Mesa redonda “Terras raras potencial brasileiro e soberania tecnológica”

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Sambódromo do Rio

Em 27/11/25 O Clube de Engenharia e o IBEP realizaram, com a organização e coordenação da DGM e DTEQ um evento para discutir com especialistas na área a questão das terras raras no Brasil.

O evento reuniu três especialistas de instituições envolvidas com este tema de grande atualidade e importância estratégica e esta matéria resume as suas contribuições.

1 – Avaliação do Potencial de Terras Raras

Palestra proferida pelo Geólogo Marcelo Esteves Almeida

Chefe do Departamento de Geologia 

Diretoria de Geologia e Recursos Minerais do Serviço Geológico do Brasil – SGB.

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Em sua apresentação abordou depósitos e ocorrências conhecidas, reservas e tratou do potencial sob a ótica dos ambientes geológicos finalmente e discutiu os investimentos públicos e privados destinados ao setor. 

2 – Terras Raras e sua Importância

As terras raras pertencem à série dos lantanídeos, tendo destaque elementos como promécio, neodímio, itérbio e disprósio, reconhecidos pelo elevado valor de mercado e pelo interesse estratégico devido às propriedades eletrônicas, magnéticas, óticas e catalíticas. Para efeito de comparação, enquanto uma tonelada de ferro é comercializada atualmente por cerca de USD 100 por tonelada, o concentrado de monazita, com teor superior a 54%, atinge valores próximos de USD 6.000 por tonelada; produtos industrializados, como super ímãs, podem alcançar até USD 60.000, dependendo de sua qualidade. Esses números ilustram a crescente disputa geopolítica em torno das terras raras.

No Brasil, observa-se nos últimos anos um aumento significativo no número de requerimentos para pesquisa mineral desse grupo, especialmente a partir de 2020/21, com destaque para o estado da Bahia e, em particular, a região de Jequié, novo polo de exploração de ETRs. Goiás e Alto Paranaíba (divisa entre Rio de Janeiro e São Paulo) também figuram como áreas de intensa atividade. Projetos em estágio avançado enfrentam, em geral, obstáculos relativos ao licenciamento ambiental. Recentemente, soube-se das dificuldades enfrentadas pelos projetos Viridis e Mosaic, no sul de Minas Gerais. Atualmente, apenas a Mineração Serra Verde, localizada em Minaçu (GO), atingiu o estágio de projeto de mina.

O Brasil considera as terras raras minerais estratégicos, em virtude de suas aplicações tecnológicas, embora não possua uma indústria de base tecnológica suficientemente consolidada para tornar crítico o suprimento desses elementos. Em contrapartida, países como Estados Unidos e membros da União Europeia dependem desses insumos para sua indústria de ponta, motivo pelo qual realizam revisões periódicas de suas listas de minerais críticos, considerando riscos de suprimento e relevância econômica. O Plano Nacional de Mineração 2030 inspirou uma resolução ministerial em 2021, estabelecendo critérios para classificação de minerais estratégicos e críticos no Brasil. Entretanto, diferentemente da rotina adotada pela União Europeia e Estados Unidos, o Brasil ainda não divulga, de forma transparente, a metodologia utilizada nesse processo. Ressalta-se que a União Europeia publicou recentemente uma atualização de seu índice de criticidade de elementos, incluindo novos itens, demonstrando o dinamismo e a preocupação contínua dessas economias com ameaças ao suprimento ou à importância estratégica desses recursos.

3 – Depósitos e Ocorrências de Terras Raras no Brasil

Atualmente, mais de 50% dos projetos de pesquisa mineral no mundo envolvem rochas carbonatíticas ou complexos alcalino-carbonatíticos. Cerca de 21% estão relacionados a rochas alcalinas sensu strictu ou granitos de afinidade alcalina, e o restante a rochas magmáticas e hidrotermais do tipo OCG. Modelos prospectivos envolvendo argilas iônicas têm ganhado destaque devido às vantagens econômicas, ambientais e metalúrgicas, já que seu custo operacional é significativamente menor. Assim, há uma tendência crescente de projetos focados na descoberta de depósitos minerais em argilas iônicas.

4 – Potencial brasileiro

O país possui diversos depósitos conhecidos, muitos ainda classificados como recursos, com valor potencial elevado, e associados a elementos como nióbio, fosfato, tântalo e estanho. Exemplos incluem Pitinga (cassiterita, columbita-tantalita e terras raras extraídas de rejeitos) e Serra Verde (argilas iônicas), cuja produção é de 5 mil toneladas/ano, prevendo-se o dobro da capacidade até o fim da década.

