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notícia 26/04/2017

Debate e atividades práticas estreitam parceria do Clube com grupos de foguete

No centro, Luiz Bevilacqua (de camisa amarela) e Luiz Fernando Taranto (de óculos e camisa azul), com os estudantes da PUC, UERJ, UFRJ e CEFET. Foto: Carolina Vaz
No centro, Luiz Bevilacqua (de camisa amarela) e Luiz Fernando Taranto (de óculos e camisa azul), com os estudantes da PUC, UERJ, UFRJ e CEFET.
Foto: Carolina Vaz

Com dificuldades tanto nas atividades teóricas quanto práticas, falta de acesso à tecnologia e até mesmo à informação, um grupo de estudantes de engenharia busca espaço para se desenvolver na área de foguetes. Em 6 de março, em uma conversa franca com o presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino; o coordenador da Secretaria de Apoio ao Estudante de Engenharia (SAE), José Stelberto Soares; o secretário executivo Luiz Fernando Taranto; e o conselheiro Luiz Bevilacqua, 12 estudantes de cinco universidades, membros de diferentes grupos de foguetes, apresentaram suas ideias, dúvidas e ambições. Em pouco mais de um mês, a entrada na SAE de coletivos que desenvolvem projetos de foguetes já rende frutos: o Workshop de Propulsão e Operação que aconteceu no Clube nos dias 8 e 9 de abril.

O grupos Orion, da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio); Grupo de Foguetes do Rio de Janeiro, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ); Minerva Rockets, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e Rocket Wolf, do CEFET-RJ, vêm se encontrando há menos de dois anos em workshops referentes à construção, operação e gestão de foguetes. Eles já receberam, para os eventos, representantes de núcleos de engenharia de foguetes sediados no Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), Universidade Federal do ABC (UFABC) e Universidade de São Paulo (USP) e conquistaram apoio da Olimpíada Brasileira de Astronomia (OBA). No entanto, falta-lhes apoio no próprio ambiente universitário, por parte de docentes, direção de curso, etc. Os estudantes encontram dificuldades para conseguir material, laboratório e até mesmo conhecimento para a prática da atividade.

Desenvolvimento de pesquisa e prática
Segundo Ivan de Sousa, estudante de Engenharia de Materiais da UFRJ e membro do Minerva Rockets, os grupos de foguetes se interessam pela ciência aeroespacial e desejam desenvolver tecnologia não somente para participar de competições mas também como grupos de pesquisa. “Queremos que seja uma via de mão dupla: os órgãos que quiserem ajudar e as equipes que virão a contribuir para a ciência aeroespacial brasileira". O Minerva Rockets, segundo ele, hoje é um grupo de 25 pessoas “teimosas” em busca de formação e informação: “Nós estamos tentando buscar órgãos de referência para que essa corrida tecnológica seja menos 'cinza'. Queremos um rigor maior e um amparo maior das pessoas que trabalham com isso, que já tiveram experiência profissional nessa área, para nos ajudar a construir um ambiente acadêmico mais saudável, que é extremamente importante para o desenvolvimento tecnológico do país"

A cooperação necessária
Luiz Bevilacqua, ex-presidente da Agência Aeroespacial Brasileira e conselheiro do Clube, expôs a frágil situação da produção aeroespacial brasileira, com mercado reduzido e baixa produção. “É para vocês verem a sensibilidade dessa área. O que existia anos atrás está sendo fechado. Se vocês precisarem, por exemplo, de sensor infravermelho, ninguém vende mais. Então, essas áreas são de tal modo sensíveis que ou você é autossuficiente ou não vai conseguir”. Bevilacqua defendeu uma cooperação com o setor industrial. O engenheiro aconselhou os grupos a se unirem, inclusive com outros do país, a fim de se fortaleceram e poderem firmar parceria com empresas. “No Brasil, cada um faz o seu e ninguém conversa entre si. Isso não pode acontecer em certas áreas”, afirmou.

