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artigo 21/03/2013

Revista Brasil Energia entrevista Wagner Victer

“Falta de pessoal é desculpa”

Wagner Victer, ex-secretário de Energia do RJ e atual presidente da Cedae, diz que empresários têm de investir em treinamento

Por Ricardo Vigliano

Entrevista publicada na revista Brasil Energia, em 27/02/2013

Wagner Victer (Marcus Almeida/Somafoto)
Wagner Victer (Marcus Almeida/Somafoto)
A propalada falta de mão de obra no setor petróleo não passa de uma desculpa de empresário que não quer investir em treinamento. É o que pensa o presidente da Cedae, Wagner Victer. “As empresas têm de entender cada vez mais que não se encontram profissionais prontos nas universidades”, diz ele, que recentemente lançou o livro “Cartas a um jovem engenheiro”, pela Campus/Elsevier.

Secretário de estado de Energia, da Indústria Naval e do Petróleo do Rio de Janeiro de 1999 a 2006, Victer vê os atrasos nas obras do setor como um reflexo de erros de gestão cometidos no passado. “Há contratos, sobretudo em construção offshore, em que as empresas contratadas não tinham nem sequer as instalações para receber as obras.” Por isso ele acredita que algumas empresas poderão repassar contratos, diante do maior rigor na gestão da Petrobras.

Afinal, existe apagão de mão de obra no setor petróleo?

Fico cada vez mais impressionado com a repetição desse mantra, que é um besteirol. É óbvio que existe uma limitação diante da demanda crescente, mas em alguns segmentos muito específicos.

Por exemplo?

Em engenharia naval, na qual há basicamente apenas três cursos superiores no Brasil, e na área de Marinha Mercante voltada ao apoio offshore, pelo nível crescente da demanda e pela oferta insuficiente de oficiais, apesar do esforço da Marinha. Nas demais áreas o Brasil tem condições de formar e forma mão de obra muito acima da demanda. Não somente em quantidade, como em qualidade.

O mercado reclama da falta de engenheiro supervisor para tantas obras.

Esse é a afirmação do acomodado. As empresas têm de entender cada vez mais que não se encontram profissionais prontos nas universidades. As empresas têm de investir na formação e na adequação do seu profissional. A Petrobras já deu o exemplo, criando cursos para formar engenheiros de equipamentos.

E as empresas que não tem essa estrutura, devem fazer o quê?

A maioria das companhias do setor tem de ter universidades corporativas, ou apoiar-se nelas. Aqui na Cedae, que é uma empresa pequena, temos uma universidade corporativa. Nesse caso específico, existem centros como o Project Management Institute (PMI), que formam engenheiros para acompanhar e fiscalizar obras.

Essas instituições poderiam absorver a demanda atual?

Sim. Da mesma forma existem os tecnólogos, que são largamente utilizados na Europa e nos EUA e são subutilizados ou desconsiderados aqui. Trata-se de profissionais de nível superior com uma formação mais curta, mas que têm conhecimento para atuar na fiscalização. Aqui na Cedae contratamos e treinamos engenheiros para fiscalização.

Essa mudança não demanda um tempo do qual o setor de óleo e gás não dispõe?

É totalmente viável no curto prazo. Temos um conjunto de universidades públicas e privadas formando tecnólogos e engenheiros que não tínhamos há 15 anos. Uma instituição privada, como a Estácio de Sá, por exemplo, deve ter, entre cursos de tecnólogo e engenharia, 10 mil alunos.

Como o sr. vê o nível da oferta?

Os técnicos, tecnólogos e engenheiros do Brasil não devem nada aos formados no exterior. Ao contrário, são profissionais que têm características que não encontramos no exterior, como grande adaptabilidade. Como executivo, entre contratar um engenheiro jovem no Brasil ou no exterior, não tenho a menor dúvida em contratar o brasileiro, sem nenhuma xenofobia.

É uma questão cultural?

Certa vez, um executivo da Gaia me pediu um engenheiro, e eu lhe enviei um tecnólogo. Em um primeiro momento ele ficou reticente, mas dias depois me ligou e pediu para mandar mais dez, e disse que aquele tecnólogo já ocupava nível gerencial. Basta qualificar o profissional para a demanda específica. Isso deve fazer parte da estratégia da companhia.

Então não é a mão de obra a principal razão para o atraso nos projetos offshore?

