Saltar para o conteúdo
notícia 09/05/2017

Prêmio Ernesto Pichler homenageia pioneiro no estudo de chuvas e escorregamentos

Guido Guidicini (centro) recebe o Prêmio Ernesto Pichler das mãos dos geólogos Aline Freitas e Fernando Pires de Camargo. Foto: Fernando Alvim.
Guido Guidicini (centro) recebe o Prêmio Ernesto Pichler das mãos dos geólogos Aline Freitas e Fernando Pires de Camargo.
Foto: Fernando Alvim.

Pioneirismo e relevância social marcaram as homenagens na entrega do Prêmio Ernesto Pichler ao geólogo Guido Guidicini, em cerimônia realizada no Clube de Engenharia no dia 19 de abril. No evento, profissionais relembraram o trabalho do geólogo e também lançaram a campanha de comemoração aos 50 anos da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE), cuja origem contou com a participação de Guidicini. A entrega do prêmio foi  promovida pela Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e Divisão Técnica de Geotecnia (DTG) do Clube de Engenharia e pelo Núcleo Rio da ABGE.

Estudo pioneiro
Iniciando as homenagens, Aline Freitas, geóloga do Serviço Geológico do Estado do Rio de Janeiro (DRM-RJ) e presidente do Núcleo Rio da ABGE, falou sobre a importância de um estudo inédito que Guidicini desenvolveu em 1976, junto de Oswaldo Iwasa, sobre a correlação entre chuva e escorregamentos. “Ernesto Pichler havia feito um estudo anterior, mas o deles é pioneiro devido à abrangência. Em todos os estudos que vieram depois, e pelo menos no estado do Rio de Janeiro o tema está em alta, não dá para não citar o trabalho de Guidicini e Iwasa”, afirmou ela. 

Segundo a geóloga, no Brasil, grande parte dos movimentos de massa gravitacional, isto é, os deslocamentos de grandes proporções de terra, são causados por ação da água da chuva. Enquanto o monitoramento de pequenas áreas ou de espaços de tempo curtos é facilitado pela utilização de instrumentos técnicos, o mesmo não ocorre com grandes áreas ou períodos longos, quando a instrumentalização é mais difícil. E foi justamente essa a questão abordada por Guidicini e Iwasa.

Um caso que ilustra a relevância desse tipo de iniciativa é o desastre que aconteceu na região serrana do Rio de Janeiro em 2011. Na ocasião, uma série de deslizamentos de terra matou quase mil pessoas e deixou cerca 35 mil desalojadas em diferentes cidades. Para Aline Freitas, o acompanhamento permanente e o cruzamento de dados de chuvas e eventos anteriores, como proposto por Guidicini e Iwasa, são essenciais para prevenir esse tipo de desastre. Os pesquisadores analisaram áreas da região sul, sudeste e nordeste do Brasil, e avaliaram a importância das chuvas anteriores, em períodos de até 120 dias, para determinar índices críticos, isto é, os volumes de chuva que tornam mais prováveis a ocorrência de deslizamentos ou escorregamentos de terra. “Um índice desses provoca o acionamento de uma sirene em uma comunidade ou a retirada de uma pessoa de sua casa para um ponto de apoio. Então existe uma importância muito grande para a sociedade”, defendeu Aline.

“Hoje o estado do Rio de Janeiro é o único no Brasil coberto por dois radares meteorológicos. De 2011 para cá, por causa do grande desastre [na região serrana], a rede de pluviômetros aumentou muito. Atualmente é possível fazer um bom acompanhamento das chuvas que estão acontecendo e das que já aconteceram”, explicou a geóloga, que explicou que o ocorrido na região serrana reacendeu o interesse de pesquisadores para estudos sobre o tema.

O estudo se mantém relevante mesmo 40 anos após sua publicação. Aline Freitas destacou, por exemplo, o trabalho do Agrupamento de Risco do Serviço Geológico do Estado do Rio de Janeiro (DRM-RJ), que desde 2011 realiza estudos em diferentes regiões do estado. Entre os principais desafios deste tipo de trabalho está a falta de dados, já que a maioria dos municípios brasileiros ainda não dispõe de registros detalhados de escorregamentos de terra.