A concentração de terras raras no Brasil está relacionada principalmente a ambientes de intemperismo de complexos carbonatíticos e graníticos, formando depósitos de argilas iônicas, favorecidos por condições tropicais. A Serra Verde é um exemplo desse potencial, com reservas estimadas em 5 milhões de toneladas de dióxido de terras raras e perspectiva de expansão. Os depósitos são distribuídos ao longo de lineamentos geológicos que também apresentam ocorrências de kimberlitos e diamantes. Projetos avançados estão localizados em Minas Gerais, Pitinga e Jequié, enquanto outros como as areias monazíticas do litoral da Bahia ao Rio de Janeiro seguem em desenvolvimento.

5 – Investimento Público

O investimento público tem enorme relevância para a seleção de projetos, definição de áreas de pesquisa e identificação de alvos estratégicos. O conhecimento sobre ocorrências registradas em bancos de dados é fundamental para orientar pesquisas, que dependem tanto de orçamento quanto de recursos humanos qualificados, além de políticas públicas adequadas. Para fins de comparação, foi apresentada uma tabela com países continentais de grande geodiversidade e população expressiva, incluindo o ano de fundação de seus respectivos serviços geológicos. Embora tenha considerado 1994 como referência para o Brasil, o histórico nacional remonta ao período imperial, marcado por tentativas descontínuas de estabelecimento de um serviço geológico, culminando em aproximadamente 60 anos de atividade interrompida. Diferentemente de Estados Unidos e China, cujos serviços são centenários, observa-se no Brasil a ausência de continuidade política, refletindo um desequilíbrio estrutural.

É importante salientar que muitos desses dados são extraoficiais, porém evidenciam a disparidade quantitativa de profissionais atuantes nos serviços geológicos. No Brasil, o Serviço Geológico do Brasil conta com cerca de 500 pesquisadores, número significativamente inferior ao quadro de Índia, China e Estados Unidos, que dispõem de contingentes na ordem de 10.000 a 14.000 funcionários, sendo aproximadamente 5.000 pesquisadores. Países como Austrália e Canadá, mesmo com menor número de profissionais, beneficiam-se da forte atuação complementar dos serviços geológicos estaduais, que trabalham em parceria com órgãos nacionais, otimizando recursos humanos e financeiros.

No tocante ao orçamento, a discrepância é ainda mais acentuada. O Serviço Geológico da China, por exemplo, recebe aportes que ultrapassam US$ 2,7 bilhões, provenientes de investimentos federais e provinciais, enquanto os recursos destinados ao Brasil giram em torno de US$ 20 milhões. Considerando apenas o mapeamento geológico, incluindo esforços recentes de reestruturação de órgãos como o DRM, os recursos não alcançam US$ 10 milhões anuais, valor que já representou patamares inferiores em anos anteriores. Diante desse cenário, o Brasil posiciona-se distante dos principais investidores em dados geocientíficos e informações pré-competitivas – grupo liderado por Estados Unidos, China, Austrália e Canadá. Mesmo ao considerar no SGB somente a equipe dedicada ao mapeamento geológico, formada por aproximadamente 80 profissionais, o desafio brasileiro equivale a atribuir, proporcionalmente, áreas continentais comparáveis ao território de Portugal para cada geólogo mapear, ilustrando a magnitude das demandas enfrentadas.

6 – Investimento Privado

Atualmente, o custo para descobrir um novo depósito mineral aumentou significativamente nas últimas duas décadas, tendo triplicado em muitos casos. Utilizando como exemplo os depósitos de cobre, zinco, chumbo e níquel, observa-se a necessidade crescente de aprofundamento na exploração, exigindo investimentos cada vez maiores em tecnologia. Embora ainda seja possível identificar depósitos de classe mundial com menor esforço e investimento em regiões como Brasil, África Subsaariana e algumas áreas da Ásia, a tendência geral é um aumento tanto do custo quanto do risco associado aos investimentos. A competição por recursos financeiros privados entre países também se intensificou.

Os dados do último ano revelam que Canadá, Estados Unidos e Austrália detêm aproximadamente 30% a 35% do orçamento internacional destinado à exploração mineral, fase anterior à descoberta de depósitos, enquanto o Chile recebeu 8% (US$ 1 bilhão), a Argentina 3% (US$ 40 milhões) e o Brasil apenas 2% (US$ 300 milhões). Esse cenário impacta diretamente o índice de conhecimento geocientífico nacional, pois o baixo nível de investimento público e privado, aliado à limitada disponibilidade de profissionais, resulta em uma distribuição heterogênea deste conhecimento no Brasil, gerando grande assimetria.

