Coleta de esgoto em tempo seco já traz melhorias ambientais

Coleta de esgoto em tempo seco já traz melhorias ambientais

Sinval Andrade, diretor da Águas do Rio
Coleta de esgoto em tempo seco já traz melhorias ambientais
Dutra 75 Anos

Modelo vem sendo adotado no Rio, com benefícios já de curto prazo nas praias, mas não dispensa investimentos na separação total

O sistema de coleta de esgoto por separador absoluto é considerado o modelo ideal  por ser totalmente independente das tubulações destinadas à circulação de águas pluviais e corpos hídricos. No entanto, uma alternativa mais econômica está sendo implementada na Região Metropolitana do Rio de Janeiro com resultados positivos de curto prazo. É o coletor em tempo seco, que capta os detritos despejados principalmente pelas residências e os dirige para emissários submarinos ou estações de tratamento. O modelo tem sido adotado pela concessionária Águas do Rio e foi apresentado pelo diretor da empresa Sinval Andrade, em palestra no Clube de Engenharia do Brasil.

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Sistema coletor em construção em São Gonçalo. Crédito: Divulgação

A inspiração para o projeto veio da Prolagos, concessionária da Região dos Lagos controlada pelo mesmo grupo (Aegea Saneamento). Nos municípios às margens da laguna de Araruama, foi instalado um cinturão, que recolhe o esgoto das casas nos dias sem chuva e o direciona para ser tratado. Apesar de não haver ainda a separação absoluta das redes e de o corpo hídrico ainda receber detritos, esse bem natural, que já foi dado como morto, tem apresentado sinais robustos de recuperação, com melhoria na oxigenação, balneabilidade e no aumento no volume de peixes e camarões. Mesmo sendo necessária a realização de novos investimentos e de expansão da área recuperada, o projeto é muito elogiado pelos benefícios econômicos, sociais e ambientais que trouxe de imediato.

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Área próxima à Marina da Glória com águas cristalinas

A mesma lógica vem sendo adotada na área metropolitana pela Águas do Rio, que venceu a licitação para a gestão do saneamento em abril de 2021 e começou a atuar em novembro daquele ano. Sua concessão tem prazo de 35 anos e entre os compromissos está o de investir R$ 2,7 bilhões no projeto de coletores de tempo seco. No Flamengo, por exemplo, um dos primeiros investimentos da concessionária foi a construção de uma  nova estação elevatória de esgoto na Praça Cuauhtémoc, conhecida como Praça do Índio, que evita o despejo na praia do bairro, que já contava com o benefício de uma estação de tratamento no Rio Carioca. 

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Obras ajudaram a despoluir a Praia do Flamengo. Crédito: Divulgação

O resultado é que a praia tem apresentado condições próprias para banho na maior parte dos fins de semana, segundo os boletins emitidos pelo Inea. Após as chuvas, não há a mesma segurança, pois o sistema precisa liberar parte da água contaminada para as galerias a fim de evitar inundações. Este ainda é um ponto muito debatido pelos especialistas e mostra que a separação absoluta não pode deixar de ser uma meta, mas o fato é que grande parte dos cariocas já está tirando proveito dessa redução da poluição. Não só a Praia do Flamengo  passou a ser mais frequentada, como a de São Conrado e até a da Bica, na Ilha do Governador.

Em São Conrado, foram instalados coletores de tempo seco, modernização da elevatória e ampliação e substituição das redes internas. O esgoto é bombeado para o emissário de Ipanema e deixa de cair na praia, para alívio de banhistas. Os participantes do evento fizeram diversos questionamentos, inclusive sobre o risco de o sistema gerar inundações. No entanto, o diretor explicou que a atuação da concessionária está integrada com a Fundação Rio-Águas, da prefeitura, para evitar justamente os alagamentos e que o trabalho leva em conta a dimensão das tubulações. O fato de o esgoto que nos dias de chuva vai parar nas praias acabar sendo mais diluído reduz seu impacto e contaminação. O diretor também argumentou que os investimentos nesse sistema não representam um desperdício, pois podem funcionar com um backup no futuro com a construção de uma coleta com separação absoluta.

“É dimensionado de modo que você colete durante o período que não tem chuva os esgotos sanitários, e quando chove, o esgoto é vertido em outra concentração, um material diluído por pouco tempo, dentro de uma capacidade de regeneração e absorção desse corpo hídrico”, explicou o diretor. 

Uma das novidades de engenharia que estão sendo empregadas no processo são as escavações para a instalação de troncos coletores subterrâneos em áreas já ocupadas por meio do chamado “tatuzinho”. É uma versão mini de tuneladora (Tunnel Boring Machine), que no caso de obras de metrô ganham o nome de “tatuzão”. Sua principal vantagem é que permitem que as tubulações sejam colocadas sem a necessidade de quebrar todo o solo, evitando riscos para os imóveis e reduzindo custos. No Complexo da Maré, a Águas do Rio está criando uma nova rede usando essa tecnologia, mas ainda enfrenta o desafio de fazer as conexões a partir de tubos que saem das casas e se cruzam em um vão entre elas de aproximadamente 50 centímetros. É um trabalho desempenhado pela mão de obra local, que com o tempo vai desviar esse esgoto para a estação de Alegria e retirar a poluição da Baía de Guanabara. 

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No Complexo da Maré proximidade de casas é um desafio. Crédito: Divulgação

Além da capital, recebem obras de coleta em tempo seco os municípios de Belford Roxo, Duque de Caxias, Itaboraí, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu e São Gonçalo. Estima-se que ao final das obras, sejam coletados 4,3 mil litros por segundo, que deixam de ir para o meio ambiente, beneficiando uma população de 1,8 milhão de pessoas. O evento foi organizado pela Divisão Técnica de Recursos Hídricos e Saneamento (DRHS). O chefe da DTE, José Stelberto Porto Soares, elogiou a exposição e defendeu a continuidade das iniciativas para sua efetivação completa e para que os benefícios sociais sejam alcançados.

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