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notícia 22/11/2017

O futuro da inovação na indústria brasileira

Indústria automotiva já investe em fábricas que utilizam robôs e tecnologias da informação e comunicação para aumento de produtividade. Foto: Mercedes Benz/Divulgação Youtube
Indústria automotiva já investe em fábricas que utilizam robôs e tecnologias da informação e comunicação para aumento de produtividade.
Foto: Mercedes Benz/Divulgação Youtube

Nanotecnologia, convergência tecnológica, setor energético, biotecnologia, Internet das Coisas. São esses os principais clusters (áreas de transformação) que um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) traça para o futuro das inovações na indústria brasileira para a próxima década. A pesquisa foi apresentada durante a 18ª edição dos Diálogos da Modernização Empresarial pela Inovação (MEI), evento promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

Para David Kupfer, coordenador geral do projeto e pesquisador da UFRJ, o Brasil está atrasado no que diz respeito aos incentivos à inovação. “As inovações, hoje, estão numa fase em que não transformam, não melhoram a competição. Mas há grande possibilidade de isso acontecer na próxima década”, disse ele à Agência Brasil. Além dos clusters, Kupfer destacou a importância da cibersegurança, do apelo ecológico e da capacitação profissional neste tema.

As inovações apontadas pela pesquisa fazem parte de uma transformação, a chamada Indústria 4.0, que já faz parte da rotina de países como Alemanha e Estados Unidos enquanto prioridade nas políticas públicas. É um conceito que surge do emprego conjunto de máquinas e Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), principalmente a Internet, nos mais diversos setores da economia. A inovação possibilita, portanto, nova escalada na automação industrial. Por se tratar de um fenômeno sistemático, requer políticas estruturadas de Estado para garantir o seu desenvolvimento independentemente de grupos políticos. A não existência desse tipo de política é um dos motivos para que a Indústria 4.0 siga como um desafio para o Brasil.

Internet das Coisas
No âmbito da Internet das Coisas, o especialista da Unicamp Antônio Bordeaux indicou à Agência Brasil que a aplicação dessa tecnologia, segundo o estudo sobre inovações na indústria, deve gerar ganhos de 20% a 30% em produtividade. O anúncio do Plano Nacional da Internet das Coisas, feito pelo governo federal no início de outubro, veio embasado em estudo do BNDES que prevê 132 bilhões de dólares anuais movimentando a economia por meio desse setor. Políticas públicas nas áreas de saúde, cidades, indústria e meio rural são promessas de desenvolvimento para o Brasil.

Um dos maiores desafios na consolidação do setor, no entanto, diz respeito à segurança cibernética, uma vez que haverá mais e mais informações sensíveis sendo compartilhadas pelos dispositivos conectados à Internet, tanto dados pessoais quanto industriais.

Startups
Neste cenário de inovações, vale destacar o papel das startups, empresas que surgem pautadas principalmente no uso da tecnologia e das TIC para remodelar mercados já existentes ou mesmo criar demandas, como a Internet das Coisas. Embora o principal desafio para essas empresas seja se consolidar no mercado (motivo alegado pela maioria das que fecham no Brasil, segundo dados da aceleradora Startup Farm), uma nova cultura jovem ligada ao empreendedorismo parece florescer nas universidades.

De acordo com o ex-diretor do Parque Tecnológico da UFRJ, Maurício Guedes, existem hoje no Brasil mais de 400 incubadoras de empresas em universidades. Ele, que foi fundador da Incubadora de Empresas da Coppe/UFRJ, em 1994, acredita que mudanças culturais e econômicas levaram a este cenário promissor. “Com a incubadora, o jovem passou a encarar a possibilidade de criar sua empresa como uma opção nobre. Para o brasileiro as opções nobres eram os empregos em uma grande empresa ou instituição pública. Trabalhar em uma pequena empresa já era uma opção pouco nobre, e criar a sua própria era a saída para os fracassados. Foi uma conquista do país essa nova relação do jovem com o empreendedorismo”, diz. Artur Obino Neto, diretor de atividades técnicas do Clube de Engenharia, lembra que as startups, entendidas dentro da Indústria 4.0, criam novas relações de trabalho e produção. “As startups apresentam novos conceitos de relações de trabalho, de renda e da participação nos resultados, com foco na criação e transferência de tecnologia de projetos de engenharia e aplicativos profissionais, fundamentais para a nossa autonomia tecnológica e para a própria engenharia. Não podemos ficar alheios a esse debate”, afirma ele.

