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notícia 01/09/2016

O que é fundamental para a segurança de barragens

Na mesa, o palestrante Jean Pierre Rémy (à esquerda) e Manuel de Almeida Martins, da Divisão Técnica de Geotecnia. Foto: Fernando Alvim
Na mesa, o palestrante Jean Pierre Rémy (à esquerda) e Manuel de Almeida Martins, da Divisão Técnica de Geotecnia.
Foto: Fernando Alvim

Para avaliar a segurança de um projeto de barragem – ou uma barragem em operação – um ponto é determinante: não pode haver dúvidas. É preciso levantar e processar todos os dados disponíveis do solo e do local para assegurar a viabilidade da obra, consultar normas, manuais, diretrizes e recomendações de órgãos técnicos, históricos de casos de acidentes e formular todas as perguntas ainda sem respostas claras e seguras que devem ser eliminadas, até que se constate a ausência de risco. Para além da experiência dos profissionais da área, o foco da segurança de barragens tem sido colocado em três pontos: as leis de segurança de barragens; os "checklists" a serem preenchidos pelos engenheiros, como relatórios; e a formação de especialistas.

Assim se configura uma preocupação para o engenheiro civil francês Jean Pierre Paul Rémy, com mais de 40 anos de experiência em obras de engenharia de barragens, que compartilhou, no Clube de Engenharia, na terça-feira (30), "lições aprendidas com o monitoramento do desempenho e com a avaliação de segurança de barragens", em um auditório lotado de interessados de várias gerações. Jean Paul foi professor universitário na França e no Brasil, na Coppe/UFRJ, desde 1977 trabalha com consultoria e já atuou em 105 barragens.

Na visão de Jean Pierre, a Política Nacional de Segurança de Barragens, de 2010, tem levado as empresas a tentarem se adequar muito rapidamente, sem os cuidados necessários. O professor foi enfático ao afirmar que um "barregeiro" deve ser experiente e competente, e não deve aceitar preço baixo e prazo curto para executar seu trabalho, assim como deve estabelecer com seus contratantes uma relação de confiança.

Ruptura: o risco mais grave
A princípio, o engenheiro definiu as características da área: as barragens podem ser diferenciadas tanto por seus tipos – terra, concreto, com arco duplo etc – quanto por suas finalidades. Existem as barragens de usinas hidrelétricas, constantemente vigiadas e de longa vida útil; barragens para abastecimento de água, para irrigação e controle de enchentes, mais expostas; e barragem para contenção de rejeitos de mineração, também vigiada e com manutenção. Essas obras são das mais antigas da engenharia: a barragem mais velha ainda existente tem três mil anos.

Por serem obras com função, geralmente, de reter algum tipo de material, segundo Jean Pierre o mais grave risco das barragens é a ruptura. As causas mais frequentes de rupturas em barragens de terra são galgamento, quando a água exerce ação erosiva no aterro da barragem, e piping, que é a erosão interna. Menos frequentemente, as causas podem ser instabilidade estática e liquefação das fundações, caracterizada pela perda de resistência da terra. Já no caso das barragens de concreto, o que mais gera ruptura é o deslizamento sobre a fundação.

Jean Pierre focou na exatidão necessária na elaboração de um projeto de engenharia de barragem, no qual se deve considerar, pelas condições do solo, todos os possíveis modos de ruptura. Segundo ele, existem incidentes e acidentes nas barragens. Incidente é uma ocorrência que afeta o comportamento da barragem - ou estrutura anexa - mas não a faz romper naquele momento, entretanto se não for controlada pode vir a causar um acidente com o tempo. O acidente é de fato, a ruptura, e o engenheiro enfatizou que os acidentes de barragens são muito difíceis de serem revertidos. Esses desastres ocorrem, geralmente, em virtude de problemas no projeto ou sua execução e no hábito de ignorar os primeiros sinais, como rachaduras. Prova disso está nas estatísticas: na maioria dos casos, o incidente acontece antes da obra completar 10 anos, nos primeiros anos de preenchimento da barragem. No caso de barragens antigas, podem contribuir para a ocorrência de incidentes: exposição (a enchente e terremoto); envelhecimento (com erosão interna e outros problemas típicos do solo); e mudança de condições, seja na operação da barragem ou na sua vizinhança.

Falhas humanas devem ser consideradas
Embora a construção de barragens tenha de lidar, muitas vezes, com a falta de conhecimentos sobre aquele solo, ainda assim muitos acidentes acontecem por erro humano. E isso envolve diferentes pressões. Segundo Jean Pierre, frequentemente os engenheiros ou outros responsáveis pela barragem constatam sinais de risco nas estruturas mas ignoram, ou não são taxativos ao alertar à administração da obra.

É usual que fissuras e deslocamentos sejam ignorados nesses empreendimentos. O engenheiro deve estar acima das diversas pressões existentes, como o prazo de entrega da obra, os custos já investidos em algo que deve ser consertado e até o receio em contestar alguém numa posição hierárquica maior. Engenheiros sem pressão contribuem para a segurança, afirmou.

A palestra foi promovida pela Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e a Divisão Técnica de Geotecnia (DTG), com apoio do Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB - Núcleo Rio), da Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS - Núcleo Rio) e da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE - Núcleo Rio).