Diversos critérios foram utilizados para avaliar esse panorama, incluindo cartografia geológica, levantamentos geofísicos e geoquímicos (dados pré-competitivos relevantes ao planejamento exploratório dos investidores), mapas de integração geológica e geofísica de escala regional e projetos temáticos de recursos minerais. Essa metodologia possibilitou observar que até mesmo províncias minerais consideradas maduras ou produtoras, como Carajás e Tapajós, apresentam baixo nível de conhecimento geológico — sendo o Quadrilátero Ferrífero a exceção, devido à maior densidade informacional. Portanto, é fundamental reconhecer esse cenário e promover avanços na geração e disseminação do conhecimento geocientífico brasileiro.

7 – Projetos de Terras Raras no Brasil

SGB desenvolve projetos de pesquisa em terras raras desde os anos 90, com fases I (2011-2022) e II (2023-2033), focando em correções e avanços técnicos. Os projetos incluem estudos em depósitos conhecidos e perfis geológicos, com corpo técnico qualificado (70% MSc/DSc). A pesquisa sistemática visou ampliar o conhecimento e a exploração sustentável dos recursos de terras raras no Brasil. Destaca-se áreas como Seis Lagos (foco acadêmico em carbonatitos), Serra do Repartimento (identificação de elementos associados a rochas alcalinas) e a suíte Ouro Fino (prospectiva por geoquímica e geofísica). A segunda fase incluiu estudos em Serra Dourada, utilizando mapas de favorabilidade e métodos modernos para identificar novos potenciais depósitos.

8 – Considerações Finais 

Apesar da tradição e qualificação técnica do Brasil em pesquisa mineral, o setor enfrenta desafios, principalmente falta de investimento e políticas públicas claras sobre minerais estratégicos. O país possui amplo potencial geológico, mas carece de coordenação entre órgãos e definição de prioridades para transformar conhecimento científico em desenvolvimento econômico. É fundamental alinhar políticas de mapeamento, regulação e inteligência mineral para ampliar reservas e competitividade no mercado internacional. É necessária maior inteligência mineral para definir cenários e tendências, além de ampliar pesquisa mineral, PI&D e conhecimento geocientífico sistemático para superar desvantagens competitivas

9 – Terras Raras: Potencial Brasileiro e Soberania Tecnológica

Uma análise estratégica sobre o papel do Brasil na cadeia global de elementos de terras raras e os caminhos para a independência tecnológica nacional

Palestra proferida por DSc.Ysrael Marrero Vera 

Pesquisador no Centro de Tecnologia Mineral (CETEM), integrante do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação

Com mais de 12 anos de experiência como pesquisador no processamento de terras raras Ysrael Marrero Vera compartilhou sua vivência na área de grande relevância para o cenário tecnológico e econômico do Brasil especialmente no processo de separação desses elementos, considerado um dos principais gargalos tecnológicos da cadeia produtiva. A separação das terras raras é estratégica, pois envolve conhecimento técnico-científico, muitas vezes guardado como segredo por países líderes no setor. O desenvolvimento desse domínio é fundamental para a soberania tecnológica nacional.

10 – Importância das Terras Raras e Aplicações

As terras raras possuem um papel essencial nas indústrias de alta tecnologia, particularmente na transição energética, que é foco mundial. Sua principal aplicação está na fabricação de ímãs utilizados em aerogeradores e motores elétricos, sendo esses ímãs os mais potentes disponíveis, viabilizando também a miniaturização de motores devido à sua força magnética. Apesar de não serem tão escassas quanto se imagina, depósitos com concentrações economicamente aproveitáveis são menos comuns, e sua extração e separação demanda processos complexos. O interesse por terras raras também motiva disputas econômicas globais, especialmente entre Estados Unidos e China, devido ao uso estratégico em defesa e armamentos.

11 – Produção, Reservas e Processamento Mundial

O Brasil figura como o segundo maior detentor de potenciais reservas de terras raras, ficando atrás apenas da China, porém apresenta uma produção bastante limitada. A China lidera tanto na produção quanto no processamento, sendo responsável por cerca de 85% do refino global desses elementos. Austrália e Estônia contribuem marginalmente. Quando se trata da fabricação de ímãs, a China domina aproximadamente 90% do mercado mundial, consolidando seu protagonismo na cadeia produtiva.

