Feito da Geologia e da Engenharia nacionais, Pré-Sal bate recordes

Feito da Geologia e da Engenharia nacionais, Pré-Sal bate recordes

Navio-plataforma Cidade de Angra dos Reis. Crédito: Petrobras.
Feito da Geologia e da Engenharia nacionais, Pré-Sal bate recordes
20 anos do Pré-Sal

Descoberta de região petrolífera em águas ultraprofundas completa este ano 20 anos

A produção de petróleo no Brasil bateu recorde no último mês de outubro, quando a média diária ultrapassou a marca dos 4 milhões de barris. O feito foi alcançado graças principalmente à contribuição do Pré-Sall, que já responde por mais de 80% do óleo bruto extraído no país. A pujança da indústria petrolífera brasileira é resultado de um esforço da Petrobras, que nos últimos 70 anos vem enfrentando os desafios científicos e tecnológicos para obter a extração em condições adversas, mesmo que atualmente não detenha mais o monopólio da produção. Foram passos concretizados em grande parte pela Engenharia e a Geologia nacionaís, que contribuíram para o sucesso de um setor fundamental para a economia brasileira.

Apesar de ter sido criada em 1953 pelo presidente Getúlio Vargas, a Petrobras demorou a encontrar reservas de alto potencial comercial no Brasil. Já era escasso o conhecimento científico sobre as características do subsolo do território do país, que só então abriu seus primeiros cursos de Geologia. Para atuar na estatal, foram contratados geólogos majoritariamente estrangeiros, como o estadunidense Walter Link, que liderou o incipiente departamento de exploração. Sua lógica foi apostar na ocorrência de petróleo nas bacias do Amazonas e do Paraná, onde a formação geológica se assemelharia a outras ricas no mineral no Estados Unidos. No entanto, as perfurações feitas por suas equipes nessas regiões malograram, em parte por não haver de fato a riqueza esperada e em parte por falta de dados geofísicos que pudessem orientar melhor as sondagens. O chamado “Relatório Link”, como ficaram conhecidos os documentos escritos por ele, desaconselhavam a exploração e classificava as diversas regiões por notas, sendo bastante pessimista, mesmo para lugares que no futuro apresentaram potencial, principalmente nos estados do Nordeste e a própria Amazônia.

Conforme explicou o professor e geólogo Giuseppe Bacoccoli, em seu livro “O Dia do Dragão — Ciência, arte e realidade no mundo do petróleo”, “Como pode se observar, a avaliação das treze bacias brasileiras terrestres consideradas foi, de fato, pessimista. Somente o Recôncavo recebeu a nota A e apenas a Bacia de Tucano, a nota B. Todas as demais bacias sedimentares foram avaliadas com notas C e D e, sistematicamente, as avaliações de Walter Link ficaram abaixo daquelas do DEPEX. A Bacia do Amazonas, prioritária durante seis anos, foi avaliada com notas C e D”. 

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Navio da Petrobras na Bacia de Santos. Crédito: Agência Petrobras.

Em sua defesa, o geólogo estrangeiro chegou a afirmar depois numa entrevista que já tinha apontado o potencial da plataforma continental brasileira, onde de fato vieram a ser encontradas fartas ocorrências, mas o próprio Bacoccoli, que trabalhou em sua equipe, ressaltou que o relatório no máximo falava sobre a falta de dados sobre as condições em mar para realizar previsões. Foram percalços dos estrangeiros que, por outro lado, não justificam acusações levianas de estarem conspirando contra a exploração petrolífera brasileira.

No entanto, a partir da década de 1960 a Geologia e a Engenharia brasileiras começam a avançar nos seus conhecimentos que proporcionaram a autonomia da indústria petrolífera nacional com relação aos estrangeiros e a gerar a base responsável pelo sucesso atual do Pré-Sal. Foi um processo que começou com descobertas importantes em solo firme, como já havia ocorrido no Recôncavo Baiano na década de 1940. Outras bacias no Espírito Santo e em Sergipe apresentaram poços com potencial econômico. Funcionário de carreira da Petrobrás, o geólogo Guilherme Estrella, que é conselheiro do Clube de Engenharia do Brasil, explica que as hipóteses formuladas então davam conta de uma provável existência de poços ricos em petróleo já na plataforma continental na mesma altura longitudinal dos depósitos que já tinham sido encontrados no solo, o que nem sempre se confirmou. Entretanto, o avanço sobre o mar trouxe a experiência e o conhecimento fundamentais para o futuro da exploração petrolífera, que ironicamente prosperou abundantemente na Bacia de Campos, no norte do Estado do Rio de Janeiro, onde em terra praticamente nada havia sido encontrado.

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Infográfico explica a ocorrência do petróleo em águas ultraprofundas. Fonte: Petrobras.

Um marco importante para essa nova etapa foi a descoberta do campo de Guacirema, em 1968, ainda em águas rasas. Ocorrências como essa, que passaram a entrar no mapeamento da Petrobras, ainda assim continuaram a uma distância relativamente curta da costa e a uma profundidade de até aproximadamente 300 metros da lâmina d’água. Mas foi uma etapa importante para a alocação de mais recursos em pesquisas geofísicas e no desenvolvimento de equipamentos. A tecnologia empregada e a localização das plataformas ainda permitia o emprego de mergulhadores na manutenção de dutos, por exemplo, método que precisou ser suplantado com o avanço em alto mar e a exploração de águas profundas. A descoberta no Sergipe condizia com as primeiras premissas de que o petróleo na plataforma continental estaria próximo às bacias costeiras, mas a descoberta de Garoupa, em 1974, na Bacia de Campos mudaria essa convicção. 

