Omissão do poder público é suprida com esforços da sociedade, exemplificados em trabalho de grupo de engenheiros do Rio em apoio a comunidade de Duque de Caxias
O processo de emancipação das mulheres passa necessariamente pelo acesso dos filhos à creche, sem o qual principalmente as mais pobres não têm como conciliar o trabalho e os cuidados com as crianças. Mas ainda hoje apenas 38,7% delas, na faixa de 0 a 3 anos, estão matriculadas, segundo pesquisa do IBGE. Ampliar o número de vagas e melhorar as condições desse serviço, que é a porta de entrada no sistema educacional, é um desafio, que é bem exemplificado no empenho de uma comunidade de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, pela autogestão de uma unidade. Apesar do esforço hercúleo das moradoras, o lugar poderia até ter fechado, se não fosse o apoio de fora, como o de um grupo formado em grande parte por engenheiros.
A história da creche de Jardim Gramacho mostra como a luta das mulheres ainda é extremamente relevante e precisa ser mais bem reconhecida pelo país. Foram moradoras que se uniram para administrar a unidade, que foi aberta inicialmente como uma biblioteca, construída com madeiras doadas por uma ONG e com material recolhido do lixo, que serviu para finalizar o muro e o piso. Isso porque de detritos que são jogados fora pela sociedade a comunidade tira seu sustento, constrói suas habitações e até tenta suprir suas necessidades de educação e cultura, que são imensas. Uma realidade que já foi retratada, inclusive, no premiado documentário “Lixo Extraordinário”, do artista Vik Muniz.
O espaço, que atraía as crianças por causa dos livros, também aos poucos se transformou em abrigo para outras atividades. Virou um lugar para elas brincarem ou assistirem à TV, podendo ser acompanhadas pelas voluntárias. Assim, sem uma inauguração formal, acabou se convertendo em creche, pois ganhou a confiança das mães para deixarem os filhos enquanto trabalham, em sua maioria na separação de lixo.

O esforço enorme das mulheres que cuidam da creche e as contribuições das famílias, no entanto, não foram suficientes para manter o funcionamento do lugar. O apoio de fora, inclusive de uma igreja evangélica, mostrou-se incerto e pouco frequente. Por isso, há cerca de quatro anos a situação do local chegou ao conhecimento de um grupo de cerca de 100 voluntários, em sua maioria engenheiros e técnicos da Petrobras, que inicialmente fez uma campanha para a entrega de donativos. Os voluntários já tinham muita experiência com esse trabalho para diversas instituições, mas aos poucos foram percebendo que o quadro em Jardim Gramacho era ainda mais desafiador. Além das doações, precisavam também de apoio técnico para realizar melhorias, o que não foi difícil com a participação de engenheiros e calculistas.
“A primeira coisa que nos chamou a atenção foi o piso de terra batida, coberto em algumas partes com um tapete de grama sintética. Como as crianças ficavam sobre o chão, resolvemos logo cimentar esse espaço. Depois, apareceram outras prioridades”, conta a engenheira Cristina Rego Nascimento.
Mas as carências eram muitas. Os cupins já tomavam conta da madeira da casa e insetos também infestavam o lugar. As paredes foram trocadas por alvenaria com a ajuda de outros colaboradores. Por outro lado, uma equipe da Prefeitura esteve na creche para o combate aos mosquitos, numa rara aparição do poder público. No entanto, faltavam janelas, acabamentos, embolso e até móveis, o que continuou mobilizando o grupo de engenheiros.

Uma das principais conquistas foi a construção da cozinha, que recebeu até fogão industrial. Foi praticamente uma expansão da casa. Mesas e cadeiras também foram providenciadas. Um novo telhado completou a consolidação do imóvel. As obras foram normalmente feitas por um profissional local, mas para a cozinha um verdadeiro mutirão entre os amigos foi montado.
“Era uma situação muito precária, pois as refeições eram feitas do lado de fora. A cozinha era uma prioridade. Juntamos um grupo para virar uma laje, como se diz popularmente. Foram rapazes da Zona Sul também voluntários. Apesar do calor, deram duro e no final acabou em feijoada”, explicou Cristina.
O engenheiro aposentado da Petrobras Luís Fernando Lastres comandou as obras e contou com a ajuda de calculistas para a compra dos materiais na quantidade certa. A reforma das instalações elétricas também foi providenciada, para evitar a danificação dos eletrodomésticos adquiridos, como a geladeira e TV.


A creche de Jardim Gramacho atende a até 50 crianças, que sem essa estrutura poderia até estar passando fome. Mas faltam professores e programa didático. Uma parceria com o poder público ou o apoio mais robusto de uma instituição se faz necessário. São deficiências como essas que emperram o desenvolvimento no país. O Plano Nacional de Educação previa a oferta de vagas em creches para pelo menos metade das crianças até 3 anos, mas a meta não foi atingida no ano passado.
O grupo de voluntários do Rio tem outros planos e já se mobiliza para ajudar na ampliação de uma creche no bairro carente do Jóquei Clube, em São Gonçalo. A creche comunitária está em processo de formalização e já conta com professoras. No entanto, precisa de obras para a construção de mais duas salas e de um refeitório. Olhar para essas unidades erguidas em comunidades carentes com mais atenção é um dever da sociedade e do poder público, em função da necessidade de garantia dos direitos das mulheres e de se planejar um país melhor no futuro.