Geração de energia elétrica, como complementar as renováveis?

 

ALAN PAES LEME ARTHOU e FRANCIS BOGOSSIAN*
Jornal do Brasil, 17/03/18

 

A energia elétrica é algo tão comum no dia a dia da maioria dos brasileiros que sua importância só é notada quando há falha no fornecimento. A demanda dessa energia é cada vez maior, não apenas para o conforto das pessoas, mas para aumentar a produção industrial e o desenvolvimento econômico.

Dentro desse cenário, nos tempos atuais e futuros, não existe fonte energética que seja solução única para as demandas de um país e muitos avanços têm sido alcançados no uso de fontes renováveis, que devem continuar aumentando sua participação na geração total. No entanto, como essas fontes dependem da natureza (chuvas, ventos, sol), sua produção de energia apresenta características de sazonalidade e intermitência, havendo necessidade constante de complementação de fontes térmicas para garantir o atendimento da demanda com qualidade.

Dentre as fontes térmicas, a energia nuclear tem sido usada como uma fonte complementar no atendimento às necessidades de geração elétrica de alguns países como EUA, Reino Unido, Alemanha e Espanha, além de ter sido empregada para alavancagem da economia de países que se tornaram dependentes da mesma, como Japão, França, Bélgica, Suíça, Suécia e Coréia do Sul. No total, cerca de 15% da energia elétrica produzida no mundo é de origem nuclear.

Do ponto de vista estratégico, o Brasil tem jazidas que nos garante a autossuficiência, libertando-nos da dependência externa.

Tecnologicamente temos razoável grau de independência por operarmos usinas nucleares a longo tempo, sem acidentes, por termos sido capazes de projetar e construir um reator para uso em submarino nuclear e por termos desenvolvido todo o ciclo do combustível nuclear.

Muito se fala sobre os riscos de uma instalação nuclear mas,na área nuclear, não há nada mais importante que os sistemas de segurança, que têm progredido com o avanço tecnológico. Várias medidas são tomadas para minimizar a probabilidade e reduzir os possíveis danos de eventos indesejáveis, motivo de a engenharia nuclear ser usada como referência para estudos de análise de risco e de ter um dos menores índices de acidentes, ou mortes, apesar dos acidentes registrados em usinas diferentes das nossas e que não seguiam as recomendações de segurança em vigor.

Uma das medidas adicionais de segurança pode ser instalar as usinas a distância segura dos centros urbanos (cerca de 15 km) e considerar esse entorno como zona de proteção ambiental para evitar ocupação, o que não é problema para um país das dimensões do Brasil.

Ainda, sob o ponto de vista da segurança, entre as formas de energias não renováveis a segurança do transporte e armazenamento do combustível é maior para uma usina nuclear do que para as demais usinas térmicas.

A energia nuclear passou a ser defendida por ecologistas de renome como James Lovelock, principalmente por não emitirem gases de efeito estufa ou provocar chuvas ácidas.

Os detratores dessa forma de geração normalmente apontam o resíduo nuclear (que eles costumam chamar de lixo, ignorando que podem ser reciclados e que serão valiosa fonte energética para o futuro) como um dos seus mais graves inconvenientes. Já os que defendem a energia nuclear apontam como vantagem o fato do armazenamento de todo o resíduo ser perfeitamente gerenciável, seguro e de pequenos volumes, comparados à quantidade de energia gerada, diferente do que ocorre com as demais formas de geração não renováveis, que lançam seus resíduos na atmosfera.

Do ponto de vista econômico, o custo de instalação de uma usina nuclear é alto em relação às outras opções não renováveis em virtude do nível de tecnologia envolvido e do nível de segurança ambiental e pessoal. Esse custo inicial tem que ser recuperado ao longo da vida útil da usina e representa grande parte do custo da energia gerada. Em compensação, essa característica permite que o custo da energia seja estável e previsível ao longo dos anos.

Em virtude da alta densidade energética e de ser sólido, o custo do combustível nuclear e do seu transporte por energia gerada, é bem menor que todos os outros tipos de combustíveis.Adicionalmente, como o Brasil tem as reservas e a capacidade de produzir todo o combustível para as suas usinas, esse custo não está sujeito às especulações do mercado internacional.

O fato de no Brasil existirem apenas duas usinas nucleares e de a construção ter sido paralisada diversas vezes e por longos períodos, não nos permite uma comparação justa do custo total de produção, mas, certamente é mais econômica e previsível que as demais usinas térmicas.

Diante dos dados apresentados, essa Academia considera que o país deva continuar a explorar seus recursos renováveis para geração de energia e que, diante da necessidade evidente e demonstrável de complementação da energia gerada por fontes renováveis, deva optar, mantidas todas as garantias de segurança pessoal, patrimonial e ambiental, pela energia nuclear.


* Engenheiros, membros da Diretoria da

Academia Nacional de Engenharia – ANE


 

 


 

 

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