se como um gel e aumentando os riscos de instabilidade do navio.

Solução envolve decisões econômicas

A palestra de Saboya impressionou os presentes e levantou questionamentos, principalmente sobre métodos de se ter menos umidade na carga exportada. Esse é um procedimento difícil de realizar ainda no porto, uma vez que a enorme quantidade de minério de ferro fica disposta no local, em muitas ocasiões, exposta às intempéries ambientais. O professor explicou que, além de haver um teor mínimo de umidade necessariamente presente no minério de ferro, existe uma questão ambiental a respeito da drenagem da água. Retirar a umidade do material enviando a água para o mar seria uma violação de regras sobre águas internacionais. Quanto a drenar para armazenar em outra parte do navio, ou adicionar estruturas ou componentes capazes de drenar, é uma questão econômica: teria que ser uma decisão do capitão do navio destinar uma parte considerável de sua embarcação para carregar um material não comercializável. Uma situação muito improvável, pois, via de regra, as embarcações de exportação saem do país praticamente lotadas de material. “Soluções existem, mas passam pelo viés de viabilidade econômica. Claro que ninguém quer perder navio, mas uma boa parte dos relatórios de estudo dizem que esse material não se liquefaz”, afirmou Saboya, completando que ainda há muita descrença sobre a real ocorrência do fenômeno da liquefação, mesmo representando um risco para as empresas de exportação, de seguro, de navegação e, principalmente, à tripulação do navio.

O evento foi promovido pelo Clube de Engenharia, Diretoria de Atividades Técnicas (DAT), Divisão Técnica de Geotecnia (DTG) e Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS), com apoio do Núcleo Regional do Rio de Janeiro da ABMS.

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