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artigo 02/12/2017

Discurso do presidente da ANE, Francis Bogossian, na posse dos novos membros da academia

Presidente da Academia Nacional de Engenharia expõe o desmonte da engenharia nacional. Foto: ANE
Presidente da Academia Nacional de Engenharia expõe o desmonte da engenharia nacional.
Foto: ANE

O presidente da Academia Nacional de Engenharia, Francis Bogossian, ex-presidente do Clube de Engenharia, abriu a sessão solene de posse dos novos membros titulares da Academia Nacional de Engenharia (ANE), realizada na Escola de Guerra Naval, no Rio de Janeiro, em 27 de novembro, com um contundente discurso apontando os rumos do “Brasil que queremos”.

Presentes o General de Exército Décio Luís Schons, Comandante da Escola Superior de Guerra, representando o Ministro de Estado da Defesa; Almirante de Esquadra Júlio Soares de Moura Neto; Contra-Almirante André Luiz Silva Lima de Santana Mendes, Diretor da Escola de Guerra Naval; General de Divisão Hildo Vieira Prado Filho, Comandante do Instituto Militar de Engenharia; Flavio Miguez de Melo, Vice Presidente da Academia Nacional de Engenharia, ex- presidentes da Academia Nacional de Engenharia, presidentes das Academias Brasileiras de Educação, Filosofia e Moda, e demais autoridades, entre convidados, acadêmicos e membros eleitos. 

Publicamos, a seguir, as palavras de Francis Bogossian na sessão solene da ANE.

 

“Agradecemos de público, tanto a Egrégia Comissão de Seleção, pelo notável, cuidadoso e exaustivo trabalho, como também aos Acadêmicos que aceitaram sua eleição para integrar a nossa ANE – Academia Nacional de Engenharia – uma entidade sem fim ou viés político, voltada para o aperfeiçoamento da engenharia do país; para o estudo e equacionamento das grandes questões a ela atinentes e para o aconselhamento dos Governos da República, dos Estados e dos Municípios da nação brasileira – a exemplo das congêneres dos países tecnicamente avançados.

A aceitação dos novos Acadêmicos significa sua integração a um conjunto de ilustres engenheiros e engenheiras que se distinguem por significativas realizações profissionais, na prática, na pesquisa e no ensino da engenharia, por elevados valores éticos e interesse pelos problemas e desafios do país.

Estabeleceu-se no Brasil, em 2015, uma das maiores crises da história moderna do país, nos âmbitos institucional, político e econômico. Apesar das campanhas otimistas veiculadas com insistência na mídia, o que constatamos é o crescente fechamento de postos de trabalho e as denúncias de corrupção, compondo um quadro que afeta todo o espectro da nossa sociedade.  O ambiente recessivo se agrava e nossa engenharia já pode ser considerada uma das grandes vítimas.

O Ministério do Trabalho contabiliza um número na ordem de 1,5 milhão de pessoas afetadas pelo desmonte da engenharia nacional. São 50 mil engenheiros desempregados. O crédito para as empresas ficou mais restrito. Aumentou a dificuldade de se obter recurso para investimentos, com as perdas no grau de investimento do país.

As disputas políticas tomaram conta do Governo e do Congresso, deixando ao léu reformas imprescindíveis. Vários setores da sociedade têm se manifestado com propostas de mudanças nos rumos da economia e da política. Voltaram a ser priorizadas as aplicações financeiras em detrimento dos investimentos em atividades produtivas para gerar desenvolvimento.

O setor de engenharia está em vias de mais uma desestruturação depois de um período bastante fértil, entre 2003 e 2013, que, segundo o Dieese, teve 87,4% de crescimento nos empregos formais. Isto representou mais de 145 mil postos de trabalho criados. Não podemos assistir paralisados à demolição iniciada em 2014, com saldo negativo de milhares de empregos. 

Temos convicção de que muito precisa ser feito e com urgência para salvar setores fundamentais da economia que geram impostos e empregos. Petróleo e gás, infraestrutura e construção pesada estão entre eles e já lançam várias empresas para a recuperação judicial.  Demissões em massa acontecem nas áreas de projetos.

