A contribuição das Ciências Geológicas para cidades mais sustentáveis

Prever situações de risco, como o deslizamento da Avenida Niemeyer, em fevereiro de 2019, é um dos objetivos da parceria com a NASA. Foto: Richard Santos / Prefeitura do Rio de Janeiro.

O acordo RIO-NASA, assinado em 2015 com o objetivo de monitorar e gerenciar crises na cidade e antecipar perigos ambientais, engloba quatro áreas: desastres naturais, mudanças climáticas, monitoramento ambiental e educação e divulgação científica. O registro vem confirmar que a sustentabilidade não só é hoje pauta da maior importância como vem sendo, cada vez mais, promovida em leis e políticas públicas. E, nesta conjuntura, planejamento e geotecnologias são fatores fundamentais para se alcançar o patamar de cidade sustentável. Entre outros, estes foram assuntos abordados no evento comemorativo dos 51 anos da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE), em 12 de setembro, no Clube de Engenharia: “As Ciências Geológicas podem contribuir na construção de cidades mais sustentáveis?”. Participaram Samir Costa, Coordenador de Macroplanejamento da Prefeitura do Rio, e Felipe Mandarino, Coordenador de Informações da Cidade no Instituto Pereira Passos (IPP-RJ).

Integraram a mesa de abertura Pedro Celestino, presidente do Clube de Engenharia, Thiago Dutra, presidente da ABGE (núcleo Rio de Janeiro e Espírito Santo), e Renato Ramos, presidente da Associação Profissional dos Geólogos do Estado do Rio de Janeiro (APG-RJ). A história do Rio de Janeiro no desenvolvimento da geologia nacional, principalmente após a criação da Petrobras, que conferiu prestígio internacional ao Brasil na Geologia de Engenharia por volta dos anos 60, foi questão central de Pedro Celestino na abertura do encontro. Apesar dos avanços até aqui, as entidades ligadas à área têm baixa representatividade, e é preciso que associações de geólogos, geologia de engenharia e outros segmentos se unam e também defendam os órgãos públicos ameaçados, como a Geo-Rio, destacou Renato Ramos. E a sistemática divulgação de avanços de sustentabilidade nas comunidades científicas, diante do longo caminho que o Brasil ainda tem para ser um país sustentável, foi defendida por Thiago Dutra.

Cooperação Rio-NASA pela prevenção de desastres 

Um dos pontos fundamentais para a saúde da cidade é ter um bom monitoramento de movimentos de massa e prevenção de desastres naturais, além da atuação posterior pelas autoridades competentes. Por isso, uma novidade que vem se somar ao monitoramento foi o tema da palestra de Felipe Mandarino: “Acordo de cooperação Rio-NASA: ciências aplicadas para a redução de risco de desastres”. Mandarino focou a palestra no tema dos desastres naturais, explicando que o acordo possibilitou que a prefeitura integrasse a tecnologia da NASA para detecção de movimentos de massa (como deslizamentos) na escala local, do município. Isso só foi possível através das ferramentas já existentes, com destaque para o sistema Alerta Rio, que possui 33 pluviômetros (medidores de água da chuva) em toda a cidade. “A lógica da parceria é sair da escala global, trocando ciência e informação, permitindo que os dados globais que a NASA gera sejam relevantes para a escala local”, afirmou Felipe Mandarino.

O sistema da NASA de mapeamento global detecta as condições atmosféricas em uma escala pouco detalhada, abrangendo grandes áreas de uma só vez, e recebe o dado de chuva do satélite três horas depois, sendo inviável para ação urgente no município. Por isso, a versão para o Rio foi adaptada: a escala é compatível com a do Alerta Rio e os dados são atualizados a cada 15 minutos. O sistema também permite visualizar os dados de um dia específico do passado, sendo possível analisar os sinais de uma região antes de um movimento de massa, por exemplo.  Segundo o geógrafo, este sistema já vai estar em operação no próximo verão.

A parceria ainda permitiu a criação de uma versão “2.0”, de previsão do tempo, que vai analisar dados além da chuva para identificar riscos, como áreas recentemente queimadas, propriedades do solo, umidade pré-existente no solo, etc. O corpo técnico ligado à prefeitura vai adaptar a tecnologia à escala local. Esta será a primeira vez que a NASA tem a iniciativa de modelar inundação numa escala local de cidade, em ambiente urbano, e faz parte dessa parceria um workshop dos profissionais da agência americana para os da prefeitura no mês de outubro. Mandarino ainda destacou que tudo isso só foi possível pelo histórico da cidade com suas entidades ligadas à Geologia que criaram as ferramentas de monitoramento, prevenção e solução de desastres naturais: “Essa parceria nasce porque já existe uma massa crítica, um conhecimento acumulado na cidade do Rio, notadamente na Geo-Rio”.

Uma cidade mais sustentável em 2050

Para além da prevenção de desastres, ter uma cidade sustentável envolve dar qualidade de vida às pessoas, e a conjunção de fatores para esta meta foi exposta por Samir Costa, na apresentação “O Plano de Desenvolvimento Sustentável da Cidade do Rio de Janeiro – o futuro em construção”. Segundo Costa, o Plano tem objetivos de curto, médio e longo prazo, divididos em três ciclos de ações: de 2020 a 2030, de 2030 a 2040 e de 2040 a 2050. O plano não deverá ser isolado, pois só pode ser executado com o envolvimento de outros setores do poder público: “A ideia é ser um pilar orientador de demais planos da cidade”, explicou.

O primeiro ciclo, cujas ações se iniciam em 2020, foi pensado unindo as necessidades do Rio de Janeiro e os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2015. Com essas bases, a prefeitura traçou um diagnóstico de quatro grandes pilares para o plano: mudanças climáticas e resiliência; longevidade e bem-estar; cooperação e paz; e igualdade e equidade. Passam por esses pilares proporcionar acesso a serviços públicos para a grande quantidade de idosos na cidade no futuro; equalizar acesso a direitos como água canalizada e alfabetização; e preparar a cidade para chuvas intensas que são cada vez mais frequentes. Costa destacou que o Plano de Desenvolvimento é executado com a participação dos cidadãos, que podem acessar o portal Participa.rio e colaborar. “A proposta é que o Plano de Desenvolvimento sustentável se torne projeto de lei, que vá a votação, e que seja mantido e apropriado pela sociedade para que, independentemente das gestões políticas que venham, seja uma prioridade nos planejamentos dos governantes”, concluiu.

O evento foi promovido pelo Clube de Engenharia e ABGE, e contou com apoio da APG-RJ, Sociedade Brasileira de Geologia – Núcleo Rio de Janeiro e Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS).

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