A engenharia do palco do “maior espetáculo da Terra”

A engenharia do palco do “maior espetáculo da Terra”

Desfile da Viradouro. Crédito: Clara Radovicz/Riotur
A engenharia do palco do “maior espetáculo da Terra”
Sambódromo do Rio

Sambódromo do Rio de Janeiro representou um feito de eficiência e qualidade estrutural na área de obras públicas

A pouco menos de seis meses do carnaval de 1984, a decisão do governo do Estado do Rio de Janeiro de não mais realizar a montagem de arquibancadas temporárias para o público dos desfiles das escolas de samba criou um desafio que marcou a história da arquitetura e da engenharia no país. Era feriado de 7 de setembro de 1983, que não foi de descanso para os envolvidos. Foi batido o martelo que o projeto do arquiteto Oscar Niemeyer para a Passarela do Samba seria executado, mesmo com o prazo curtíssimo. Um gesto de coragem do anfitrião do encontro, o governador e engenheiro civil Leonel Brizola, que ganhou o apoio do seu vice, o antropólogo Darcy Ribeiro. 

O final da história já é conhecido: o projeto foi de fato entregue a tempo para o Carnaval. Mas para que tudo desse certo vários fatores contribuíram para o resultado. Alguns causados por decisões acertadas no âmbito administrativo e técnico, bem como algumas coincidências. A começar pela proximidade do apartamento de Brizola, na Avenida Atlântica, em Copacabana, com o escritório de Niemeyer, o que facilitou a chegada do arquiteto, acompanhado de seu calculista, o engenheiro José Carlos Sussekind. Foi ele que tinha todas as contas na ponta da língua e tirou as dúvidas do governador, e o deixou também ciente dos riscos. O que mais o convenceu foi o fato de os custos de montagem e desmontagem das estruturas temporárias serem a metade do orçamento de construção do Sambódromo, nome dado posteriormente por Darcy ao projeto. Ou seja: em dois anos o projeto estaria “pago”, digamos assim.

“O Brizola era um político que despertava paixões e ódios e por isso não poderia correr o risco da construção ser um fracasso. Ele me perguntou na lata se daria tempo de ficar pronto e eu respondi que sim, tendo em vista que a maior parte da estrutura seria pré-fabricada. Mas, como seria feita em partes, em caso de um atraso uma arquibancada poderia ser montada”, conta Sussekind.

Mas o “Plano B” não precisou ser acionado. O desenho de Niemeyer e o trabalho de cálculo estrutural do engenheiro eram não só bem casados como permitiram uma montagem bastante rápida. A etapa de fundação foi bastante eficiente e ocorreu sem maiores problemas, com estacas fincadas na maioria das vezes como o previsto. Os pilares maiores de sustentação das arquibancadas, em formato mais curvo, tiveram que ser produzidos no local da obra. Mas os demais, bem como vigas de seção, lajes e escadas, vieram de fora para a concretagem. Todo o processo foi facilitado também por guindastes que içavam as peças. 

A engenharia do palco do “maior espetáculo da Terra” a engenharia do palco do maior espetaculo da terra a engenharia do palco do maior espetaculo da terra 5
Vista aérea do Sambódromo. Crédito: Diego Bavareli/Creative Commons

O ano de 1983 foi marcado pela hiperinflação e por uma dura recessão, o que gerou um grande interesse de empreiteiras e trabalhadores na participação, já que todos foram afetados pela crise. A obra foi dividida entre a paulista CBPO, a mineira Mendes Júnior e o consórcio União Fluminense de Construtores (UFC). Os 2,5 mil operários trabalhavam 24 horas por dia, em três turnos. Técnicas inovadoras, como o uso de plataformas móveis fixadas à estrutura, eliminaram a necessidade de escoramentos tradicionais e agilizaram o processo. Com isso, até as escolas de Ensino Fundamental que passariam a funcionar embaixo das arquibancadas também ficaram prontas antes do carnaval. Elas foram um prenúncio do famoso projeto dos Cieps, e poderiam atender a até 10 mil crianças em tempo integral.

