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notícia 20/10/2017

O futuro do trabalho: cenário em aberto

Entre 2012-2016, trabalhadores brasileiros perderam mais de 250 milhões de dias de trabalho devido a acidentes e doenças ocupacionais, segundo dados do Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho e OIT. Foto: Salvador Scofano/Fotos Públicas.
Entre 2012-2016, trabalhadores brasileiros perderam mais de 250 milhões de dias de trabalho devido a acidentes e doenças ocupacionais, segundo dados do Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho e OIT.
Foto: Salvador Scofano/Fotos Públicas.

Que tipos de trabalho serão possíveis e quais serão os perfis dos trabalhadores do futuro? Como as tecnologias têm condicionado mudanças, e como ações presentes, como a Reforma Trabalhista, influenciam esse debate? Estas foram algumas das questões tratadas pelos convidados do seminário “O Futuro do Trabalho no Brasil”, realizado no dia 19 de outubro, no Clube de Engenharia.

“Olhar o futuro nunca foi tão importante”, alertou Jano Moreira de Souza, professor titular da COPPE/UFRJ, na abertura do evento. “E temos muito mais dados disponíveis, embora nunca tenha sido tão difícil fazer previsões. Muitos cenários são colocados, mas é complicado olhar 10 anos à frente porque as mudanças na sociedade ocorrem rapidamente”, observou ele, lembrando que o desenvolvimento tecnológico tem alterado em poucos anos processos que estiveram consolidados no último século, como a luta por direitos trabalhistas e a aposentadoria. Também na abertura, Artur Obino, diretor de atividades técnicas do Clube de Engenharia, lembrou que o debate sobre o futuro do trabalho atualiza defesas históricas da entidade, como a soberania nacional e a democracia.

“É preciso lembrar que sem crescimento econômico não há chance de ter trabalho”, observou o professor Jano Moreira de Souza. “Mas vemos os governos cada vez mais próximos das empresas e do capital financeiro e mais distantes dos cidadãos. Caminhamos do Estado de Bem-Estar Social para o de Mal-Estar Social”, criticou. Para ele, a discussão sobre o futuro do trabalho, urgente e inadiável, precisa passar por um olhar social, como o que avança na discussão da renda mínima como um direito dos cidadãos e uma garantia ao desemprego.

O evento foi promovido pela COPPE/UFRJ e o Laboratório do Futuro, com apoio do Clube de Engenharia, e reuniu representantes de diferentes setores, como professores, pesquisadores, sindicalistas, gestores públicos e do setor privado, todos empenhados em pensar formas de construir um mundo do trabalho mais justo no futuro próximo.

Agenda internacional
A discussão está presente e ativa na agenda internacional, garantiu o diretor no Brasil da Organização Internacional do Trabalho (OIT), Peter Poschen. “Alguns futuros podem parecer assustadores, mas é preciso pensar nos futuros desejáveis”, aconselhou ele, lembrando do cenário difícil que vive o Brasil hoje, com recessão econômica e índices alarmantes de desemprego.

O especialista afirmou que, no âmbito da OIT, a pauta ganhou força em 2015, com o lançamento do relatório “Iniciativa centenária do futuro do trabalho” (disponível em inglês aqui), que identificou quatro temas-chave: (1) trabalho & sociedade, (2) emprego digno para todos, (3) organização do trabalho e produção e (4) governança. Uma comissão mundial busca recolher contribuições sobre o tema até 2019, ano do centenário da organização, criada para auxiliar os países na governança das questões trabalhistas. Segundo Poshcen, os desafios vislumbrados até agora tangenciam questões sociais abrangentes, como o crescimento e envelhecimento da população mundial, as mudanças climáticas e o aumento da mecanização e automatização advindas da Indústria 4.0.

Gestão pública
O Brasil tem números conflitantes sobre os trabalhadores do setor público federal, observou Carlos Henrique Moreira, diretor-geral adjunto na Escola de Administração Fazendária (ESAF), ligada ao Ministério da Fazenda. Segundo ele, embora no Brasil os servidores públicos correspondam a 10 -11% do total de empregos, percentual menor que a média de 20% nos países desenvolvidos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a despesa com pessoal correspondia a 12% do PIB, alto na comparação internacional. Trata-se da maior fatia do orçamento federal, observou Carlos Henrique.

O servidor citou iniciativas que buscam otimizar a dinâmica do serviço público no Brasil, como o projeto de Cidadania Digital do Governo Federal (SEGES/MP) e projetos de engajamento da sociedade nas políticas públicas, além da transferência de responsabilidades da esfera federal para o Estados, Municípios e sociedade civil. “Temos muitas perguntas a responder. Qual o perfil necessário do gestor do futuro, que conhecimentos e habilidades ele deverá ter? Como fazer a requalificação em massa? Como engajar a sociedade nos projetos de seu interesse, e qual é o efeito dessa maior participação? Como a tecnologia pode apoiar essa mudança?”

