"Monumento Natural das Cagarras, emissário de Ipanema e Protocolo de Annapolis"

No dia primeiro de junho foi realizada palestra conjunta da DRHS,  da  DEA, da Associação Brasileira de Profissionais Especializados na França – ABPEF e da  Associação Brasileira de Engenharia Sanitária - ABES  sobre o "Monumento Natural das Cagarras, emissário de Ipanema e Protocolo de Annapolis". Os palestrantes foram  os engenheiros Jorge Paes Rios,  especialista do LNEC, perito concursado do Ministério Público da União e professor do CEFET –RJ  e Fernando Botafogo Gonçalves, Diretor da Globaltech e da ABES.

Inicialmente, o professor Jorge Paes Rios discorreu sobre o importante fato para a engenharia nacional e para nós engenheiros sanitaristas, do Presidente em Exercício do Brasil José Alencar, ter promulgado um Decreto Lei, proposto pelo Deputado Federal Fernando Gabeira (Partido Verde) tornando digno o local   onde o Emissário de Ipanema despeja 63.000 litros de esgotos brutos / segundo. Falou ainda sobre a importância de que atualmente nas escolas de engenharia não são, muitas vezes, ensinadas matérias fundamentais  para o dia-a-dia da prática da engenharia, enquanto outros assuntos menos relevantes são exaustivamente estudados. Citou ainda o fato de o MEC e as Universidades brasileiras darem prioridade nos concursos públicos a professores de tempo integral com Mestrado e Doutorado, os quais são importantes, mas que não trazem o aporte da prática diária da engenharia. Seria importante para o país, por exemplo,  que um engenheiro sanitarista com a experiência de campo e de projeto do engenheiro Botafogo pudesse transmitir os seus conhecimentos as futuras gerações,sublinhou Jorge Rios.

Em seguida Rios passou a palavra ao engenheiro Fernando Botafogo que apresentou primeiramente reportagens  do Jornal O GLOBO, intituladas   “ O Emissário da Vida Marinha “ e  "Um mergulho nos tesouros ocultos do Rio" , que através de fotos de mergulhadores mostrou a exuberância da fauna marinha nos locais próximos ao emissário de Ipanema, permitindo assim que fosse agora decretado o MONUMENTO NATURAL DAS CAGARRAS - UNIDADE DE CONSERVAÇÃO DE PROTEÇÃO INTEGRAL.

Passou então a  apresentação do pouco divulgado nos meios técnicos e ambientais PROTOCOLO DE ANNAPOLIS, fruto de uma reunião patrocinada pela OMS / OPS e EPA dos 31 dos maiores entendidos mundiais em tratamento de esgotos sanitários com emprego de disposição oceânica. Os resultados alcançados nesta reunião foram editados em Genebra, 1999, como o PROTOCOLO DE ANNAPOLIS, incluído na Série “Desenvolvimento Sustentável e Ambientes Saudáveis”, da OMS – Organização Mundial da Saúde, com o subtítulo PROTEÇÃO DO AMBIENTE HUMANO – SAÚDE, ÁGUA E SANEAMENTO.

Neste Protocolo encontra-se declarado: “No caso de emissários submarinos longos, dispondo efluentes sanitários em águas marinhas, assumidos como tendo sido corretamente projetados quanto à suficiência de sua extensão e do comprimento e profundidade de sua tubulação difusora, de modo a assegurar uma baixa probabilidade da pluma de mistura efluentes sanitários / águas marinhas vir a alcançar zonas de balneabilidade, considera-se como tratamento primário completo a remoção de sólidos flutuantes, precedida de pré-tratamento composto por desarenação e milipeneiramento. “

A idéia é mostrar, disse Fernando Botafogo, como tudo começou, no Brasil,  com a fundação da SURSAN criada por Enaldo Cravo Peixoto, dela pertencendo a COPES, Comissão de Planejamento do Sistema de Esgotos Sanitários, dotada de um Grupo de Pesquisas Oceanográficas, formado por profissionais da UC - Berkeley que vieram congregar, por largo tempo, com a equipe multidisciplinar da qual participavam importantes figuras nacionais como Eugênio da Silveira Macedo; Amarilio de Vasconcelos P. de Souza, Luiz de Souza Botafogo e Paulo Moreira da Silva, dirigente do Instituto de Pesquisas da Marinha –IPqM (hoje IEAPM – Instituto Almirante Paulo Moreira) com os quais eu, ainda jovem, passei anos trabalhando, em terra e no mar, tendo ainda tido a oportunidade de estudar, em Berkeley, com Earman A. Pearson, à época o pai de muitos sistemas de tratamento de esgotos sanitários com emprego de disposição oceânica.

