Sem silêncio, sem complacência
- Por Francis Bogossian, com Catarina Luiza de Araújo (Diretora Institucional do Clube de Engenharia do Brasil)
O Dia Internacional da Mulher não se esgota na liturgia das datas. O 8 de Março permanece como marco de consciência, de memória e de responsabilidade pública. É uma data que convoca instituições e lideranças a se posicionarem com clareza diante das desigualdades persistentes, das violências reiteradas e das barreiras que ainda limitam a plena cidadania das mulheres. Mais do que celebrar, é preciso afirmar compromisso; mais do que homenagear, é preciso sustentar ações concretas em favor da vida, da dignidade e dos direitos.
Os dados mais recentes mostram que a violência contra a mulher segue grave e persistente no Brasil. Em 2025, o Ligue 180 registrou 594.118 atendimentos e 86.025 denúncias entre janeiro e julho, com aumento de 2,9% em relação ao mesmo período de 2024. Não são apenas números: revelam medo, sofrimento e desamparo ainda presentes na vida de milhares de brasileiras. (https://www.gov.br/mulheres/pt-br/ligue180 )
As denúncias evidenciam a diversidade e a recorrência das agressões, com destaque para a violência física, psicológica e sexual, além de outras formas de abuso. Por trás desses registros há vidas marcadas, famílias atingidas e a permanência de uma cultura que ainda naturaliza a violência de gênero.
O Brasil construiu, ao longo dos anos, importantes instrumentos legais e institucionais para o enfrentamento dessa realidade. A Lei Maria da Penha permanece como um dos pilares dessa proteção. A tipificação autônoma do feminicídio e o fortalecimento de políticas nacionais voltadas à sua prevenção também representam avanços relevantes. Contudo, a efetividade desses instrumentos depende de continuidade administrativa, integração entre órgãos públicos, orçamento, capilaridade territorial e compromisso ético de toda a sociedade.
É nesse contexto que o papel das entidades da sociedade civil se afirma com especial relevância. O Clube de Engenharia do Brasil, por sua história, sua autoridade institucional e sua vocação pública, expressa esse compromisso ao defender a presença das mulheres não apenas nos espaços técnicos e profissionais, mas também nos centros de decisão. Não basta reconhecer sua participação na base operacional. É indispensável ampliar sua presença em cargos de liderança e nos conselhos profissionais, para que sua competência, sua visão e sua experiência influenciem efetivamente os rumos estratégicos das instituições e contribuam para romper barreiras que ainda limitam trajetórias femininas.
Ao reunir especialistas, promover reflexão qualificada, dar visibilidade a trajetórias femininas e sustentar uma agenda comprometida com o interesse público, o Clube reafirma que a engenharia e suas instituições não podem permanecer alheias aos desafios humanos e sociais do país. Essa responsabilidade adquire dimensão ainda maior quando se compreende que a proteção das mulheres também passa pelo planejamento do espaço urbano, pela qualidade da infraestrutura pública, pela mobilidade, pela iluminação, pela ocupação segura da cidade, pelo acesso aos serviços e pela construção de ambientes profissionais respeitosos e livres de discriminação. A engenharia, nesse sentido, não é apenas técnica: é também instrumento de cuidado, inclusão e civilidade. Pensar cidades, equipamentos e sistemas com responsabilidade social é igualmente participar da construção de uma sociedade mais segura para as mulheres.
O Clube de Engenharia do Brasil, ao reafirmar seu compromisso com o desenvolvimento nacional, reafirma também que não há desenvolvimento verdadeiro onde a violência contra a mulher persiste como realidade cotidiana. Não há projeto de país pleno sem respeito à integridade física, moral, profissional e política das mulheres. Não há modernização autêntica quando ainda se toleram o assédio, a exclusão, a desigualdade e a morte.
Na semana em que o país ainda reflete sobre o significado do Dia Internacional da Mulher, as instituições reafirmam o dever de reconhecer a luta das mulheres, defender os direitos conquistados e sustentar, com serenidade e firmeza, a agenda de transformação ainda necessária. O combate ao feminicídio, à violência doméstica, ao assédio e a toda forma de discriminação impõe-se como imperativo civilizatório e responsabilidade coletiva.
Que esta data renove, em todos nós, não apenas a disposição de homenagear, mas, sobretudo, a determinação de agir. O Clube de Engenharia do Brasil reafirma sua voz, sua tradição e sua responsabilidade pública em favor de uma sociedade em que nenhuma mulher tenha sua vida limitada pela violência, pelo medo ou pelo silenciamento.
- Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.



