Países árabes lideram projetos de edifícios mais altos do mundo, com design feito para suportar condições extremas e estrutura com recursos que garantem estabilidade
O setor da construção civil vive uma corrida no mundo rumo às alturas. A cada ano surgem projetos mais desafiadores de arranha-céus cada vez mais altos, em que a engenharia e a arquitetura precisam adotar inovações em nome da segurança, eficiência e sustentabilidade das construções. É uma disputa que ficou mais acirrada depois do anúncio da retomada das obras da Torre de Jeddah, na Arábia Saudita, que deve superar o atual prédio mais alto do mundo, o Burj Khalifa de Dubai, e atingir os mil metros na vertical. Em jogo, está a capacidade de elaborar designs que fortaleçam o equilíbrio, instalar elevadores rápidos, além de estruturas que poupem energia e que deem sustentação a esses conjuntos.

A torre da cidade árabe de Jeddah começou a ser construída em 2013, mas teve suas obras interrompidas em 2018, em virtude de um escândalo de corrupção e por conflitos trabalhistas. Desde o início, a ideia era superar o edifício mais alto do mundo dos Emirados Árabes. Matematicamente, a tarefa é erguer uma construção com um quilômetro de altura e 167 andares e deixar para trás o prédio que detém o atual recorde, concluído em 2010, com seus 828 metros e 163 andares. Além dessa diferença de cerca de 170 metros, o projeto promete uma superação também no campo tecnológico, arquitetônico e de engenharia. A começar pelo formato projetado pelo escritório Adrian Smith + Gordon Gill, o mesmo responsável pelo Burj Khalifa, que neste caso se inspirou na vegetação do deserto para conceber o prédio no formato de folhas que se dobram, lembrando também uma flecha apontada para o céu. O objetivo é suportar condições extremas de vento e temperatura, no que a inclinação da fachada também contribui.
Entre as inovações do projeto, está a robustez das suas fundações, compostas por 270 estacas de concreto maciço, com 1,8 metro de diâmetro, fincadas a 105 metros de profundidade. A Torre de Jeddah vem sendo construída sem colunas e seu equilíbrio será garantido graças a um sistema de contraventamentos, vigas de piso e de fachada, além de transferências verticais. As fachadas também foram desenhadas a fim de gerar uma proteção contra a irradiação solar e poupar energia.
Para chegar ao topo desses mil metros, será mais rápido do que se pensa. Isso porque a torre será equipada com elevadores de altíssima velocidade, capazes de subir a 10 metros por segundo. Foi uma disputada concorrência vencida pela empresa finlandesa KONE. Sua tecnologia inclui cabos de fibra de carbono, que permitem que os elevadores operem em distâncias muito maiores do que os cabos de aço tradicionais. A promessa é que do roof top, os frequentadores e visitantes tenham uma vista deslumbrante, que abranja até o Mar Vermelho.

Ele está inserido num plano mais amplo de desenvolvimento urbano na região, um distrito apelidado de Kingdom City, com previsão de investimentos de US$ 20 bilhões. Será uma verdadeira cidade capaz de abrigar cerca de 100 mil pessoas. Na torre, que ficará pronta em 2028, haverá apartamentos de alto padrão e um hotel de luxo. A verticalização cada vez mais radical ostenta poder, riqueza e atrai negócios. O que explica tamanha competição nas áreas de arquitetura e engenharia.

A própria Dubai está construindo o Burj Azizi, com seus 725 metros, desenvolvido pela empresa americana de arquitetura AE7. O projeto traz inovações, como design de fachada inteligentes, que se adapta às condições climáticas. Em sua estrutura, se destacam as soluções de fundação e métodos de construção inovadores, como o uso de tecnologia de cofragem (moldagem de concreto em blocos) avançada fornecida por empresas especializadas como a austríaca Doka.
A engenharia chinesa também se destaca no campo das construções mais altas do mundo. Um exemplo é o Edifício Tianjin 117 (Goldin Finance 117) que recebeu inovações de engenharia notáveis, focadas principalmente em resistência a terremotos e ventos fortes, utilizando um sistema estrutural de mega colunas e contraventamentos. A proposta foi reforçar a estrutura por meio de quatro mega colunas compostas (aço e concreto) em cada um dos cantos do edifício, conectadas por treliças e contraventamentos, formando uma espécie de tubo externo. Este sistema transfere eficientemente as cargas e atua como amortecedor de choque para resistir a torções e forças sísmicas. No entanto, a construção foi abandonada pouco antes da conclusão, apesar de sua altura imponente de 597 metros.

A corrida rumo ao céu não para, tanto que o Kwait entrou na disputa. Sua capital receberá o Burj Mubarak Al Kabir, que igualará a Jeddah com 1 km de altura. O projeto é assinado pelo arquiteto espanhol Santiago Calatrava, o mesmo que projetou o Museu do Amanhã do Rio, que buscou inspiração na arquitetura árabe, com seus minaretes erguidos junto às mesquitas. A engenharia promete ser de ponta e mesmo com essa altura, o equilíbrio e a segurança serão garantidos. O projeto prevê uma resistência a ventos de até 240 km/h.
A disputa não para por aí. A própria Arábia Saudita pretende construir uma torre ainda maior do que todas já anunciadas no seu projeto de expansão ao norte da capital Riade. A ideia é erguer um edifício com dois quilômetros de altura, como âncora desse novo espaço urbano, e a imprensa já vem noticiando o trabalho da empresa britânica Foster and Partners no projeto básico. Os desafios da engenharia para sustentar esse colosso serão ainda maiores, e vão marcar ainda mais essa era de extremos.