O citado Grupo de Oceanografia da COPES procedeu a um sistema de treinamento sui-generis, fazendo com que engenheiros de Berkeley especializados em oceanografia sanitária, viessem a integrar as equipes da COPES a fim de transmitir informações de interesse local, indo, após o Engenheiro Chefe do Grupo de Oceanografia da COPES, com eles  estagiar na Califórnia a fim de conhecer métodos e técnicas lá empregados que pudessem ser utilizados nas concepções técnicas, estudos e projetos em desenvolvimento, relacionados com o Emissário Submarino de Ipanema.

Nosso campo de estudos, salientou Botafogo,  foi a mancha de esgotos que se lançava, permanentemente da Ponta do Vidigal, que nos serviu de campo vivo para realização de experiências, tendo sido nesta mancha lançados 45.000 cartões à deriva, com anotações de local, data, hora, dia de lançamento, sendo ao fim de sua jornada anotadas  local, data, hora e dia de recolhimento. Este grupo trabalhou com este tipo de pesquisa durante oito anos e, posteriormente teve a oportunidade de trabalhar com os engenheiros portugueses do LNEC que vieram ao Rio de Janeiro (e trabalharam com Jorge Rios e muitos outros),  pesquisar, projetar e executar os projetos de alargamento da Avenida Atlântica e da construção do Aterro do Flamengo.

Nós, engenheiros do Estado e da Cidade do Rio de Janeiro, recebemos com a maior satisfação e orgulho, a notícia de que o Deputado Federal Fernando Gabeira (Partido Verde) havia apresentado, à Câmara Federal, Projeto de Lei tornando o Arquipélago das lhas Cagarras em MONUMENTO NATURAL ARQUIPÉLAGO DAS ILHAS CAGARRAS - UNIDADE CONSERVAÇÃO DE PROTEÇÃO INTEGRAL, desta forma tornando “nobre” a área onde o Emissário Submarino de Ipanema lança, há 40 anos, os esgotos brutos coletados na Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro deixando, deste modo, as águas da Baía de Guanabara, de suas praias lindeiras e das demais praias da Zona Sul da Cidade como balneáveis, de acordo com as determinações legais do IBAMA. Este emissário apresenta 2,40 m de diâmetro, um comprimento de 4.325 m, lançando a 28 m de profundidade, vazões de esgotos sanitários brutos que variam entre 80 e 120 m3/s, salientou Botafogo. O sistema completo implantado e em operação conta com uma enorme tubulação denominada como Interceptor Oceânico, que se estende ao longo da costa marinha, desde as proximidades do Aeroporto Santos Dumont, seguindo ao longo desta costa pelas Praias do Flamengo; de Botafogo e de Copacabana até a Praia de Ipanema, que é alcançada pelo recalque e uma última Estação Elevatória, com capacidade de atender a elevadas vazões a serem disposta para tratamento em águas oceânicas, através de uma tubulação difusora final, que apresenta a capacidade de diluir 1 volume de esgotos sanitários em 100 volumes de águas marinhas , representando uma capacidade de tratamento de cerca de 99 %,  capacidade esta mais elevada que qualquer Estação de Tratamento localizada em terra firme que, para atingir maior capacidade do que aquela que consegue gerar, necessita adicionar a  seus efluentes altas concentrações de cloro, substância esta nociva à biota marinha, concluiu Fernando Botafogo.

Na fase de debates o Eng. Jorge Rios lembrou a utilização dos modelos matemáticos e dos modelos físicos que servem para o cálculo dos emissários submarinos e sub-fluviais em que participou dos estudos, sobretudo os das Usinas Nucleares francesas construídos pelo LNH – Laboratoire National d’ Hydraulique, em Chatou, onde estagiou. Rios lembrou ainda, que a solução de lançamento de esgotos no mar é muitas vezes a mais barata e a melhor tecnicamente mas que cada caso é um caso e precisa ser detalhadamente estudada como demonstrou o Botafogo na sua palestra e no seu livro sobre emissários.  Tanto é assim que algumas cidades americanas e européias estão construindo o lançamento submarino como solução para seus dejetos. Lembrou ainda que em 1910 quando foi construído o primeiro emissário em Santa Mônica o engenheiro sanitarista Saturnino de Brito enviou a Califórnia um engenheiro de seu escritório pois ele considerava que esta seria a melhor solução para a imensa costa brasileira. 

 

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