12 – Principais Aplicações no Brasil

No Brasil, a aplicação mais relevante das terras raras é na produção de ímãs, representando cerca de 45% do uso. Em seguida, destaca-se a produção de catalisadores para a indústria do petróleo, setor crucial para a economia nacional. A escassez de terras raras, agravada pelas cotas de exportação impostas pela China em 2012, impactou diretamente a produção de catalisadores utilizados pela Petrobras, evidenciando a dependência tecnológica do país.

13 – Elementos-Chave das Terras Raras

Segundo estudo canadense de 2023, o neodímio é o elemento de maior demanda (33%), seguido por cério (32%), lantânio (20%), praseodímio (7%) e ítrio (3%). Elementos pesados como disprósio e itérbio são fundamentais para garantir a estabilidade magnética dos ímãs em temperaturas elevadas. Os ímãs de terras raras típicos contêm entre 25% e 30% de neodímio/praseodímio, cerca de 3% de disprósio/itérbio, sendo o restante composto por ferro e boro.

14 – Comparativo de Produção e Impacto Econômico

Em 2025, a produção mundial de terras raras foi de aproximadamente 390.000 toneladas, enquanto o cobre, por exemplo, atingiu 26 milhões de toneladas. Embora o volume seja muito menor, o valor de mercado das terras raras é significativo devido à sua importância tecnológica e complexidade de obtenção, conferindo-lhes peso estratégico.

15 – Reservas e Projetos Brasileiros

O Brasil possui reservas distribuídas em diferentes regiões, com destaque em 2024 para 28 projetos de pesquisa mineral voltados para argilas iônicas, evidenciando o potencial exploratório nacional. Seis empresas lideram os projetos mais avançados, destacando-se:

  • CBMM no município de Araxá/MG: Desenvolveu uma unidade semi-industrial e planta piloto para separação e metalização, mas abandonou o projeto por inviabilidade econômica já que o processo era muito caro, não era competitivo, e a voltou a focar no nióbio
  • Serra Verde Pesquisa e Mineração no município de Minaçu/Go: Já em operação comercial, prevê produção de 5.000 toneladas anuais de óxidos de terras raras, exportando para China e possivelmente Estados Unidos. É hoje o único produtor comercial de terras raras de argilas iônicas fora da Ásia. Não há planos de plantas de separação no Brasil.
  • Aclara Resources no município Nova Roma /Go: Projeto Carina e Penco. Empresa chileno-canadense com projeto Carina em Goiás, e Penco no Chile. Ainda sem produção comercial, operando planta piloto e planejando uma unidade de separação de terras raras pesadas nos EUA, alimentada por produção brasileira e chilena.
  • Meteoric Resources no município de Poços de Caldas /MG: Projeto Caldeira, empresa australiana, opera planta piloto de argilas iônicas em Minas Gerais e prevê exportação do concentrado para China e EUA. Enfrenta entraves ambientais para licenciamento.
  • Viridis Mining & Minerals no município de Poços de Caldas/MG: Também australiana, projeto Colossus em Minas Gerais, com apoio de bancos canadenses e franceses. O projeto ganhou peso estratégico ao receber carta de interesse para investir US 100 mi da Export Development Canadá além do apoio de BpiFrance e BNDES/FINEP. Mas sem previsão de separação nacional
  • Brazilian Rare Earth municípios de Monte Alto e Sulista /BA: com licença para planta piloto e laboratório e planos explícitos para instalar refinaria de separação focada em neodímio e praseodímio no Brasil, em Camaçari, em parceria com a francesa Carester.

16 – Cadeia Produtiva de Ímãs de Terras Raras

A cadeia produtiva de ímãs de terras raras envolve etapas complexas e inovadoras, essenciais para consolidar uma cadeia nacional competitiva e autônoma. São cerca de oito passos, desde a lavra ambientalmente responsável, caracterização tecnológica, processamento mineral, hidrometalurgia (lixiviação e purificação), separação dos elementos, redução para metais, produção de ligas, moagem, prensagem/sinterização e magnetização final. Instituições públicas e universidades federais atuam em diferentes fases, destacando-se o CETEM, USP, IPT, CDTN, CIT SENAI e Universidade Federal de Santa Catarina.

17 – Desafios na Separação e Produção de Metais

A etapa de separação é considerada o maior desafio tecnológico, exigindo estratégias químicas e conhecimento de engenharia para separar os elementos em soluções complexas. A técnica de extração com solvente predomina, com domínio chinês desde os anos 1970/80, ocasionando perda de conhecimento em outros países, inclusive no Brasil, que já teve produção local.

