Precisamos dar mais atenção às certificações de conformidade

O aparato tecnológico que transmite dados requer dispositivos dentro das normas. Foto: Wyatt Berka / Flickr

Um jogador de futebol cruza o campo. Graças a um aparelho em sua camisa, todo o trajeto está registrado e é transmitido para que os dados possam ser usados na cobertura jornalística. Esses dados chegam aos computadores da emissora sem atrapalharem os muitos outros sinais e frequências atuando simultaneamente durante o jogo e, para que isso aconteça, todas elas precisam seguir uma mesma norma.

O exemplo evidencia que não é por coincidência que equipamentos montados em diferentes países funcionam pelo mundo.  Eles seguem normas criadas para garantir a segurança dos usuários e de todos os outros equipamentos em funcionamento simultaneamente. Invisíveis, mas permeando as telecomunicações no Brasil, as normas de conformidade são cada vez mais importantes em uma sociedade onde o poder está se concentrando na informação, na espionagem e no uso de dados coletados por aparelhos em tempo real. O tema foi debatido pelas divisões técnicas de Exercício Profissional (DEP) e Formação do Engenheiro (DFE), no dia 10 de outubro.

O palestrante José Alberto da Silva Carvalho, especialista na certificação da conformidade de produtos de telecomunicações, destacou que o setor hoje se prepara para viver uma invasão cada vez maior de novas tecnologias estrangeiras e apontou a importância das normas nesse processo. “A guerra hoje é de conhecimento e é travada via telecomunicações e espionagem. O engenheiro brasileiro está no centro disso tudo. Temos pessoal qualificado e temos que continuar qualificando e preservando a nossa fronteira tecnológica que passa pela certificação. Trata-se de uma questão de soberania nacional”, destaca. Como principal obstáculo para esse trabalho, Carvalho aponta a velocidade com que o mercado alimenta o consumo de tecnologias diversas. “Não podemos, por causa da velocidade do mercado, deixar de tomar conhecimento do que estamos recebendo, operando e do que está colocado nas mãos do usuário comum”, defende.

As primeiras normas de certificação de equipamentos de telecomunicação no Brasil nasciam do Sistema Telebras. Segundo o diretor Técnico do Clube, Patusco Lana Lobo, que abriu a palestra em nome da diretoria, a Anatel passou a tratar do assunto em 2007. “Após a privatização de 1988 houve um hiato de responsabilidades sobre as normas. As chamadas Práticas Telebras ainda eram usadas como base, mas era preciso atualizar o sistema. O Clube enviou carta à Anatel pedindo que ela se responsabilizasse pela elaboração dessas normas e sua fiscalização, algo que ninguém fazia desde a privatização”, conta Patusco.

Hoje, quem cria essas normas são os Comitês de Certificação, que são compostos por mecanismos certificadores e laboratórios de ensaios. “Passamos boa parte do tempo discutindo as normas e aperfeiçoando os seus textos. As resoluções que seguimos usando são a 242 e 323, uma de 2000 e outra de 2002, que têm atendido bastante bem. Estamos há dois anos discutindo um novo regulamento. Aplicamos as práticas Telebras por muitos anos, foram nosso ponto de defesa nas telecomunicações. Era um trabalho detalhista que cobria todas as necessidades com as ferramentas da época. Agora, após dois anos de discussões entre certificadores, laboratórios de ensaio, Anatel, a indústria e as operadoras, colocamos em consulta pública o texto que está para ser homologado com alguns retoques”, conta Alberto.

Com pouco conhecimento desse universo e da sua importância no cotidiano, as pessoas seguem alimentando uma cultura que vai diretamente contra o conceito de conformidade: a do “jeitinho”, o da “gambiarra”. Os resultados podem ser catastróficos. “Quando há uma não-conformidade, o ‘jeitinho’ pode manter tudo funcionando. Duas não-conformidades juntas já gera um problema. Mais de três costumam levar a catástrofes. Brumadinho, por exemplo, tinha um conjunto de não-conformidades que levaram ao rompimento das barragens, a começar pelos próprios sensores de movimento que não possuíam o selo da Anatel. Nós precisamos aprender que ser bom em usar o ‘jeitinho’ para fazer as coisas funcionarem sem conflitos não é um elogio”, finaliza Carvalho.

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