Dividindo opiniões de especialistas, demolição do Viaduto da Perimetral e construção de túnel subterrâneo são partes do plano de revitalização que promete fazer renascer a zona portuária carioca

Com o início da construção em fins dos anos 50, o elevado da Perimetral levou 18 anos para ficar pronto. Iniciado no governo Negrão de Lima, quando o Rio ainda era Distrito Federal, a obra atravessou outros dois governos até que foi inaugurada por Chagas Freitas em 1980. Totalmente integrado e vital para o sistema de trânsito rodoviário da cidade do Rio de Janeiro, se tudo correr como espera a prefeitura, entre meados de 2012 e o início de 2013, o maior trecho – entre o Mosteiro de São Bento e a Rodoviária Novo Rio – será demolido.

A obra é parte da segunda fase do Projeto Porto Maravilha, lançado em junho pela prefeitura com o objetivo de transformar a zona portuária em um pólo turístico e de investimento para empresários de vários setores, que estará pronto até as Olimpíadas, em agosto de 2016.

Gastos e ganhos

A maioria dos engenheiros e arquitetos concorda que o elevado da Perimetral exerce uma influência negativa na área portuária, mas embora alguns vejam a demolição como o símbolo de um novo Rio, para outros, é um desperdício não aproveitar nada da estrutura. O tamanho do projeto ajuda a dar a dimensão da questão: em julho o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) injetou R$ 3,5 bilhões no fundo imobiliário criado exclusivamente para a zona portuária. Esses recursos serão responsáveis pelos primeiros dois anos da obra, administrados pela maior parceria políticoprivada já realizada no Brasil.

Uma vez iniciadas as obras, a prefeitura poderá contar com a contrapartida dos investidores e dos grandes proprietários de imóveis interessados no desenvolvimento da região portuária. Todo o processo será feito por meio de Certificados de Potencial Adicional Construtivos (CEPAC), títulos mobiliários que serão negociados através de leilões que terão todos os valores arrecadados também investidos no fundo imobiliário. Quando suas operações forem oficialmente iniciadas, esse fundo duplicará o tamanho dos fundos imobiliários do país.

O Diretor de Operações da Companhia de Desenvolvimento Urbano da Região do Porto do Rio de Janeiro (CDURP), Luiz Carlos Lobo, explica que há um engano quando se fala em gastos públicos: “O FGTS é um investidor financeiro que obterá lucro pelos recursos que empregou na obra. Esse dinheiro vai gerar valor, criar uma mais valia que vai, através do começo das obras, valorizar e impulsionar a venda das CEPACs aos interessados. Essas sim pagarão a obra”. Além da recuperação do próprio porto, bairros adjacentes como a Gamboa e Saúde serão diretamente beneficiados pelas obras. “Aquela área entrou em decadência junto com a atividade portuária. A população já foi de 100 mil habitantes. Hoje é de 20 mil que, do ponto de vista da moradia, irá renascer após as obras”, destacou Lobo.

A questão do trânsito

Não é só a Perimetral que deixará de existir, mas também a avenida Rodrigues Alves, que será transformada em um bulevar. Para isso, tanto o fluxo de 120 mil veículos que passam diariamente nas quatro pistas do elevado, como o da avenida precisarão ser realocados. No lugar do elevado será construído um túnel de 900 metros similar ao da Praça XV. “O túnel será, como é a Perimetral, uma via expressa para ligar a região de São Cristóvão e a Ponte Rio-Niterói ao Aterro do Flamengo”, explicou Lobo. Já o tráfego local da Rodrigues Alves será transferido para uma via binária de seis pistas que passará pela Rua do Equador, avenida Venezuela e adjacências. Entre as pistas passará o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), uma espécie de bonde. Paralelamente, será construída uma via ligando a Linha Vermelha ao Viaduto do Gasômetro. No total, a área que sofrerá intervenções é maior que o bairro de Copacabana.

Além da recuperação do próprio porto, bairros adjacentes serão diretamente beneficiados pelas obras.

Pensando justamente na relevância do trânsito para a cidade, um grupo formado pelos professores Ivete Farah, Cristóvão Duarte, Guilherme Lassance e Alexandre Pessoa e os alunos Sérgio Curriça, Vitor Damasceno e Pedro Toledo, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU/ UFRJ), criou e apresentou à CDURP um projeto alternativo que propõe que os pilares, acessos e vigas seriam preservados e usados para a passagem de um trem mono-rail que ligaria os aeroportos Santos Dumont e Galeão, fazendo paradas em pontos importantes como a Rodoviária Novo Rio, a Praça Mauá e a Cidade do Samba.

“O elevado da Perimetral foi pensado para um Rio de Janeiro dominado pelos carros. A obra planejada vai levar o engarrafamento do alto para o subterrâneo, não mudando em nada o sistema de transporte público. Nossa idéia é propor um novo paradigma para a cidade”, explicou o professor Cristóvão Duarte. O projeto da UFRJ prevê, ainda, a construção de jardins suspensos e espaços públicos no nível intermediário. Ainda assim, seriam gerados 30% a menos de resíduos e a obra seria mais barata, incluindo o preço dos trens.

Pensando o Rio do futuro

Luiz Lobo conhece o projeto, mas não acredita ser viável. “O projeto do monotrilho é bom, mas não resolve o problema. Enquanto existir, o elevado impedirá a existência de outras coisas que geram infinitamente mais valor do que o di-nheiro que está investido nele. A Perimetral é uma via degradante. Somada à decadência das atividades portuárias, os pilares e o sombreamento criam um ambiente lúgubre. Não existe a possibilidade de se fazer a ligação da cidade com o mar mantendo a Perimetral no meio do caminho”. Segundo Luiz Lobo, “a demolição é fundamental”.

Tendo ao centro da sala uma grande maquete de toda a zona portuária e os olhos voltados para uma cidade que espelhe a realidade mundial na área dos transportes e da sustentabilidade, a UFRJ segue debatendo o tema. De acordo com Pedro Toledo, o principal objetivo da UFRJ não é aprovar um projeto, mas incentivar o debate da sociedade sobre o tema. “Há quase um ano temos quatro ateliês de arquitetura e urbanismo discutindo exclusivamente a zona portuária da cidade e oferecendo opções técnica e economicamente viáveis”.

Para Sérgio Curriça, o interesse em derrubar a Perimetral vai além da questão urbanística. “Quando fomos à CEDURP, notamos que há uma certa vontade de fazer história ao assinar a demolição do elevado. O que nós propomos é justamente uma mudança na forma de olhar a questão: Façamos história reabilitando, adaptando a estrutura para a nova realidade da cidade ao invés de destruindo o que já temos”.

 

 Jornal 501 – novembro 2010 – páginas 06 e 07 – Urbanismo

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