Clara Steinberg, a Engenheira com uma visão social à frente de seu tempo

Clara Steinberg, a Engenheira com uma visão social à frente de seu tempo

Clara Steinberg foi homenageda no Congresso Nacional
Clara Steinberg, a Engenheira com uma visão social à frente de seu tempo
Sambódromo do Rio

Por Olga Simbalista

Conheci Clara Steinberg, em 1992, quando fomos, dentre outros, convidadas a fazer parte do recém-criado Conselho Empresarial do Meio Ambiente da Associação Comercial do Rio de Janeiro – ACRJ, presidido por Paulo Protásio, em caráter excepcional, pois presidentes não costumavam fazer parte dos conselhos. Mas estávamos no ano da COP-92 e a ACRJ queria ter um papel relevante em sua realização.

Tivemos uma reunião no Hotel Glória, para discutir a proposta da realização do Fórum das ONGs, no Aterro do Flamengo, durante a COP-92, por meio de parcerias, que passaram a incluir a da ACRJ.

Na ocasião, trabalhava em Furnas e, tão logo cheguei ao escritório, recebi um telefonema da Dra. Clara, que é como eu a tratava, e, ao atender, ela muito gentil, disse que havia reparado que, durante a reunião, eu anotara tudo (hábito que adquiri trabalhando com alemães que registravam tudo em agendas para uso posterior, se necessário) e indagou se eu não poderia fazer uma ata. Fiquei extremamente honrada e concordei prontamente. Redigi a ata à mão e enviei por fax: os tempos eram outros.

A vida seguiu e aos poucos fui me informando sobre os membros do Conselho, pessoas muito ilustres e, em particular, descobri que Dra. Clara era figura invulgar e uma das maiores personalidades do País, com as seguintes características:


• A então Clara Perelberg sempre foi a primeira aluna do Colégio Pedro II, em todas as etapas e dizem que, todos os meses, quando eram fixadas as notas dos alunos nos quadros dos corredores, seus colegas corriam, não necessariamente para ver suas próprias notas, mas para ver se Clara havia deixado de tirar 10, em alguma matéria, o que raramente ocorria


•Em seguida, foi primeiro lugar, entre 400 candidatos, incluindo seu futuro marido Jacob Steinberg, nos concursos de engenharias civil e química, na Escola Nacional, e ainda o primeiro lugar na conclusão destes cursos, completados com as pós-graduações em economia e indústria.

Após seu casamento com Jacob, o casal passou a trabalhar no Serviço Público, mas logo percebeu que o momento, o Pós-Guerra, era muito adequado para o setor imobiliário e decidiram trocar os empregos públicos, pelos riscos da livre iniciativa. Constituíram uma empresa de construção, da qual Clara teria sido a primeira mulher presidente de empresa de engenharia, não fosse o embargo da Junta Comercial, que, então, não admitia mulher em tal função, ficando, no cargo, seu marido Jacob.

Assim, foi criada, em 1948, a Jacob Steinberg Engenharia e Construções, aquela que no futuro seria conhecida como SERVENCO, sobrenome Steinberg, tendo sua primeira construção sido um prédio de três andares, no Andaraí.

Ao longo de sua existência, construiu, entre edifícios, residências, salas comerciais e hotéis mais de 10 mil unidades e o foi, sem nunca ter precisado de trabalhar para o setor público, sem nunca se endividar, nem atrasar salários ou impostos, sobrevivendo a todos os exóticos planos econômicos de seguidos governos.

Sua mente iluminada concebeu o conceito inovador dos Play Grounds, quando do início da expansão dos edifícios de apartamentos, pois não concebia crianças sem um espaço para brincar, como acontecera em sua alegre infância no Meier.

Introduziu o fornecimento do café da manhã para seus operários na construção civil, complementado por uma alimentação saudável, fato do qual tomei conhecimento, anos depois, na homenagem a ela prestada pelo Sindicato da Construção Civil do Rio de Janeiro, que dedicou seu nome ao Centro Cultural.

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Shopping Rio Design Barra

Deve-se a Clara a criação de centros de convivência em comunidades carentes, destacando-se os da Rocinha, do Centro Cultural do Dom Pedro II e da Oficina de Artes Maria Teresa, dentre vários outros.

A ela deve-se a criação do Instituto Rogério Steinberg, nome de seu filho que falecera vítima de acidente de carro, em uma rodovia estadual, que, segundo ela, não dispunha do mínimo de manutenção para garantir a segurança dos motoristas. Quando relatava este fato, seus olhos ficavam mareados de lágrimas. O Instituto Rogério Steinberg, como tudo que Clara implementava, foi concebido visando dar oportunidades a crianças com talentos em diversos setores, mas desprovidas de suportes financeiros e estruturais, para buscarem um lugar ao sol, nas áreas de cultura, esportes, artes e, atualmente, em inteligência artificial.

Notável também seu papel junto às instituições e pessoas da comunidade judaica, menos favorecidas.

Marcantes são suas atuações na Associação Promotora de Estudos Econômicos – APEC, no Sindicato da Construção Civil do Rio de Janeiro e na Associação Brasileiras de Shopping Centers, dentre outros.

 Em 1970, a SERVENCO constrói o prédio mais alto do Rio de Janeiro, o Edifício Santos Dumont, no Centro, em 1976, o de Copacabana e na mesma década o do Leblon.

Sempre inovadora, constrói o primeiro Apart Hotel do Rio de Janeiro.

Avança na criação do conceito de shopping centers dedicados, exclusivamente, ao design, como o Rio Design Center e o Rio Design Barra, esta obra de uma arquitetura invulgar. Clara dava boas risadas, dizendo que Los Hermanos Argentinos não se intimidaram a copiá-los, na Recoleta, dentro da mesma concepção e fazendo grande sucesso. Só esqueceram de citar os direitos autorais.

Clara lidera a Implementação, em todo o País, do Banco da Mulher, entidade criada no âmbito do Conselho da Mulher Empresária da ACRJ, conforme os preceitos do Word Women’s Bank das Nações Unidas, cuja semente plantada floresceu devido ao trabalho de membros do referido conselho, mas principalmente, devido à perseverança de Clara Steinberg, que insistia em dizer que mulheres privilegiadas como nós, que recebemos instrução pública de primeira qualidade e gratuita, tínhamos  o dever de transferir tais aprendizados a outras mulheres que não desfrutaram de nossas oportunidades. O conceito do Banco foi desenvolvido por um PhD em economia, pela Universidade do Tennessee e cidadão de Bangladesh, Muhammad Yunus, que criou o Grameen Bank e se tornou conhecido como o Banqueiro dos Pobres. tendo recebido, em conjunto com esse Banco, o Prêmio Nobel da Paz, em 2006, por tal iniciativa: a de buscar eliminar a pobreza, usando conceitos capitalistas.

Clara nascida em 15 de janeiro de 1924, faleceu em 15 de janeiro de 2015 e estaria, atualmente com 102 anos.

Suas ações continuam vivas e hão de perdurar, talvez, por séculos!

Bizarro é saber que existe uma garota americana, Clara Steinberg, sua homônima e campeã de basquetebol, com uma média de mais de 20 pontos por jogo.

Autoria

Olga Simbalista

Olga Simbalista

Bio: Engenheira eletricista e nuclear, é vice-presidente do Clube de Engenharia, membro da Academia Nacional de Engenharia - ANE.

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