Mas com uma licitação em regime de emergência e o ritmo frenético das obras, havia muita desconfiança com relação à segurança do projeto. Eram questionamentos que partiam tanto de engenheiros e arquitetos do Estado quanto da mídia. Foi um fator de vigilância que no fim das contas deu mais confiança ao projeto. Até uma prova de carga foi feita no local, aos olhos da imprensa, para demonstrar a segurança das estruturas. O pânico era tanto, que até um dos primeiros desfiles quase foi interrompido por causa de uma junta de dilatação confundida com uma rachadura. Dezenas de bombeiros se aglomeraram para examinar a parede, que não tinha nada de anormal.

Toda a passarela tem 700 metros de comprimento, mas o trecho que efetivamente conta para os jurados é de 560 metros, pois o Setor 1, com arquibancada a preços populares, serve apenas para a formação das escolas de samba. O espetáculo, graças às sutilezas do projeto, consegue ser lucrativo, com a arrecadação em setores mais caros, como camarotes e frisas, e contempla também os menos abonados. Niemeyer concebeu também a Praça da Apoteose, mais ampla, que permitiria uma dispersão em que as alas se espalhariam. Mas a ideia não foi bem aceita pelas agremiações e cadeiras passaram a ocupar o espaço extra. No fim da passarela, um enorme arco de concreto completa a praça. Ele fica sobre o Museu do Samba e um palco para apresentações. A Praça da Apoteose também foi pensada para a realização de eventos culturais durante o ano e já foi utilizada para sediar festivais, inclusive competições esportivas, como provas das Olimpíadas de 2016.

“O arco foi muito polêmico. Muita gente dizia que era parecido com o símbolo do McDonald’s, outros achavam que era pornográfico, alguns diziam que ia quebrar, mas era apenas um arco clássico, porém audacioso por suas linhas muito finas. Foi difícil de fazer não só por ser apenas uma fina camada de concreto, mas também por causa do orçamento apertado”, lembra Sussekind.

Mas mesmo com toda polêmica e desconfianças, o Sambódromo não só ficou pronto a tempo para o Carnaval de 1984, como toda a obra foi concluída em 110 dias, 10 a menos que o previsto. Apesar da agilidade, segundo Sussekind, houve um enorme cuidado com o controle financeiro e até uma auditoria internacional foi contratada para acompanhar o processo. Isso não impediu que houvesse embates, inclusive com as escolas de samba, que tiveram que dividir os desfiles em dois dias. Tantos questionamentos, principalmente na imprensa, prejudicaram as vendas dos ingressos, mas o governador ordenou que sua própria equipe começasse a vender as entradas, para lotar o lugar em sua estreia.

A Rede Globo, que tradicionalmente transmitia os desfiles, resolveu boicotar o Sambódromo, o que abriu espaço para a exibição pela extinta TV Manchete. O baque na audiência fez depois a emissora voltar atrás. Nem a ameaça de que o sistema de som não iria funcionar a contento se concretizou. A cada ano, o Sambódromo contribuiu para a maior sofisticação e exuberância do Carnaval carioca, sendo reconhecido como a principal festa popular brasileira. 

A engenharia do palco do “maior espetáculo da Terra” a engenharia do palco do maior espetaculo da terra a engenharia do palco do maior espetaculo da terra 2
Após as obras de ampliação das arquibancadas, Niemeyer visita o Sambódromo

Depois do destombamento da fábrica da Brahma, em 2011, foi possível sua demolição para a construção de novas arquibancadas nos setores pares, o que o tornou  mais simétrico. A capacidade de público foi ampliada de 60 mil para 72,5 mil pessoas. Não é à toa que o projeto de Niemeyer acabou virando um cartão postal da cidade e inspirou outros sambódromos pelo país, como o do Anhembi (SP),  o Centro de Convenções Professor Gilberto Mestrinho (Manaus) e o Complexo Cultural do Porto Seco (Porto Alegre), entre outros.

Recomendado

Próximo Eventos

Área do Associado

Faça seu login
Enviar Correspondência
Inscrição

Inscreva-se na nossa newsletter para receber atualizações exclusivas sobre o portal do Clube de Engenharia! Fique por dentro das últimas novidades, eventos e informações relevantes do setor.

Fale Conosco