As delações premiadas, duramente criticadas pela CPI do Congresso, superam em muito os acordos de leniência nos escândalos de corrupção. É preciso que se esteja atento às consequências desses processos, pois sem acordos de leniência, as empresas irão quebrar e isto não interessa à nação.

A engenharia nacional está sendo desmontada. A situação do país é extremamente preocupante! Não temos recordação de época tão atribulada quanto esta.

Não há investimentos e nem perspectivas para o setor de obras públicas, a curto prazo. O déficit dos governos federal, estaduais e municipais é monumental. Há dívidas do setor público para com as entidades privadas.

A crise que assola o Brasil exige que se busque um consenso em torno de soluções, tendo por base o interesse nacional. Não existe nação forte sem empresas nacionais fortes.

O combate à corrupção é essencial e deve ser mantido, mas não pode ser usado para provocar a estagnação da economia nacional. Não se pretende deixar de culpar os comprovadamente ilegais. A proposta a ser estudada teria como meta que as punições aconteçam, preservando ao máximo as empresas como um todo, sem levar ao desemprego profissionais probos, competentes e, ainda, a mão de obra dita “não especializada”, que está sem seu pão a cada dia.

Hoje, o setor que mais atua nas empresas de engenharia, ocupando patrões e empregados, é o de Recursos Humanos, para homologar indesejadas e desgraçadas rescisões contratuais. E já está começando a faltar dinheiro até para isso.

Empresas são formadas, majoritariamente, por profissionais, que aplicam seus conhecimentos e habilidades no desenvolvimento de equipes técnicas formadas e treinadas ao longo de décadas. Estas equipes estão sendo desmanteladas. As construtoras brasileiras, por exemplo, também têm o papel de educar. São estas empresas que empregam mão de obra não qualificada e analfabeta. Cursos de alfabetização eram comuns nos canteiros de obras, assim como o treinamento dos trabalhadores sem qualificação, que são contratados como serventes e se profissionalizam como pedreiros, encanadores, etc. É por eles que precisamos lutar! Colapsar as empresas brasileiras de engenharia é extinguir nossa soberania.

O Brasil tem extraordinários feitos em ciência aplicada e engenharia, tais como as conquistas do setor elétrico nos últimos 60 anos, o Pró Álcool, a recuperação do cerrado, a produção de petróleo em águas profundas e muitos outros que são referências internacionais.

Contudo, os novos milionários do Brasil não estão no setor elétrico, no setor industrial da construção civil pesada, da engenharia naval, da produção petrolífera ou da engenharia nuclear.  Os novos milionários são aqueles que advogam nos processos das delações premiadas, e fumam seus charutos nas capas das revistas, soltando baforadas nos rostos dos novos miseráveis: os desempregados e famintos, que, de pé, diante das bancas de jornais, assistem a esse espetáculo semanal das revistas, sem sequer ter como adquiri-las.

Estes exemplos são aqui por nós incluídos pela imediata ação que requerem, por ilustrarem o pesado jogo de forças que determina a prosperidade ou a pobreza da nação e o papel central nele desempenhado pelas engenheiras e pelos engenheiros.

A ANE tem propostas para dinamizar significativamente o avanço do país e está pronta para o desempenho de suas elevadas missões apoiada na alta qualificação, no interesse pelo país e na vontade de seus duzentos membros.

E é com este espírito; e para estas lides, que apresentamos aos nossos novos Membros e às suas famílias, nossas calorosas congratulações e nosso aplauso.

Agradecemos a Marinha do Brasil, através do Contra-Almirante André Luiz Alves Silva Lima de Santana Mendes – Diretor da escola de Guerra Naval, que não só nos cedeu este espaço como também nos ajudou a organizar este evento, e para finalizar agradecemos penhoradamente ao Almirante de Esquadra Júlio Soares de Moura Neto, que abençoou esta união com a Marinha do Brasil, bem como há anos vem seguidamente e sem atropelos arregaçando as mangas junto conosco.

Este é o Brasil que queremos!”