Ex-governador deixou legado de projetos de forte impacto social e entrou em embates pela incompreensão de suas propostas
O impacto social dos projetos de engenharia faz parte de um novo enfoque da atividade que mobiliza profissionais nas empresas, órgãos públicos e integrantes do meio acadêmico. Mas pouco se menciona que essa preocupação já era a tônica da atuação do engenheiro civil Leonel de Moura Brizola (1922-2004), muito antes de o conceito entrar em voga. Apesar de ter se dedicado à política em toda a sua vida adulta, sua formação em engenharia civil pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) lhe deu a base para sua atuação na vida pública, conciliando a visão técnica com os ganhos para a sociedade. Não à toa, costumava incluir a profissão à própria assinatura. Mesmo não tendo exercido propriamente a atividade, a utilizou para moldar como poucos um projeto de país.
Um dos feitos da carreira política de Brizola foi a construção do Sambódromo do Rio de Janeiro, entre 1983 e 1984, conforme mostra reportagem desta edição. Mas há diversos outros exemplos de projetos tocados por ele, que se destacam não só pela qualidade técnica quanto pelos benefícios sociais que trouxeram. Foram resultado de sua dedicação desde cedo aos estudos e do fato de ter enfrentado uma infância e adolescência de muitas dificuldades, o que o fez priorizar os mais necessitados depois que entrou para a vida política.

Detalhes da infância de Brizola só vieram à tona recentemente com a publicação do livro “Leonel Brizola por ele mesmo – Documento inédito”, da editora Insular — , organizado pela neta do ex-governador, a ex-deputada estadual gaúcha Juliana Brizola, e a pesquisadora e jornalista Rejane Guerra. Elas encontraram gravações inéditas feitas pela Câmara Municipal de Carazinho (RS), sua cidade natal, que estavam perdidas. Na obra, baseada no depoimento oral do ex-governador, estão por exemplo revelações como a de que invadia um internato para estudar, aos 9 anos de idade, quando tinha que trabalhar num açougue para sobreviver.
A morte precoce do pai, que foi assassinado na Revolução de 1923, marcou sua infância difícil e o forçou a trabalhar desde cedo. Teve que morar sozinho no sótão de um hotel de sua cidade e precisou lavar pratos do estabelecimento para ganhar o pão. Estudou graças a uma bolsa que conseguiu no Colégio da Igreja Metodista. Mas, aos 14 anos, se mudou para Porto Alegre, onde exerceu diversas funções como a de engraxate, graxeiro e ascensorista. No depoimento, Brizola contou que ao chegar à capital gaúcha teve dificuldade em se matricular num curso técnico por não possuir uma certidão de nascimento. Também revelou que precisou morar pelas ruas da cidade. Só concluiu o ensino fundamental com 20 anos. Depois de muito esforço conseguiu ingressar no curso de Engenharia em 1945, já com 23 anos.

Na universidade, cresceu seu interesse pela política. Tanto que se elegeu deputado estadual em 1947, antes mesmo de se formar. Ele fazia parte da juventude do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Pela sigla, foi reeleito deputado para a legislatura seguinte e chegou a concorrer à Prefeitura de Porto Alegre em 1951, mas não foi eleito por pouco. Entre 1953 e 1954, exerceu o cargo de Secretário de Obras Públicas do estado. Foi quando criou o Primeiro Plano de Obras do estado, e apesar do curto período, entregou uma série de obras de saneamento básico e transportes. Deixou a função para se candidatar a deputado federal, sendo eleito com 103 mil votos, um recorde para a época. Em 1955, concorreu novamente à prefeitura da capital, desta vez com slogan “Nenhuma criança sem escola”, e ganhou a eleição.
Ele cumpriu a promessa de priorizar a educação, tendo introduzido na rede pública do município o ensino em tempo integral, programa que ainda causaria enorme polêmica no Rio de Janeiro anos depois. Também executou programa de saneamento básico e de transporte público, além da urbanização de ampla área de Porto Alegre. Foi uma administração bastante popular, o que o credenciou a ser eleito governador do estado com 55% dos votos em 1958.