“A descoberta do Pré-Sal não teria ocorrido sem os conhecimentos que adquirimos sobre as chamadas rochas porosas, que foram sendo acumulados desde esse período na Bacia de Campos. Assim como o conhecimento da engenharia de produção e de perfuração desenvolvido ao longo do tempo”, conta Estrella.

A história que levou à descoberta e pujança do Pré-Sal seguiu caminhos contínuos e também contou com marcos que proporcionaram verdadeiras reviravoltas, capazes de gerar saltos na capacitação nacional. Pode ser considerada assim, a nomeação do engenheiro paulista José Paulo Silveira para a Superintendência do Cenpes (Centro de Pesquisas, Desenvolvimento e Inovação Leopoldo Américo Miguez de Mello), em 1985. Sua principal medida foi a criação do Procap 1000, programa de capacitação tecnológica para produção de petróleo em águas profundas, cujo número remete à distância entre a lâmina d’água e o fundo do mar. Depois, a cifra foi aumentando para 2000 e 3000, com maior sofisticação da tecnologia em águas últraprofundas, com maior automação da operação e manutenção. Tanto que a Petrobras ganhou diversas vezes o prestigioso OTC Distinguished Achievement Award, concedido pela Offshore Technology Conference (OTC), considerado o Nobel da indústria petrolífera. A proposta inovadora de Silveira que trouxe excelentes resultados foi a atuação conjunta dos pesquisadores do centro, localizado na Ilha do Fundão, com as equipes dos setores operacionais, trocando informações.

“A Petrobras percorreu um longo caminho até ser capaz de perfurar a camada de sal de uma espessura de 2 quilômetros, numa profundidade de mar de 2.400 metros”, destacou Estrella.

Já após a abertura do setor de Petróleo feita durante o governo Fernando Henrique Cardoso, a Petrobras ganhou a concessão para a exploração ao lado da Shell do campo de Lula, depois batizado de Tupi, na Bacia de Santos, em leilão realizado em 2000. Apesar da expertise e da tecnologia das duas empresas, a perfuração da camada de sal não obteve sucesso inicialmente, o que levou a petrolífera anglo-holandesa a desistir da empreitada. A estatal brasileira também preferiu não continuar investindo nas pesquisas, devido ao seu alto custo e à orientação política da época. Mas com a mudança de governo e a posse no primeiro mandato do presidente Lula, os investimentos em exploração da companhia foram intensificados e os primeiros indícios foram encontrados, a princípio com gás e depois houve a comprovação de depósitos em grandes quantidades em 2006. A descoberta só foi anunciada no ano seguinte, com perspectivas bastante otimistas com relação a toda a área do Pré-Sal, que se entende do Espírito Santo a Santa Catarina. Quantidade e a qualidade do gás natural da região também foram notáveis.

O anúncio gerou muita celeuma política tanto no campo doméstico quanto no exterior. Numa indústria marcada pela escassez, chamou a atenção do mundo o fato de o Brasil ter feito uma das maiores descobertas de reservas numa fase de maior maturidade da exploração. Internamente, a novidade levou a um debate sobre a necessidade de um maior controle sobre os resultados financeiros da produção, levando ao advento da Lei 12.351/2010, que instituiu o modelo de partilha, a criação de um Fundo Social e a determinação de a Petrobras ser a operadora única do Pré-Sal. Mesmo que não tenham sido completamente comprovadas, há no mundo político suspeitas de que o petróleo brasileiro e seu aproveitamento motivaram a espionagem feita por Washington contra a ex-presidente Dilma Rousseff, bem como seu posterior impeachment. O fato é que o governo que a sucedeu, de Michel Temer, tratou logo de revogar a proteção desse recurso natural finito, abrindo totalmente o mercado. 

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A própria Petrobras, que em suas encomendas no passado chegou a fazer licitações com até 65% de conteúdo nacional, deixou de direcionar seus investimentos para estimular o desenvolvimento local, atingida profundamente pela Operação Lava-Jato. É inegável que a atual gestão da companhia tem feito esforços para reverter esse quadro e elevar o percentual de conteúdo nacional em suas encomendas, principalmente de embarcações, mas ainda abaixo do patamar de anos anteriores.

A grandiosidade do Pré-Sal tem servido mais para alavancar as exportações brasileiras, entretanto, do que gerar desenvolvimento interno. Cerca da metade de sua produção está indo para fora, sem a cobrança de impostos, devido as isenções. A transferência acelerada do recurso tende a antecipar o declínio da produção, o que deixaria o Brasil novamente dependente de importações no início da próxima década, conforme vem sendo alertado pela própria Petrobras. O que pode impedir esse cenário é mais uma vez os conhecimentos geocientíficos e a habilidade da Engenharia brasileira, que agora busca em outras frentes, como a Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas, novas reservas. Por isso, nunca é tarde para que os recursos naturais brasileiros sejam usados realmente em proveito da Nação.

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