Para David Almeida, analista de negócios da Lemobs, startup formada por egressos da COPPE/UFRJ, as soluções na gestão dos municípios passam pelo emprego eficiente da tecnologia. “Pesquisa do IPEA, de 2011, mostrou que mais da metade dos servidores públicos municipais em sete estados do país não tinha ensino superior. Isso é natural ao se pensar na abrangência desses servidores, que vão desde professores e gestores até pessoas que tapam buracos nas ruas. Para pensar o futuro dos servidores e do serviço público, é preciso pensar no futuro dos cidadãos”, afirmou. David Almeida citou projetos como o PrefeitoBot, sistema criado por alunos da UFRJ e vencedor de uma maratona do Facebook que automatiza serviços públicos municipais, como reclamações sobre iluminação pública. Outro exemplo de projeto nesse sentido é o CrowdView, plataforma que aproveita o engajamento das pessoas para o planejamento urbano e que foi objeto da pesquisa de doutorado de Márcio Antélio, professor do CEFET.

Tendências para 2050
O futuro do trabalho em 2050 no Brasil, tema de estudo de Eduardo Barbosa, tecnologista no CASNAV e Yuri Lima, líder de desenvolvimento no CAPGov, provavelmente seguirá tendências determinantes. Primeiro, o aumento da "computerização", isto é, a automação do trabalho por meio de equipamentos controlados por computadores, seja com uso de inteligência artificial, seja com robótica.

Deverá haver também o crescimento de formas alternativas de emprego, como trabalhos temporários, terceirizados, temporários, em meio período ou em esquemas de "auto-emprego dependente", como é o caso de motoristas de carros de aluguel por aplicativo, como o Uber.

A igualdade de gênero, uma das discussões mais atuais no mundo do trabalho, ainda deverá ser pauta em 2050, já que estudos mostram que, no atual ritmo, a igualdade de salários e direitos só será atingida em 83 anos.

Relações trabalhistas pós-reforma
Uma profunda reinvenção dos sindicatos também é vislumbrada por Eduardo Barbosa e Yuri Lima, capitaneada pelas novas formas alternativas de trabalho e mudanças na legislação trabalhista, como a que ocorreu no Brasil em 2017.

Essa última questão foi criticada por Cíntia Possas, advogada trabalhista. "As mudanças na legislação trabalhista devem ser feitas com discussão com a sociedade, o que não foi o caso da Reforma feita pelo governo federal", disse ela. Segundo Cíntia, mais de 100 artigos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foram modificados, embora nenhum se adeque ou tente modernizar, de fato, as relações trabalhistas de forma a não prejudicar ou fragilizar os trabalhadores, que são os mais afetados pelas mudanças no mundo do trabalho.

"A vinda das novas tecnologias assusta, porque preocupa o que vai ocorrer com nossos postos de trabalho", afirmou Daniele Moretti, diretora do Sindicato dos Comerciários do Rio de Janeiro. "Os trabalhadores não estão preparados para enfrentar a reforma, muitos sequer conhecem suas cláusulas. Eles não foram chamados para discuti-la", criticou Douglas de Freitas, diretor do mesmo sindicato. "É preciso fazer um amplo debate sobre a tecnologia no mercado de trabalho. Pensar como ela pode ajudar o trabalhador que já está no mercado e está sujeito às transformações profundas, inclusive o desemprego", disse ele.

Envelhecimento, trabalho e aposentadoria
Márcia Tavares, fundadora e CEO do Laboratório da Longevidade, startup apoiada pela COPPE, lembrou que as alterações demográficas incidirão de forma decisiva. Com a tendência de crescimento na expectativa de vida e diminuição da taxa de natalidade, o curso de vida das pessoas mudará. “A tendência é que as pessoas possam ter a aposentadoria faseada, por exemplo. Não é necessário que esse processo aconteça de um dia para o outro. Outra mudança é que poderá existir uma nova divisão da carreira, com pessoas trabalhando até mais velhas. Na minha pesquisa de mestrado, entrevistei trabalhadores aposentáveis (que tinham condição de se aposentar, mas continuavam trabalhando), e os maiores motivos para estarem nessa condição era a convicção da capacidade produtiva, a necessidade financeira e a conservação do padrão de vida. Outros motivos eram a satisfação pessoal, a construção de legados, o sentimento de utilidade, a preservação das relações sociais e o vício em trabalho”, disse Márcia.

Segundo a consultora, o trabalho para pessoas idosas pode ser visto sob diferentes óticas, e embora os governos tenham responsabilidade nisso (lidando com as aposentadorias, por exemplo), as empresas também devem se preparar. "Apesar de haver atualmente incentivo para uma gestão atenta aos fatores da idade, falta conhecimento especializado, ferramentas e apoio para implementar soluções”, afirmou. Gastos em saúde, a necessidade de renovação nos postos de trabalho e mesmo a convivência entre trabalhadores de diferentes gerações são fatores que impactarão fortemente as relações trabalhistas no futuro.