Potenciais e desafios para uma Política de Agricultura

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura; o moderador Agostinho Guerreiro, ex-presidente do Clube de Engenharia; e Cândido Grzybowski, presidente do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). Foto: Juliana Portella

A série “Brasil: Nação Protagonista” chegou ao seu sétimo encontro no dia 11 de julho, com um rico debate sobre “Agricultura Brasileira”, que se estendeu por três horas. Promovido pela presidência do Clube de Engenharia, o evento teve como convidados o ex-ministro da Agricultura e engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues, e o sociólogo e presidente do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) Cândido Grzybowski. Ao  presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, coube a apresentação dos palestrantes e ao ex-presidente Agostinho Guerreiro a mediação.

Pedro Celestino abriu o encontro lembrando que a consolidação do agronegócio no Brasil nas últimas quatro décadas só foi possível a partir da criação de uma empresa pública: a Embrapa. “A Embrapa foi que embasou a transformação da agricultura brasileira, que é o setor mais dinâmico da nossa economia”, registrou. “Nós estagnamos do ponto de vista industrial, mas este país só não entrou em colapso ainda por conta de sua agricultura, que dobra de produção a cada vinte anos”, disse. Ele lembrou, ainda, da importância da agricultura familiar, que é responsável por 70% dos alimentos que chegam às casas dos brasileiros. “Andamos com as duas pernas: alta tecnologia, exigindo grandes áreas e grandes investimentos de capital, e, portanto, poupador de mão de obra; e a pequena propriedade, com pouca tecnologia, empregando muita mão de obra”, concluiu.

O moderador Agostinho Guerreiro destacou a situação privilegiada do Brasil no que diz respeito à produção de alimentos, diferente de outros países. Ele deu ênfase à experiência dos palestrantes em áreas distintas da agricultura, um dos setores da economia com maior relevância na atualidade, com imensa diversidade de questões em pauta. “Temos a questão da Amazônia, floresta versus agricultura, a questão ambiental, uso e quantidade de agrotóxicos e questões relacionadas à produtividade e à saúde humana”.

Agronegócio: motor de desenvolvimento
O ex-ministro da Agricultura e engenheiro agrônomo Roberto Rodrigues trouxe dados sobre a importância do setor. Segundo ele, dados oficiais mostram que o agronegócio respondeu, em 2018, por 21% do PIB brasileiro, 20% dos empregos e 42% das exportações. E a tendência é que a discussão sobre políticas para o setor só aumente: “O tema da segurança alimentar é universal e a Organização das Nações Unidas passou a falar disso no começo deste século XXI. A ONU entendeu que não há paz sem segurança alimentar”, explicou ele. O Brasil já é líder mundial em produção de suco de laranja, café e açúcar, mantendo-se também entre os principais produtores de soja, carne de boi, carne de frango, milho e carne suína. Esses dados também se refletem nas exportações.

Prospecções de organismos internacionais têm tentado mostrar como o setor precisará se adaptar às mudanças demográficas e ambientais nas próximas décadas. Rodrigues apresentou dados de uma pesquisa, do início de 2017, do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês), em que o Brasil aparece como o país que mais ampliará sua produção de alimentos até 2026/2027, com previsão de aumento de 41% até o período. Isso se dá porque o país é conhecido pela tecnologia tropical sustentável, por ter uma oferta significativa de terras, e também por dispor de profissionais qualificados.

Rodrigues citou, por exemplo, o Plano ABC da Embrapa (Agricultura de Baixa Emissão de Carbono), que prevê reduzir as emissões de gases do efeito estuda em 37% abaixo dos níveis de 2005 em 2015, e chegando a 43% em 2030. Outra questão importante é o papel que a bioenergia tem na matriz energética brasileira: a energia proveniente de derivados da cana já corresponde a 17% da produção total, mais até que a energia hidráulica (12%), segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

“Há uma demanda global para que o Brasil cresça sua produção de alimentos. Podemos? Podemos. Vamos? Eu já não sei”, disse Roberto Rodrigues. Para ele, ainda faltam políticas públicas amplas. O Brasil, entretanto, tem uma geração nova e qualificada de profissionais que estão prontos para alavancar o setor frente aos desafios da atualidade, e estratégias como cooperativas são bem-vindas como forma de ligar os grandes agronegócios aos pequenos produtores. “Nós precisamos olhar estrategicamente esse tema com uma visão que não é para o agro, mas para o país todo”, afirmou.

Por uma Agricultura ecossocial
Cândido Grzybowski, presidente do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), trouxe a perspectiva da agricultura familiar para o debate, alertando para a necessidade da divulgação de dados verídicos sobre a importância dessa atividade econômica, que, por sua vez, também tem uma centralidade social e cultural grande para o país. Quem produz os alimentos, como eles chegam à mesa, quem come e quem não come, além de que tipos de relações econômicas estão envolvidas nesse processo, são perguntas que, para Grzybowski, podem auxiliar uma análise crítica sobre a agricultura no Brasil. “Esse debate é além do sucesso econômico”, ponderou ele.

“É preciso qualificar o ‘agro é tech, agro é pop, agro é tudo’, porque não é tudo, não é toda a realidade agrária do país”, criticou Grzybowski. Reforma agrária, agricultura familiar e meio ambiente são só algumas das questões que, segundo ele, devem ser pensadas quando se pretende olhar para a Agricultura sob uma perspectiva de “Projeto de País”. “Como considerar toda a realidade agrária? Como pensar em soluções que não sejam somente as que levem à concentração”, questionou Cândido.

“Precisamos repensar nossa relação com a natureza. Nós interferimos no planeta. portanto somos parte do problema e da solução. Podemos melhorar e não destruir”, afirmou o socioólogo. “É possível falar em direitos humanos sem falar em direitos da natureza?”, argumentou, completando que “É preciso ir um pouco além da racionalidade econômica”. Cândido destacou que a responsabilidade com as gerações futuras e com outras formas de vida deveria estar no cerne do debate político sobre Agricultura. Isso porque a voz do agronegócio comumente não considera, por exemplo, que houve uma grande perda de diversidade nos alimentos produtivos.

“Precisamos ir além do desenvolvimento, que está associado a uma ideia de crescimento sem limites e de lucros sem limites na nossa sociedade”, sugeriu Cândido Grzybowski.

Clique aqui para assistir ao evento completo no canal do Youtube do Clube de Engenharia

Receba nossos informes!

Cadastre seu e-mail para receber nossos informes eletrônicos.

O Clube de Engenharia não envia mensagens não solicitadas.
Skip to content