Análise de riscos, de liquefação e sísmica como estratégias de segurança de barragens

Professor da UERJ e consultor geotécnico, Marcus Pacheco analisou possíveis riscos à integridade de barragens. Foto: Fernando Alvim.

O tema segurança de barragens tem sido um dos mais proeminentes da engenharia brasileira desde as tragédias causadas pelos rompimentos em Mariana e Brumadinho, cidades de Minas Gerais. Recentemente, em 11 de julho, a barragem do Quati, no município de Pedro Alexandre, Nordeste da Bahia, se rompeu e fez o nível do Rio do Peixe subir tanto que invadiu as margens e alagou o município vizinho de Coronel João Sá. Com a perspectiva de aprofundar o debate, o Clube de Engenharia recebeu, no dia 18 de julho, o professor Marcus Pacheco, da Escola de Engenharia da UERJ, para a palestra “Considerações sobre risco, liquefação e comportamento sísmico de barragens de rejeitos”.

Para Marcus Pacheco, é importante abordar o assunto na lógica de tomada de decisões baseadas em riscos. “Mas uma coisa é gerenciarmos o risco, outra coisa é gerenciarmos o caos. E o que se está fazendo hoje é gerenciar o caos”, criticou. Ao longo da palestra, o professor da UERJ e consultor geotécnico apresentou gráficos, dados e exemplos de questões importantes que devem ser aprofundadas para evitar que rompimentos continuem a acontecer e façam vítimas.

Risco social

O conceito de risco, explicou, pode ser entendido como a probabilidade de ocorrência de um evento adverso, como o rompimento de uma barragem, multiplicada pelas consequências de perdas (vidas humanas, custos, danos ambientais). “De todas as consequências, a que mais marca profundamente a sociedade é a perda de vidas humanas”, salientou, lembrando que se trata, portanto, do risco (nesse caso, “risco social”) mais importante a ser evitado.

Para ele, a boa engenharia é essencial para que a probabilidade de ocorrência de eventos adversos seja pequena e, portanto, para que o gerenciamento de risco seja possível e eficiente. Infelizmente, o observado no Brasil mostra o contrário disso. “Se somarmos os principais acidentes [com barragens no Brasil], nós temos nos últimos 33 anos pelo menos 7 rupturas com mortes”, alertou. Isso seria suficiente, segundo ele, para que as barragens no país fossem consideradas, no geral, como de baixa qualidade. “Nós não estamos acompanhando o padrão mundial de segurança esperado”, concluiu.

Liquefação estática e dinâmica

A liquefação do terreno das barragens tem sido apontada como um dos principais riscos para o seu rompimento. Para o professor Pacheco, pesquisas realizadas sobre a barragem de Mariana, que rompeu em 2016, mostram que, “em seu início, em seu nascedouro, ela [a barragem] já estava com problemas de drenagem interna”. Trata-se, segundo o palestrante, de problemas sérios. “Foi uma estrutura que já nasceu doente”, disse. O uso de um tapete drenante para corrigir o problema, além de outras ações paliativas, foram criticadas pelo professor.

Marcus Pacheco explicou que existem dois tipos de liquefação. Na estática, a resistência máxima (de pico) é excedida, com súbita geração de poro pressão, sendo necessário um gatilho para deflagrá-la e causar o rompimento da barragem. Na dinâmica, o poro pressão é gerado cumulativamente, em carregamentos ciclos, como pequenos terremotos que acumulam pressão até o ponto de rompimento. Em ambos os casos são necessários testes constantes para determinar que a liquefação não atingiu pontos críticos.

Obras de qualidade

Um ponto pouco debatido fora do meio técnico diz respeito ao efeito de pequenos terremotos na desestabilização das barragens e outras construções.

O professor Marcus Pacheco explicou que é imprudente dizer que esse poderia ter sido o motivo para o rompimento em Mariana, mas que um terremoto de baixa magnitude ocorrido pouco tempo antes pode ter contribuído para o desastre. “O terremoto de Mariana ocorreu 90 minutos antes do colapso da barragem. Causou trincas nas instalações da mineradora e fez cair ao chão um computador desktop”, afirmou ele. Para o palestrante, o Brasil forma poucos profissionais de geotecnia ou engenheiros com conhecimento em dinâmica geotécnica que sejam capazes de aprofundar análises a respeito do tema.

Na conclusão da palestra, o professor Pacheco propôs uma reflexão sobre a importância de obras de qualidade: “Análises de risco de barragens são imprescindíveis, porém inócuas em presença de obras de engenharia de baixa qualidade. Antes da análise de risco, é imperioso conceber obras seguras, sem prazos de construção irrealistas, baseados tão somente em preceitos de lucratividade”, disse ele. Além disso, elencou os principais riscos para as barragens de rejeitos: “A maioria das barragens de rejeito têm a instabilidade iniciada por rupturas clássicas, que são seguidas por liquefação estática, com grande mobilidade (grandes distâncias percorridas pelos rejeitos) e elevado poder destrutivo (perdas de vida, ambientais e materiais), cujo risco deve ser mitigado a partir de criterioso gerenciamento de risco”, disse, completando que “Eventos sísmicos, mesmo que de pequena magnitude, não devem ser negligenciados não apenas nas barragens de rejeitos, mas em qualquer obra de engenharia. É imperioso que a comunidade geotécnica se especialize em dinâmica geotécnica e análises sísmicas”.

O evento foi promovido pela Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e Divisão Técnica de Geotecnia (DTG), do Clube de Engenharia, em parceria com a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS – Núcleo Regional do Rio de Janeiro), e com apoio da Divisão Técnica de Recursos Minerais (DRM) do Clube e o Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB – NRRJ).

 

 

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