Prêmio Ernesto Pichler
Na entrega do Prêmio Ernesto Pichler, o geólogo Fernando Pires de Camargo relembrou a trajetória de Guido Guidicini como geólogo e pesquisador.  “O Guido recebe hoje um merecido prêmio em reconhecimento a sua atuação na Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE) e por seus feitos na área de Geologia e Engenharia brasileira, deixando muitos ‘filhotes’ tocando o trabalho dele”, comemorou.

Guido Guidicini nasceu na Itália e veio para o Brasil aos 17 anos. Em 1963, formou-se no curso de Geologia, e ao longo da vida estudou mais de 200 barragens e publicou cerca de 60 trabalhos acadêmicos. Foi presidente da APGA (Associação Paulista de Geologia Aplicada), que depois se tornaria Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE). Recebeu o Prêmio Terzaghi, concedido pela Associação Brasileira de Mecânica dos Solos (ABMS) e menção honrosa da Engevix Engenharia S.A.

50 anos de ABGE
Em agradecimento ao prêmio, Guido Guidicini destacou a história da Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e Ambiental (ABGE), entidade técnico-científica que agrega estudantes e profissionais e que completará 50 anos em 2018. "Nesses 50 anos, a trajetória da associação foi maravilhosa. Nasceu em setembro de 1968, como Associação Paulista de Geologia Aplicada (APGA), e o momento era muito oportuno porque a Petrobras havia criado cursos de Geologia para atender a si própria, mas nem todos os geólogos queriam trabalhar na área de petróleo. Uma pequena parte se dedicada ao ensino, à mineração ou à recém-criada Geologia Aplicada, que surgia para atender as grandes obras que o Brasil estava tocando”, lembrou ele ao receber o prêmio.

O primeiro congresso da APGA, que aconteceu no ano seguinte à fundação da entidade, atraiu geólogos de todo o país, em uma fase descrita por Guidicini como “maravilhosa”. Pouco tempo depois, a APGA se tornaria Associação Brasileira de Geologia de Engenharia e, nos anos 1980, incorporaria a também a denominação Ambiental. "Não estamos falando apenas da história da associação ou da história pessoal do Guido, mas da história do país", afirmou Aline Freitas. “A ABGE chega aos 50 anos porque alguém, lá atrás, teve a coragem de começar. São pessoas que nos inspiram a continuar batalhando nas associações, tanto politicamente quanto na parte técnica”, disse ela. A ABGE realizará o Congresso Brasileiro de Geologia e Engenharia entre 2 e 5 de setembro de 2018, em São Paulo. Atualmente a associação mantém foco em projetos de educação, ética profissional e risco geológico.

Claudio Amaral, presidente da Associação Profissional dos Geólogos do Estado do Rio de Janeiro (APG), destacou o papel de veteranos, como Guido, e de entidades, como a ABGE, na busca por soluções para problemas enfrentados pelo país. “Mesmo com toda dificuldade estabelecida pelo governo militar com a ditadura, havia um grupo e um sonho, um ânimo de criar o país. E precisamos retomar esse discurso. As instituições têm essa responsabilidade – a ABGE, a Sociedade Brasileira de Geologia, a APG, o Clube de Engenharia têm essa responsabilidade”, afirmou ele. Claudio criticou a situação pela qual algumas instituições públicas da área de Geologia passam atualmente, inclusive na área de ensino. “Especialmente no estado do Rio de Janeiro, passamos por uma situação lamentável na UERJ”, lamentou ele, que é professor da instituição e relembrou a atual crise pela qual a universidade passa. Sem repasses financeiros regulares do governo do estado, a UERJ tem tido suas atividades de ensino, pesquisa e extensão severamente prejudicadas há pelo menos um ano. Guidicini, em sua fala final, tratou de trazer esperança para os desafios que a Geologia enfrenta hoje. “O que eu quero dizer é que esses tempos difíceis vão passar”, afirmou ele, encerrando a cerimônia.