De forma alguma. A mão de obra é apenas uma variável. Acredito que alguns atrasos são em função do foco dado. A Petrobras mudou. Há muitos anos a empresa não tinha uma figura de caráter presidencialista como tem a Graça Foster (presidente da Petrobras). Não tenho dúvida em recomendar as ações da Petrobras. A política de lower budget é necessária para uma empresa de petróleo, e a Petrobras voltou a ter isso.

Houve erros de gestão?

Houve equívocos no passado, como a contratação de empresas que não tinham experiência para tocar as obras. Quando fui secretário (de Energia, Indústria Naval e Petróleo do estado do Rio de Janeiro), todos sabem da maneira crítica com que tratei os estaleiros virtuais. Aquilo foi um equívoco brutal, e o tempo mostrou isso.

A falta de capacitação técnica é maior que a falta de mão de obra?

Certamente. Existem alguns contratos, sobretudo na área da construção offshore, em que as empresas contratadas não tinham nem sequer as instalações para receber as obras. Acho que isso funcionou como aprendizado. Não tenho a menor dúvida de que a Petrobras já entrou no caminho certo.

E as contratadas já estão entrando nos trilhos?

O aumento das encomendas para uma companhia tem de ser gradual. Uma empresa que nunca construiu um bote não pode construir uma plataforma de 150 mil barris diários de petróleo. Fico à vontade para falar porque fui um dos primeiros a brigar pelo conteúdo local. O conteúdo local representa um grande avanço no sentido de orientar o crescimento, mas não deve ser motivo de acomodação ou usado como reserva de mercado. A engenharia brasileira saberá dar a resposta. O melhor exemplo foi como respondeu ao desafio da exploração em águas profundas, na qual o Brasil é recordista.

As empresas estão aprendendo a pilotar em voo, vão continuar atrasando obras ou vão acabar devolvendo contratos?

Vão acontecer diversos cenários. Algumas devem estar se perguntando por que aceitaram um desafio muito acima de sua capacidade. Acho que, de uma maneira geral, todas as empresas brasileiras estão preparadas para o desafio lançado pela indústria do petróleo. Elas já estão muito acima do patamar que estavam no passado e muito acima de alguns países que produzem petróleo.

O sr. acredita que os novos estaleiros estarão prontos para atender aos prazos lançados?

Vejo algumas operações com muita chance de sucesso, como a ampliação do Brasfels, a reativação do Inhaúma, a produção de módulos no estaleiro Caneco, o estaleiro Mauá, o Rio Grande e o estaleiro Paraguaçu. O Atlântico Sul, por já estar operando, também deverá se adequar, e o OSX, pelo que pude apurar, parece uma operação interessante. A preocupação é com os estaleiros que ainda não iniciaram a construção. Devemos tomar cuidado com outra contratação de estaleiros não existentes.

Preocupa a possibilidade de estaleiros brasileiros subcontratarem no exterior?

Caso alguns projetos não venham a prosperar na velocidade esperada, até pelo maior nível de exigência da Petrobras, será algo que infelizmente ocorrerá.

Como o sr. vê a retomada das rodadas da ANP pela ótica da capacidade da indústria fornecedora?

A capacidade produtiva surge a partir da demanda projetada. À medida que surgirem novas demandas, o mercado vai se adaptar.

Sem mexer no conteúdo local?

O conteúdo local tem de ser permanentemente cuidado, para não virar um tiro no pé. Fico muito preocupado quando começo a ver certo cartorialismo, como a exigência de que um mesmo fabricante de tubo tenha de certificar cada diâmetro de tubo que produz. Um ponto a favor nessa questão é que Graça foi a criadora do Prominp e conhece bem o assunto.

O sr. é a favor de calibrar os índices, ou eles estão realistas?

Eles são realistas, e o que nós devemos fazer é calibrar a forma como o conteúdo local é calculado. Também devemos trabalhar mais no fortalecimento da cadeia de fornecedores. Focamos muito na montagem final. Questões tributárias também têm de ser permanentemente analisadas.

As dificuldades financeiras da Petrobras podem afetar o desenvolvimento da produção?

A Petrobras é a maior empresa do Brasil e sempre soube superar todos os desafios colocados. Então, acredito que ela vai conseguir superar qualquer problema que tenha, por ter muita gente competente e estar sendo bem conduzida.

Qual é a sua disposição de voltar à Petrobras?

Hoje corre nas minhas veias a água da Cedae, mas o sangue da Petrobras nunca deixou de correr. Encontro colegas da Petrobras permanentemente e ando com o crachá da empresa no bolso.

Sonha em ser presidente da companhia?

Toda noite eu durmo e sonho com muitas coisas, mas não trabalho com sonhos.