A escassez de engenheiros e a renovação da engenharia

Evasão universitária ameaça o crescimento do país e força o debate sobre a reformulação do currículo básico dos cursos de engenharia

O Brasil voltou a crescer e, de acordo com previsões de especialistas, continuará crescendo. A notícia só não é plenamente boa porque, se não houver uma mudança estrutural no cenário acadêmico, sobrarão vagas e faltarão profissionais. No centro da crise, a engenharia, mola mestra do crescimento sustentável, imprescindível para que o desenvolvimento nacional mantenha o atual quadro. O cenário mundial exemplifica bem a gravidade da situação: enquanto o Brasil forma 30 mil engenheiros por ano, a Coréia do Sul forma 80 mil, a Índia, 250 mil e a China, 400 mil.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, com param a disponibilidade de profissionais em diversos cenários prováveis de crescimento da economia e comprovam que, em um cenário conservador, a demanda brasileira seria atendida apenas até 2015, tornando-se insuficiente a partir daí.

Um desafio da formação

A escassez de engenheiros que já se desenha no mercado tem, obviamente, uma estreita relação com o ensino superior e médio. Com uma grade curricular praticamente inalterada desde o início do século XX, os cursos de engenharia registram alto índice de evasão universitária.

Para o Vice-Reitor Administrativo da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUCRio), Luiz Carlos Scavarda, os mais de 60% de evasão universitária têm como base a fragilidade do ensino médio e a inexistência da prática nos primeiros anos da faculdade. Scavarda, que é formado em engenharia elétrica e telecomunicações e doutor em física, aponta a necessidade de se conscientizar os estudantes do ensino médio para a importância e a relevância da engenharia para o funcionamento de todo o mundo moderno. “O aluno que está ingressando na universidade acredita que ser engenheiro é apenas construir prédios. Ele não enxerga a engenharia por trás da comida que chega à sua mesa, da TV, do carro, das estradas, dos hospitais, dos remédios. A mídia é o braço da engenharia nessa luta”, afirma. Scavarda aposta nas atividades extra curriculares logo no início do curso para conscientizar os jovens do papel da engenharia no mundo. “Quando levamos os alunos a campo e vemos no rosto deles o espanto ao descobrir a engenharia por trás das coisas, entendemos o quão longe estavam da percepção do uso daquilo que estudam em sala de aula”.

O presidente do Clube de Engenharia, Francis Bogossian acredita que a evasão está diretamente relacionada à decepção causada pelo ciclo básico dos cursos universitários. “Os alunos entram na universidade esperando um contato imediato com matérias voltadas para a engenharia e passam os dois primeiros anos repetindo conceitos de matemática e física já vistos no ensino médio”, explica.

A contribuição do Clube

À evasão universitária, soma-se a necessidade cada vez maior de constante atualização. De acordo com especialistas, dos 30 mil engenheiros formados anualmente no Brasil, apenas 10 mil têm a competência necessária para atender às demandas do mercado, graças a uma exigência cada vez maior do domínio de tecnologia de ponta em diversas áreas de atuação.

Ciente de sua responsabilidade na luta pelo crescimento da engenharia e do país, o Clube de Engenharia, através da Divisão Técnica Especializada de Formação do Engenheiro (DFE), vem trabalhando em uma proposta de novo currículo para a re novação do ciclo básico dos cursos universitários. Em evento recente realizado pela Universidade Estácio de Sá, Jorge Bittencourt, chefe da DFE, o presidente do Clube Francis Bogossian e o presidente do Crea- RJ, Agostinho Guerreiro, participaram de debate sobre o currículo dos cursos de engenharia. O encontro serviu para enriquecer a parceria entre as divisões técnicas do Clube e as câmaras especializadas do Crea-RJ, que farão análise e se responsabilizaram por preparar um parecer sobre o assunto.

 

Jornal 504 – fevereiro 2011 – página 04 – Educação

 

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