À frente do governo, tocou um programa mais ambicioso e polêmico. Já se contrapunha ao modelo adotado pelo então presidente Juscelino Kubitschek, defendendo uma linha claramente nacionalista. Um de seus principais projetos foi a construção da Refinaria Alberto Pasqualini, tocada praticamente em parceria com a Petrobras, e inaugurada só em 1968. No campo econômico, foi forte o embate com os Estados Unidos e os segmentos de orientação liberal do Brasil, ao encampar a Companhia Riograndense de Telecomunicações (CRT), subsidiária da americana International Telephone and Telegraph (ITT), e a Companhia de Energia Elétrica Riograndense, que pertencia à American and Foreign Power Company. Na educação, fez uma verdadeira revolução ao construir 5.902 escolas primárias (apelidadas de Brizoletas), além de 278 escolas técnicas e 131 ginásios/colégios. A administração também foi marcada por obras de eletrificação rural, de transportes e por introduzir uma reforma agrária.
Enquanto governador, Brizola enfrentou uma tentativa de golpe de Estado no país, que procurava impedir a posse de João Goulart na Presidência da República, após a renúncia de Jânio Quadros. Liderou a chamada Campanha da Legalidade, formada por uma cadeia de rádios, e também aparada por uma Brigada Militar. Foi parcialmente vitoriosa, ao garantir a posse do então vice, que foi obrigado a aceitar o comando pelo primeiro-ministro Tancredo Neves. Foi eleito deputado federal pela Guanabara, em 1962, com uma das maiores votações até então e liderou o apoio às Reformas de Base do governo Goulart, marcando uma fase de maior radicalização e confronto com as forças conservadoras.

Com o golpe de 1964, foi obrigado a se exilar no exterior, passando pelo Uruguai, Estados Unidos e Portugal, retornando ao país em 1979, após a Anistia. Já de volta à atividade política no Brasil, fundou o Partido Democrático Trabalhista (PDT), pelo qual concorreu ao governo do Estado do Rio em 1982. Venceu, mesmo com a oposição do regime e uma tentativa de golpe, pelo escândalo da Proconsult, um sistema de apuração que quase deu à vitória ao adversário Moreira Franco. À frente do Palácio Guanabara, criou o programa dos Cieps (Centros Integrados de Educação Pública), outra parceria com o arquiteto Oscar Niemeyer, que também projetou o Sambódromo. O projeto trouxe significativos avanços, não só na implementação do ensino integral, mas por compreender uma ampla assistência aos estudantes e suas famílias, além de um programa pedagógico inovador, incluindo teleaulas. Foi muito combatido pela mídia e pela classe média conservadora. No seu segundo mandato como governador, entre 1991 e 1994, é que deslanchou e superou as 500 unidades. Entre seus projetos, também merece destaque a construção da Linha Vermelha e a assinatura do financiamento ao Programa de Despoluição da Baía da Guanabara (PDBG).

Brizola antes se candidatou à Presidência em 1989, mas não chegou ao segundo turno, disputado por Collor e Lula. Além do “socialismo moreno”, frisava em seus discursos a necessidade de superação da dependência por parte do Brasil e repetidas vezes atribuía as mazelas nacional às “perdas internacionais”. Ao focar no nacional-desenvolvimentismo e na inserção mais independente do país no cenário internacional, como herdeiro do getulismo, acabou se afastando até de alas da esquerda, que se concentram na defesa de ganhos salariais para os trabalhadores. Concorreu à Presidência novamente em 1994 e não chegou perto de ser eleito. Apesar de ter comprado muitas brigas ao longo da vida e de ter sido combatido pelos poderosos, depois de morto o engenheiro Leonel Brizola foi sendo reabilitado, recebendo diversas homenagens e seu legado é reverenciado a cada eleição por políticos de diferentes linhas.