Nanotecnologia
O pesquisador Flávio Peixoto, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), afirma a importância da visão sistêmica sobre o uso de nanotecnologia na economia. Segundo ele, na Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação do governo federal, vigente entre 2016 e 2019, a nanotecnologia foi considerada área prioritária, embora não haja dados sobre sua aplicação. “Notamos que as políticas estavam sendo pensadas e postas dentro de uma visão linear do processo de inovação. Supostamente se parte da invenção, a pesquisa é aplicada, ocorre produção e comercialização. Mas o que se nota é que o processo é muito mais complexo. Precisa-se de uma visão sistêmica para se pensar a inovação”, afirma o pesquisador, que ainda reforça a viabilidade desse ramo tecnológico nas áreas de biomedicina, energia, automobilística, cosméticos, entre outros. No estudo apresentado pelos pesquisadores da UFRJ e Unicamp, há justamente a aposta de que a nanotecnologia deve amadurecer nos próximos cinco anos.

Impactos nas relações de trabalho
Os impactos colaterais das inovações da indústria no mercado de trabalho do futuro, apontados por Antônio Bordeaux principalmente no que diz respeito à necessidade de qualificação profissional, ganharam destaque no Clube de Engenha com o seminário “O futuro do trabalho no Brasil” organizado em 19 de outubro pela COPPE/UFRJ e o Laboratório do Futuro, centro de pesquisas ligado à instituição. Na ocasião, especialistas trouxeram reflexões sobre como a automatização na Indústria 4.0, entre outras transformações, será fator determinante de mudanças nas relações trabalhistas nos próximos anos.

Eduardo Barbosa, tecnologista no CASNAV (Centro de Análises de Sistemas Navais do Ministério da Defesa), e Yuri Lima, líder de desenvolvimento no CAPGov (Centro de Apoio a Políticas de Governo da COPPE/UFRJ), desenvolveram estudo que traça tendências para o mercado de trabalho até 2050, quando, espera-se, a Indústria 4.0 esteja mais forte no país. Os pesquisadores do Laboratório do Futuro preveem que o aumento da automação do trabalho a partir de computadores, com uso de inteligência artificial e robótica, fará com que muitos postos de trabalho deixem de existir, e ainda criarão formas alternativas de emprego, como a que hoje estão submetidos motoristas de carro por aplicativos (caso do Uber). Uma profunda reinvenção dos sindicatos para defender direitos trabalhistas e a permanência da luta por igualdade de gênero nesta economia futura também darão as cartas na dinâmica envolvendo trabalhadores e empresas.

Debate recorrente
O papel do Brasil na transformação chamada Indústria 4.0 não é um assunto novo. Já era tema do painel “Experiências bem-sucedidas em CT&I: das estratégias de financiamento à vanguarda na gestão empresarial”, realizado durante o Seminário Internacional Estratégias Legislativas para o Investimento Privado em Ciência, Tecnologia e Inovação, em dezembro de 2015. O conselheiro do Clube de Engenharia Márcio Girão, então presidente da Federação Nacional das Empresas de Informática (Fenainfo) e atual diretor de inovação da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), afirmava à época a necessidade de incentivos ao desenvolvimento de softwares nas políticas públicas brasileiras como forma de acelerar a Indústria 4.0 no país. “O Brasil consome US$ 12 bilhões em software, mas apenas 25% é produzido no país. A principal empresa brasileira do setor figura em 119º lugar no mercado internacional. Quase todas as que ocupam lugares acima no ranking atuam no Brasil”, disse ele. “Software é uma deficiência do país e o legislativo pode ser fundamental nessa questão. Um marco regulatório pode mudar o país”, conclamou Girão, ainda ressaltando o papel da academia na afirmação da importância da transformação de conhecimento científico em tecnologia.

Com informações de Agência Brasil