Modelo vem sendo adotado no Rio, com benefícios já de curto prazo nas praias, mas não dispensa investimentos na separação total
O sistema de coleta de esgoto por separador absoluto é considerado o modelo ideal por ser totalmente independente das tubulações destinadas à circulação de águas pluviais e corpos hídricos. No entanto, uma alternativa mais econômica está sendo implementada na Região Metropolitana do Rio de Janeiro com resultados positivos de curto prazo. É o coletor em tempo seco, que capta os detritos despejados principalmente pelas residências e os dirige para emissários submarinos ou estações de tratamento. O modelo tem sido adotado pela concessionária Águas do Rio e foi apresentado pelo diretor da empresa Sinval Andrade, em palestra no Clube de Engenharia do Brasil.

A inspiração para o projeto veio da Prolagos, concessionária da Região dos Lagos controlada pelo mesmo grupo (Aegea Saneamento). Nos municípios às margens da laguna de Araruama, foi instalado um cinturão, que recolhe o esgoto das casas nos dias sem chuva e o direciona para ser tratado. Apesar de não haver ainda a separação absoluta das redes e de o corpo hídrico ainda receber detritos, esse bem natural, que já foi dado como morto, tem apresentado sinais robustos de recuperação, com melhoria na oxigenação, balneabilidade e no aumento no volume de peixes e camarões. Mesmo sendo necessária a realização de novos investimentos e de expansão da área recuperada, o projeto é muito elogiado pelos benefícios econômicos, sociais e ambientais que trouxe de imediato.

A mesma lógica vem sendo adotada na área metropolitana pela Águas do Rio, que venceu a licitação para a gestão do saneamento em abril de 2021 e começou a atuar em novembro daquele ano. Sua concessão tem prazo de 35 anos e entre os compromissos está o de investir R$ 2,7 bilhões no projeto de coletores de tempo seco. No Flamengo, por exemplo, um dos primeiros investimentos da concessionária foi a construção de uma nova estação elevatória de esgoto na Praça Cuauhtémoc, conhecida como Praça do Índio, que evita o despejo na praia do bairro, que já contava com o benefício de uma estação de tratamento no Rio Carioca.

O resultado é que a praia tem apresentado condições próprias para banho na maior parte dos fins de semana, segundo os boletins emitidos pelo Inea. Após as chuvas, não há a mesma segurança, pois o sistema precisa liberar parte da água contaminada para as galerias a fim de evitar inundações. Este ainda é um ponto muito debatido pelos especialistas e mostra que a separação absoluta não pode deixar de ser uma meta, mas o fato é que grande parte dos cariocas já está tirando proveito dessa redução da poluição. Não só a Praia do Flamengo passou a ser mais frequentada, como a de São Conrado e até a da Bica, na Ilha do Governador.
Em São Conrado, foram instalados coletores de tempo seco, modernização da elevatória e ampliação e substituição das redes internas. O esgoto é bombeado para o emissário de Ipanema e deixa de cair na praia, para alívio de banhistas. Os participantes do evento fizeram diversos questionamentos, inclusive sobre o risco de o sistema gerar inundações. No entanto, o diretor explicou que a atuação da concessionária está integrada com a Fundação Rio-Águas, da prefeitura, para evitar justamente os alagamentos e que o trabalho leva em conta a dimensão das tubulações. O fato de o esgoto que nos dias de chuva vai parar nas praias acabar sendo mais diluído reduz seu impacto e contaminação. O diretor também argumentou que os investimentos nesse sistema não representam um desperdício, pois podem funcionar com um backup no futuro com a construção de uma coleta com separação absoluta.
“É dimensionado de modo que você colete durante o período que não tem chuva os esgotos sanitários, e quando chove, o esgoto é vertido em outra concentração, um material diluído por pouco tempo, dentro de uma capacidade de regeneração e absorção desse corpo hídrico”, explicou o diretor.
Uma das novidades de engenharia que estão sendo empregadas no processo são as escavações para a instalação de troncos coletores subterrâneos em áreas já ocupadas por meio do chamado “tatuzinho”. É uma versão mini de tuneladora (Tunnel Boring Machine), que no caso de obras de metrô ganham o nome de “tatuzão”. Sua principal vantagem é que permitem que as tubulações sejam colocadas sem a necessidade de quebrar todo o solo, evitando riscos para os imóveis e reduzindo custos. No Complexo da Maré, a Águas do Rio está criando uma nova rede usando essa tecnologia, mas ainda enfrenta o desafio de fazer as conexões a partir de tubos que saem das casas e se cruzam em um vão entre elas de aproximadamente 50 centímetros. É um trabalho desempenhado pela mão de obra local, que com o tempo vai desviar esse esgoto para a estação de Alegria e retirar a poluição da Baía de Guanabara.

Além da capital, recebem obras de coleta em tempo seco os municípios de Belford Roxo, Duque de Caxias, Itaboraí, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu e São Gonçalo. Estima-se que ao final das obras, sejam coletados 4,3 mil litros por segundo, que deixam de ir para o meio ambiente, beneficiando uma população de 1,8 milhão de pessoas. O evento foi organizado pela Divisão Técnica de Recursos Hídricos e Saneamento (DRHS). O chefe da DTE, José Stelberto Porto Soares, elogiou a exposição e defendeu a continuidade das iniciativas para sua efetivação completa e para que os benefícios sociais sejam alcançados.




