A viabilidade do uso de águas pluviais em debate

Com a divulgação de ideias e casos de obras sustentáveis e o crescimento quase constante das taxas de água, fala-se muito em reaproveitamento desse recurso. Em relação à água das chuvas, diferentemente de águas superficiais e subterrâneas, seu uso é permitido pela legislação tanto no âmbito federal quanto estadual. A viabilidade deste procedimento foi o tema da palestra "Captação e aproveitamento das águas das chuvas nas edificações", do engenheiro civil especializado em Engenharia Sanitária e Ambiental Leonardo Nogueira, em 25 de outubro no Clube de Engenharia. O evento contou com promoção da Diretoria de Atividades Técnicas (DAT) e da Divisão Técnica de Engenharia do Ambiente (DEA), com apoio da Divisão Técnica de Recursos Hídricos e Saneamento (DRHS), Divisão Técnica de Recursos Naturais e Renováveis (DRNR), Divisão Técnica de Engenharia Química (DTEQ) e Divisão Técnica de Engenharia de Segurança (DSG).

 

Uso não potável

 O uso de água pluvial em edificações atende à norma NBR 15527, que dispõe sobre aproveitamento de coberturas em áreas urbanas para fins não potáveis. Existem diferentes modos de se captar e tratar esse recurso para que possa ser utilizado, e o mais simples envolve poucas etapas: captação da água, remoção de detritos com grades e telas, descarte do escoamento inicial e desinfecção. Em seguida, a água vai para uma caixa de contato, com cloro, uma bomba e um reservatório de água não potável. Esse modelo tem manutenção simples, tornando-se o mais viável, mas não descarta o monitoramento da qualidade do efluente tratado, que deve ser feito por especialista, a um custo anual.

Em edifícios, pode ser usada: para regar ou irrigar, para fins paisagísticos, limpeza de pisos, vidros, veículos, descargas em vasos sanitários e mictórios, além de combate a incêndio. Em obras: desobstrução de tubulação, limpeza, testes, abatimento de poeira e umedecimento do terreno. E indústrias, pode ter outros fins, como no processo de resfriamento.

 

Benefícios

Edifícios que aplicarem essa modalidade de uso racional da água, dentre outras atitudes de sustentabilidade, podem concorrer a algumas certificações. Uma delas é a certificação LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), um sistema internacional de certificação e orientação ambiental para edificações. A eficiência do uso da água, apesar de ser um dos critérios, tem estabelecido um número mínimo de pontos necessários. As certificações, além de significarem a gestão econômica da edificação, tornam-na menos suscetível a problemas com fiscalização e valorizam o imóvel.

No âmbito municipal existe a Qualiverde, qualificação originada no decreto 35745 de 2012, que tem como um dos requisitos, também, o aproveitamento de águas pluviais. Além de gestão da água, analisa-se eficiência energética, desempenho térmico e projeto. Em 2014, o Rio de Janeiro, uma das edificações que recebeu o selo Qualiverde foi o Restaurante Ibérico, na Lagoa Rodrigo de Freitas, que implantou um sistema de captação de água de chuva. Esta é filtrada e serve para regar o telhado verde e o jardim vertical, além da lavagem de pisos e áreas externas. Construído para ser sustentável, foi o primeiro empreendimento comercial a receber o selo. No entanto, a qualificação poderia ser mais estimulante. "A prefeitura do Rio de Janeiro é modesta na concessão de benefício para quem tem o selo Qualiverde", opinou Leonardo Nogueira, explicando que o único benefício concedido é a tramitação prioritária no licenciamento. Enquanto isso, Salvador confere desconto de 5 a 10% no IPTU e Guarulhos (SP), de 3 a 20%.


A questão custo-benefício

“Aproveitar água da chuva dá retorno sob diversas formas, como segurança hídrica e retorno financeiro”, afirmou Nogueira. A segurança hídrica é importante, principalmente nos locais onde há longas estiagens e a água de chuva se faz necessária. Quanto ao retorno financeiro, pode demorar a chegar. A questão que se coloca é em que edifícios e condições geográficas faz-se de fato vantajoso implantar o sistema de aproveitamento das águas pluviais, e como fazê-lo. Segundo Nogueira, isso depende de vários fatores, inclusive da frequência de chuvas, de modo que um estudo dos dados pluviométricos do local se faz necessário. Depende, também, dos fins daquela água: se for, por exemplo, um prédio de um mercado atacadista, com pouco uso de água, pode não valer a pena. Já um shopping com a mesma área de captação, ao levar o recurso para as torneiras, vai ter mais benefícios. Em edifícios residenciais, a obra de adaptação pode ser mais barata caso a água não vá para os apartamentos, mas se for a economia será maior. Nogueira informou, ainda, que um edifício que não leve o recurso aos apartamentos faz uma economia de 5 a 10% por mês. Já no caso de incluir as unidades habitacionais, pode chegar a 30%. No entanto, a economia pode não ser suficiente para que se pague valor mais baixo, já que as faixas de consumo da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) têm valores fixos. Neste caso, a economia de milhares de litros de água pode não significar nada na hora de pagar a conta e a avaliação é que o tempo razoável de retorno do investimento é de cinco anos.


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