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notícia 06/05/2016

O panorama do Brasil nas áreas de inovação e produção científica

Ônibus elétrico híbrido a hidrogênio produzido na Coppe/UFRJ com autonomia de 300 km: exemplo de pesquisas que se tornam inovação. Fonte: Coppe/UFRJ
Ônibus elétrico híbrido a hidrogênio produzido na Coppe/UFRJ com autonomia de 300 km: exemplo de pesquisas que se tornam inovação. Fonte: Coppe/UFRJ

O Plano Brasil Maior trouxe a inovação para a luz dos refletores. O documento lançado em agosto de 2011 com a Política Industrial do Governo Dilma tinha a inovação como uma de suas bases e o objetivo claro de “consolidar o sistema nacional de inovação por meio da ampliação das competências científicas e tecnológicas e sua inserção nas empresas”. Tratou-se da reafirmação do que já vinha sendo buscado antes, tanto na Política de Desenvolvimento Produtivo, de 2008, quanto na Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior, de 2004, ambas tendo a inovação como um de seus pilares centrais.

O resultado prático desse investimento em inovação ainda parece incerto. Nos últimos dois anos, o pedido de registro de patentes no país acumulou uma queda de 8%, anulando o crescimento dos anos anteriores. O ano de 2016 não começou como um ano bom para o setor. Com o corte de 25% no orçamento, anunciado no fim de março, o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação perdeu 1 bilhão de reais. O que restou da verba, cerca de R$ 4 bilhões, é inferior à metade da verba recebida em 2015, de 8,2 bilhões. Esse cenário de desinvestimento já encontra um setor que luta contra dificuldades que não conseguiu superar na época em que os investimentos eram altos.

Segundo o diretor da Coppe/UFRJ, Edson Watanabe, os impactos no futuro não são totalmente mensuráveis hoje. “O que é claro para nós é que o impacto dessa queda virá mais à frente porque o que iremos produzir em cinco anos será resultado das pesquisas de hoje. O KC390, por exemplo, avião que a Embraer acaba de colocar no ar, é resultado de um investimento que começou em 2009. Se tivesse sido cortado lá atrás hoje não haveria avião”.

Traços nacionais

Todo país tem seus traços culturais e seu modus operandi nos mais diversos setores. No Brasil, pesquisa e inovação não caminham paralelamente. Dois pontos explícitos dessa separação, fundamentais para o entendimento do quadro, é o financiamento quase que completamente público do que é feito de ciência no país e a dificuldade em transformar pesquisa em produtos e serviços. Enquanto na Inglaterra, Canadá e Estados Unidos as empresas recebem bolsas de pesquisa a fundo perdido, no Brasil o investimento é concentrado na universidade. Há subsídios oferecidos às empresas e iniciativas como a Lei do Bem, de 2005, que compõem um sistema de incentivos fiscais que buscam colaborar com empresas que têm políticas de inovação.

A resposta do empresariado a esses incentivos, no entanto, esbarra em uma barreira cultural e uma barreira prática. Por um lado, o empresário brasileiro não costuma investir em áreas cujos retornos são incertos e envolvem riscos, como é o caso da inovação. Em 2012, dos 16 milhões de empresas (números do IBGE), apenas 787 trabalhavam com práticas de inovação, segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Fora o agronegócio, nenhum setor conseguiu avançar nesse ponto, ainda que o acesso aos incentivos não seja considerado burocrático. O ponto prático da questão diz respeito a uma base industrial que veio sendo desnacionalizada ao longo das últimas décadas, levando o centro de comando das empresas para fora do país, juntamente com seus setores de pesquisa e desenvolvimento.

Para Watanabe, há dois fatores pouco evidenciados que influem diretamente na questão: a confiança ou, mais especificamente, a falta dela, é um deles. “Economistas destacam que os negócios dependem muito da confiança entre aqueles que negociam. Foi feita uma pesquisa em todo o mundo para responder à pergunta ”você confia no outro”? O resultado mostrou que em países como a Noruega, Finlândia, Irã, China, Japão, Reino Unido, onde as pessoas confiam mais umas nas outras, há uma clara vocação para a realização de projetos de longo prazo. À medida que vai caindo a confiança o quadro muda e aparecem, por exemplo, a Argentina com 15%. No final da lista, com apenas 5% de confiança está Uganda. Com menos da metade da porcentagem de Uganda está o Brasil. Onde não há confiança, não há investimento em longo prazo. A burocracia é resultado direto da desconfiança”, explicou. O segundo ponto destacado por Watanabe está na tolerância ao erro, ou mesmo o entendimento de que ele faz parte do processo de crescimento e aprendizagem. “No Brasil, um fracasso pode condenar alguém. Lá fora, uma das primeiras lições é aprender a errar porque raramente se acerta de primeira. O incentivo lá fora é para que os jovens empreendam e entre muitas tentativas algumas dão certo”, explicou o professor.      

Produção científica

Outro fator cultural que representa uma barreia difícil de ser ultrapassada é a discrepância entre o que se produz de conhecimento científico no país e a criação de produtos e serviços relacionados a isso. Apesar das dificuldades na área de inovação, o Brasil se destaca no panorama da produção científica. Esse resultado é um reflexo direto dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento que, nos últimos anos, tiveram um crescimento substancial. Entre 2003 e 2013, o crescimento foi de quatro vezes, chegando a 1,24% do PIB nacional. Na Argentina, o investimento representa 0,59% e no Chile 0,39%. Se comparado com países mais avançados, no entanto, a distância fica evidente. Os países que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico têm média de 2,37%.

No ano passado, o Brasil aparecia na 23ª posição do ranking mundial de artigos científicos, sendo o primeiro da América Latina. Os dados são da edição 2015 do Nature Índex. O desafio está na transformação dessa produção científica em serviços ou produtos de fato inovadores.

Watanabe destaca que a economia e a educação têm relação direta com a questão. “É preciso alimentar esse espírito de inovação nos jovens desde o colégio. Além disso, uma economia estável ajudaria muito. Desde 2001 eu pergunto aos meus alunos qual o objetivo deles. Em 2001, a confiança era zero e todos queriam se formar, prestar concurso e trabalhar em uma estatal. A partir de 2005, isso foi mudando. À medida que a economia melhorava, os objetivos passavam a ser mais ligados à robótica, ao empreendedorismo. Com a queda da economia, novamente voltamos às respostas de 2001. Quando temos uma  maioria de jovens buscando concursos públicos temos um problema. Um país não se desenvolve e não é inovador apenas com funcionários públicos”, finalizou.