Ronaldo Matos, membro do GFRJ, também se mostrou confiante no poder da unificação dos núcleos, para seus diferentes objetivos: “Eu acredito que um projeto de engenharia de sistemas entre os grupos tem que acontecer. Nós podemos um dia poder até sediar uma associação, um espaço colaborativo onde os grupos poderiam estar realizando seus experimentos. Não somente os foguetes, mas até pequenos satélites e sondas".

O coordenador da SAE, Stelberto Soares, expressou sua satisfação com o debate e encorajou os docentes em seus projetos, com o apoio do Clube de Engenharia: “O Clube está à disposição, e nós queremos renovação. O Brasil precisa desenvolver tecnologia, não podemos ser um país de 200 milhões de habitantes fornecedor de commodities”.

O workshop de foguete
No final de semana dos dias 8 e 9 de abril, o Clube abriu suas portas, tanto da sede social quanto da unidade zona oeste, a 53 estudantes interessados em foguetes. O workshop de "Propulsão e Operação", organizado pelo Grupo de Foguetes do Rio de Janeiro (GFRJ), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em parceria com a Competição Brasileira Universitária de Foguetes (Cobruf), atraiu discentes da UERJ, Universidade Federal Fluminense (UFF) dos campi de Volta Redonda e de Niterói, Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Instituto Militar de Engenharia (IME), Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e CEFET-RJ Maracanã.

José Stelberto Soares, coordenador da SAE, participou das apresentações, assim como o conselheiro Luiz Bevilacqua e o professor João Batista Canalle, presidente da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA), patrocinadora dos grupos de foguetes. A palestra sobre propulsão e operação em foguetes ficou por conta do engenheiro aeroespacial Calvin Trubiene, vice-diretor técnico da Cobruf. Com teoria no primeiro dia, na sede social do Clube, e prática no segundo dia, na Unidade Zona Oeste, o quinto workshop realizado pelo GFRJ se tornou um estímulo aos estudantes fluminenses.

Da esquerda para a direita: o estudante Ronaldo Matos, o professor João Canale, o conselheiro Luiz Bevilacqua, e o engenheiro Calvin Trubiene. Foto: Arquivo João Canalle.
Da esquerda para a direita: o estudante Ronaldo Matos, o professor João Canale, o conselheiro Luiz Bevilacqua, e o engenheiro Calvin Trubiene.
Foto: Arquivo João Canalle.

Especialistas incentivam
O conselheiro Luiz Bevilacqua, com sua vasta bagagem como ex-presidente da Agência Aeroespacial Brasileira, falou aos estudantes a respeito da sensibilidade da área aeroespacial, por fazer parte da Defesa brasileira, mas reforçou o estímulo de que eles não desistam. Ele falou especificamente do Centro de Lançamento de Alcântara, conhecido como Base de Alcântara, que abriga estrutura para o lançamento de foguetes brasileiro, e que não é considerada segura o suficiente, por exemplo, para evitar ameaças internacionais. No entanto, esse contexto atual não deve desestimular os jovens, uma vez que eles são, em primeiro lugar, pesquisadores e produtores de ciência: “Isso não significa que essas iniciativas devam ser abortadas. É preciso que vocês tenham consciência também das dificuldades que vão enfrentar, mas enfrentem”. Para além do desenvolvimento de tecnologia original, ele deixou uma segunda sugestão aos estudantes: que transformem suas tentativas bem sucedidas com os foguetes em sugestões de normas técnicas. Segundo ele, o Brasil carece de normas nacionais nessa área. "Quando não temos normas, ficamos muito vulneráveis. O desenvolvimento de normas é extremamente importante inclusive porque estimula o desenvolvimento tecnológico".

