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notícia 21/10/2016

Projeto de novo sistema de abastecimento de água para o Rio de Janeiro divide opiniões

Perspectiva de trajeto do túnel, marcado em vermelho. Arquivo de Flavio Miguez e Miguel Fernandez.
Perspectiva de trajeto do túnel, marcado em vermelho. Arquivo de Flavio Miguez e Miguel Fernandez.

O projeto de um novo sistema de abastecimento de água para a região metropolitana do Rio de Janeiro, apresentado em 19 de outubro, no Clube de Engenharia, dividiu opiniões. O sistema Taquaril inclui a construção de um grande túnel subterrâneo com extensão de 47 quilômetros e diâmetro entre 4 e 6 metros. É apontado como a solução mais viável e mais barata para abastecer, principalmente, as regiões Leste e Norte da Baía de Guanabara, assim como tirar do Grande Rio a dependência quase integral do sistema Guandu. O novo sistema foi tema de palestra do engenheiro Miguel Fernandez, um dos autores do projeto, apresentado pelo conselheiro Jorge Luiz Paes Rios, diretor da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES-Rio) e chefe da Divisão Técnica de Recursos Naturais Renováveis (DRNR), organizadora do encontro.

Projeto e demandas
O principal argumento dos defensores do sistema Taquaril, concebido há cerca de oito anos, é a redução, para a região, dos riscos da dependência do Guandu e Macacu.  O ponto de captação da água seria em Anta, região de Sapucaia, onde o Paraíba do Sul recebe águas dos rios Piabanha e Paraibuna e o túnel iria até o Rio Guapiaçu, em Cachoeiras de Macacu. Seria construído horizontalmente, com baixa declividade, para não perder energia antes de desembocar, momento no qual seria capaz de gerar energia elétrica com 180 metros de queda, com potência de 100 MW. O fato de a água poder chegar por gravidade, sem precisar ser bombeada é uma das vantagens. Segundo Miguel Fernandez, como mais de 90% das obras são referentes à construção do túnel, seriam poucos os impactos ambientais. O valor estimado da construção é de um bilhão e duzentos e cinquenta milhões de reais.

O sistema teria baixíssimo custo de operação e manutenção, além de aumentar a oferta de água na região metropolitana. Outro objetivo da implantação é a diminuição do custo médio do metro cúbico, em virtude de não necessitar de importação de energia e geração de eletricidade. Complementar ao sistema Guandu e com diversos pontos de entrada de água na rede de distribuição, o Taquaril introduziria segurança operacional, resolveria os problemas de mananciais para Grande Niterói e Maricá, atenderia à população de hoje e das gerações futuras, e ofertaria energia hidrelétrica dentro da área de consumo, defende Miguel Fernandez.

O novo sistema se destinaria às regiões do Grande Rio de Janeiro e, prioritariamente, Grande Niterói e Norte da Baía de Guanabara. Enquanto o Rio de Janeiro é majoritariamente abastecido pelo sistema Guandu, as demais áreas recebem água do sistema Imunana/Laranjal, do rio Macacu, que está no seu limite físico, e outros mananciais. O total da demanda de água bruta, medido em 2010, é de 76,4 metros cúbicos por segundo, para quase 15 milhões de habitantes.

Dúvidas e questionamentos
Para outros, no entanto, o projeto é polêmico e merece cuidadosos estudos. Argumentos não faltam: com a projeção de retirada de água do Rio Paraíba do Sul com vazão de até 50 metros cúbicos por segundo - ou 50 mil litros por segundo -, cresce a preocupação dos que viram o rio passar por escassez hídrica e, com isso, é inevitável o temor de que falte água nos pontos de captação.

A bióloga e sanitarista Vera Lúcia Teixeira, representante do Comitê Médio Paraíba do Sul, questionou o projeto considerando que o Rio Paraíba do Sul, atualmente, passa por cidades com escassez de água. "O Rio Paraíba é sangrado de todos os lados", afirmou, lembrando que recentemente a Agência Nacional de Águas (ANA) determinou a redução da vazão mínima de uma das barragens por onde passa o corpo hídrico.

Já o Diretor-presidente do Comitê Baixo Paraíba do Sul e Itapaboana (CBH-BPSI) e professor da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), João Gomes Siqueira, questionou a dominialidade do rio em questão, que nasce no estado de São Paulo, e afirmou inclusive que o Sistema Guandu deve, por determinação da ANA, devolver recursos à Bacia do Paraíba do Sul pelo mesmo motivo. Segundo ele, de acordo com o Plano de Bacia do Paraíba do Sul, não existe água sobrando no rio, e um dos motivos é a transposição para o Rio de Janeiro. Para João Gomes, em algum momento o projeto do Taquaril vai esbarrar no problema da dominialidade e se tornar inviável.

Defensor intransigente da proposta, na visão de Miguel Fernandez as demandas tanto para hoje, quanto para o futuro são inegáveis, e se não vier do sistema Taquaril, virá de outro. Presente ao encontro, Flavio Miguez, diretor da Academia Nacional de Engenharia e também um dos autores do projeto, em sua participação no debate, lembrou o reforço dos rios Piabanha e Paraibuna no ponto de captação e, ainda, que a prioridade do uso da água é para abastecimento humano.

Promovido pela Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e Divisão Técnica de Recursos Naturais Renováveis (DRNR), o evento contou com o apoio da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (ABES), Associação Brasileira de Profissionais Especializados na França (ABPEF), Divisão Técnica de Engenharia do Ambiente (DEA), Divisão Técnica de Geotecnia (DTG) e Divisão Técnica de Recursos Hídricos e Sanitários (DRHS).