Em setembro de 2015, a Organização das Nações Unidas (ONU) firmou acordo com metas a serem perseguidas para garantir, nos próximos 15 anos, o desenvolvimento sustentável em todo o mundo. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), organização autônoma da ONU que se dedica à promoção, fomento e organização da cooperação internacional em torno do uso pacífico da tecnologia nuclear, ciente de que poderia contribuir para que algumas das metas fossem alcançadas, passou a trabalhar na divulgação da energia nuclear como indutora do desenvolvimento.
 
Foi neste contexto que, em brilhante palestra, Leonam dos Santos Guimarães, presidente da Seção Latino Americana da Sociedade Nuclear Americana e diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletronuclear, deu uma verdadeira aula, em 29 de setembro, no Clube de Engenharia, sobre a atuação da Agência Internacional na busca do desenvolvimento. O conceito definido em 1987 como “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer as necessidades das gerações futuras”, foi condensado em 17 objetivos práticos pela ONU. Membro do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da AIEA, Leonam apresentou a contribuição da energia atômica, usada como ferramenta segura na construção do futuro, para que nove desses objetivos sejam alcançados.

Metas possíveis
Impulsionar o mundo para um horizonte sustentável só será possível com ciência, tecnologia e inovação. Todos os grandes saltos da sociedade aconteceram à medida que fontes de energias mais concentradas foram encontradas. A descoberta do fogo fundou a civilização. Da biomassa rústica, o homem dominou o carvão, que levou a primeira revolução industrial. Séculos depois, a humanidade descobriu o petróleo, trazendo nova revolução industrial. Poucas décadas depois, a humanidade chegou à fissão nuclear. “A revolução provocada pela energia nuclear ainda não aconteceu, mas desde a descoberta da fissão nuclear na década de 1930, as aplicações pacíficas da tecnologia nuclear têm ajudado muitos países a melhorar a produtividade agrícola, combater pragas, diagnosticar e tratar doenças, proteger o meio ambiente e garantir fornecimento contínuo de energia elétrica.”

O primeiro objetivo diretamente relacionado à energia nuclear é o “Fome Zero”: o uso de aplicações nucleares na agricultura tem como foco a melhoria da produtividade, o combate às pragas e a melhoria na variedade de grãos, ajudando a garantir a segurança alimentar. Outra meta – “Saúde e bem-estar” – tem relação direta com o setor. A medicina nuclear tem um papel decisivo em diagnósticos e no tratamento de diversas doenças. “As técnicas existem. O desafio é ampliar o acesso a essas técnicas e, nesse ponto, o Brasil vai mal. Em termos de procedimentos de medicina nuclear por habitante, os índices são inferiores à metade dos registrados na Argentina. Temos um longo caminho a percorrer para alcançar esse objetivo do milênio”, destacou Leonam.

Três dos Objetivos do Milênio tratam do gerenciamento dos recursos: “Água limpa e saneamento”, “Vida nas águas” e “Vida na terra”. O uso de isótopos, de marcadores e várias técnicas nucleares são amplamente utilizados para uma série de estudos e informações que subsidiam o uso dos recursos naturais. O último Objetivo do Milênio se confunde com o trabalho realizado pela AIEA. “Parceria para o progresso” tem como objetivo criar pontes entre países para que trabalhem juntos. Neste sentido, a agência defende a disseminação dos conhecimentos e da tecnologia nuclear para o maior número possível de países. 

Energia para o futuro
Os três itens dos Objetivos do Milênio que mais se aproximam da atuação da agência têm relação justamente com o setor onde a tecnologia nuclear pode fazer maior diferença: o setor da energia. O combate às mudanças climáticas, a universalização do acesso, a modalidade tarifária e, o mais importante, o aumento do consumo per capta da energia elétrica. “Neste quesito, o Brasil está abaixo da média mundial. É menor que o Uruguai, Argentina, Chile. Não falamos do consumo residencial. É muito mais que isso. Problemas relacionados ao transporte urbano e saneamento básico, por exemplo, só podem ser solucionados através do consumo de eletricidade. A parte da energia que consumimos em casa, embora também tenha um impacto na qualidade de vida, é mínima em relação ao nosso consumo total em serviços. Melhorar a qualidade de vida passa sempre pelo aumento da oferta de eletricidade.” 

Para que a expansão da oferta de energia aconteça sem comprometer ainda mais o meio ambiente, ela precisa ocorrer com a menor emissão de carbono possível. O papel da energia nuclear, nesse cenário, é profundamente relevante. “As energias renováveis, por si só, teriam severas dificuldades para atender o consumo per capta numa economia industrializada”, destacou o diretor da Eletronuclear. A Alemanha é um exemplo da afirmação. O país desenvolveu fortemente suas fontes de energias renováveis e colocou em prática um plano para desativar suas usinas nucleares. Como resultado prático, passou a aumentar significativamente sua produção de gases do efeito estufa, à medida que passaram a construir usinas a carvão para suportar a demanda. O caso é ainda mais grave, uma vez que já não há carvão de boa qualidade na Europa e as usinas usam carvão ainda mais poluente. “O curioso nesse caso é que a Alemanha abandonou as usinas, mas tem mais de 100 armas nucleares americanas em modernização. É curioso como se molda uma sociedade e se constrói uma percepção de risco”, destacou.
 
Caminhos e enganos
A tecnologia, à medida que avança, traz problemas e soluções, usos positivos e negativos de novos conhecimentos. Debates sobre a tecnologia como culpada ou salvadora são constantes. A energia nuclear é o pivô desses debates. De um lado, muitos são os argumentos de que não existem soluções técnicas para o gerenciamento dos resíduos em longo prazo, que pode haver proliferação de armas nucleares, que há riscos excessivos de segurança técnica das instalações, que há riscos no transporte de materiais radioativos e que seria muito caro. Por outro lado, são claros os impactos positivos na expansão do suprimento elétrico, na redução da emissão de gases, o aumento do capital humano e tecnológico.

Segundo Leonam, a oposição que a energia nuclear encontra é esperada e esse desafio precisa ser enfrentado. “Trata-se de uma tecnologia que foi apresentada ao mund
o por meio de uma arma que matou centenas de milhares de pessoas. Essa apresentação, claro, cobra seu preço até hoje. Está fixada na mente das pessoas e o medo é passado de geração para geração. Neutralizar o medo, de natureza totalmente irracional, que a bomba, a radiação e a contaminação causam nas pessoas é o nosso desafio para que a energia nuclear venha a motivar essa nova revolução industrial. É um trabalho difícil, mas vai ficando mais fácil à medida que as gerações vão se sucedendo. Os jovens hoje estão mais dispostos a escutar os mais velhos e isso nos dá esperança” conclui.

 

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