O professor João Batista Canalle também elogiou a organização do evento:  “Todos vocês estão de parabéns pela iniciativa e por acreditarem que conseguem fazer. Vocês serão os futuros engenheiros da Agência Aeroespacial Brasileira”. Segundo ele, se hoje o Brasil não lança foguetes, mísseis e satélites, é por falta de determinação e de dinheiro. Por isso, os engenheiros devem estar preparados para que, quando os dois fatores estiverem presentes, venham a ser os profissionais brasileiros que promoverão a soberania do país na área. O professor João Batista Canalle é presidente da comissão organizadora da Olimpíada Brasileira de Astronomia e Aeronáutica (OBA), que em 2016 incentivou que 87.700 estudantes de todo o país construíssem seus foguetes. É com essa experiência que afirma que a motivação é fundamental. "Nós temos que confiar em nós mesmos porque somos capazes de resolver nossos problemas, inclusive de colocar um artefato em órbita".

Propulsão e operação: o combustível certo
Ainda durante a manhã, teve início o workshop de Propulsão e Operação, com Calvin Trubiene. Segundo ele, o principal objetivo da Cobruf é fazer a formação de recursos humanos: “A Cobruf tende a motivar todos os estudantes a estudarem os foguetes, lançadores de satélites, etc, para daqui a 10 ou 20 anos termos um satélite 100% nosso sendo lançado”. No workshop, ele fez uma introdução à tecnologia de foguetes e focou mais nas áreas de propulsão e operação.

Calvin compartilhou suas experiências - tanto de sucesso quanto de fracasso - em todas as áreas envolvidas: desde programas de computador e tabelas úteis para a realização dos cálculos e registro dos testes, até técnicas de vedação, confecção das partes dos foguetes, materiais para câmara de combustão, como controlar a combustão, etc. Ele deu especial atenção à confecção do "combustível" do foguete, chamado de propelente. Embora a maioria dos grupos produza propelente sólido, com materiais relativamente acessíveis, como açúcar, ele recomendou fortemente que se passe para o híbrido: sólido e líquido.  "O propulsor sólido tem equivalência em TNT. Ele tem a queima complicada, é perigoso, o transporte é perigoso. Então se passarmos para o híbrido temos uma evolução muito melhor para o desenvolvimento espacial".

Calvin Trubiene orienta estudantes nas diversas etapas de preparação de um teste estático para motor. Foto: Arquivo de João Canalle
Calvin Trubiene orienta estudantes nas diversas etapas de preparação de um teste estático para motor.
Foto: Arquivo de João Canalle

Na prática, o teste estático de um motor
Com todos esses detalhes o grupo pôde, no dia seguinte, realizar a parte prática do workshop, na Unidade Zona Oeste do Clube de Engenharia, em Ilha de Guaratiba. Lá, eles realizaram a preparação do propelente sólido, demarcação da área para os testes, divisão das pessoas em equipes, e, seguindo uma cronologia de foguetes, realizaram um teste estático de um motor com os diferentes propelentes feitos. Toda essa atividade prática, agregada ao conhecimento prévio passado por Calvin Trubiene, deixou um novo objetivo para os grupos de foguetes do Rio de Janeiro, segundo Ronaldo Matos, organizador do evento: “Foi uma ruptura, no sentido do desejo de mudar para a propulsão híbrida e mais tarde para a líquida, que o Brasil ainda não domina”.

Ronaldo Matos comentou ser esse o quinto workshop realizado pelo Grupo de Foguetes do Rio de Janeiro, grupo sediado na UERJ, em um ano. Ele atribuiu o sucesso à união dos grupos das diversas universidades da cidade, e afirmou acreditar que com a colaboração de todos eles possam ir mais longe, independentemente da instituição de cada um: "A ideia desde os primeiros workshops era essa: incitar a cooperação tecnológica. Romper esse muro de quem é de qual universidade". Para ele, a conexão dos grupos fluminenses é apenas um primeiro passo e eles podem chegar mais longe, como apresentar um grande projeto de engenharia de sistemas, com um grande foguete, na Spaceport America Cup, a maior competição anual de foguetes.