Após separação, é necessário reduzir os óxidos a metais, como praseodímio e neodímio, para produzir as ligas de ímãs. O processo requer controle preciso de composição, resfriamento rápido (strip casting), moagem e prensagem da liga, recobrimento para proteção e magnetização final dos ímãs.

18 – Projetos de Pesquisa no Brasil

Ao longo dos anos, diversos projetos em rede, envolvendo múltiplas instituições, têm impulsionado o desenvolvimento da cadeia produtiva de ímãs de terras raras:

  • PROTERRARAS (2013- 2017): Retomada das pesquisas em metalurgia de terras raras no Brasil, via CETEM e edital do CTMineral/CNPq.
  • INCT Pátria (2017-2023): Estruturação do conhecimento tecnológico desde a mineração até aplicações industriais, com foco em Nd-Fe-B, liderado por USP/IPT.
  • Regina I (2017-2020): Cooperação Brasil-Alemanha (UFSC, HZDR) para desenvolver rotas sustentáveis de óxidos de terras raras de minério de Araxá, integrando-os à cadeia de ímãs e avaliar modelos de negócio.
  • Regina II (a partir de 2024): Continuidade do Regina, projeto em rede (IPT, UFPR, CETEM, CDTN, UFSC, USP) focando em processos e produtos sustentáveis ao longo da cadeia de ETR. Coordenado pela UFSC e financiado pela FINEP.
  • INCT MATÉRIA (2025): Projeto com cerca de 15 instituições, coordenado pela UFAM. Este INCT visa a extração sustentável, desenvolvimento de cerâmicas complexas e ímãs de alto desempenho, incluindo refino e reciclagem. Focado na cadeia produtiva nacional.
  • MAGBRÁS (2025): Iniciativa SENAI/Fundep/ Programa MOVER para demonstrar o ciclo industrial brasileiro completo de ímã de terras raras, desde a pesquisa mineral até a produção, aplicação e reciclagem de ETR críticos. Resgata o CIT-ITR SENAI laboratório-fábrica de ímãs de ETR.

19 – Resultados de Pesquisa e Progresso Tecnológico

Os projetos brasileiros alcançaram avanços relevantes:

  • Separação bem-sucedida de elementos em mini plantas piloto, incluindo a patente do processo de separação de lantânio, praseodímio e neodímio pelo CETEM em 2022.
  • Domínio da redução eletroquímica de óxidos a metais e produção de ligas Nd-Pr-Fe-B em escala de bancada e piloto pelo IPT, com apoio da Poli-USP, IPEN e IQ-USP, com financiamento de EMPRAPII, CBMM, BNDES e WEG, viabilizando a fabricação de super ímãs.
  • Desenvolvimento de métodos analíticos para controle fino da composição dos ímãs.
  • A partir de 2016 o IPT passou a produzir, em escala de bancada, ligas metálicas à base de Nd e Pr (com Fe e B), adequadas para super ímãs.
  • Laboratório MAGMA da UFSC domina todas as etapas laboratoriais de fabricação e caracterização de ímãs, atingindo marcas de produção energética próximas ao alvo industrial. Esses ímãs vêm sendo testados em pequenos motores e aplicações de menor porte.
  • CIT SENAI ITR domina em escala piloto o ciclo de produção de ímãs permanente de Nd-Fe-B e já domina 60-70% do processo em nível semi-industrial, com capacidade instalada de 100 toneladas/ano, embora na prática opere abaixo deste nível por ser um centro de pesquisa.
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Crédito: Creative Commons

20 – Considerações Finais e Perspectivas

As terras raras são insumos estratégicos para a transição energética e digital, com mercado de alto valor e difícil substituição, que lhes confere grande peso geopolítico. O Brasil reúne condições únicas: reservas abundantes, projetos em diferentes estágios, capacidade científica e industrial. O desafio central é consolidar uma cadeia produtiva completa, avançando da exportação de concentrados para a produção nacional de metais, ligas e ímãs, com padrões elevados de sustentabilidade social e ambiental. Políticas públicas consistentes, financiamento, compras governamentais, infraestrutura e formação de recursos humanos serão decisivos para transformar o potencial em soberania tecnológica e produtiva. A articulação efetiva entre Estado, empresas e instituições de ciência, tecnologia e inovação em programas estruturantes é o caminho para capturar valor no Brasil, tornando as terras raras um vetor de inovação e protagonismo tecnológico nacional.

III. Uma análise crítica do potencial brasileiro – Desafios e Perspectivas da Mineração de Terras Raras no Brasil

Prof. Atlas Vasconcelos Corrêa Neto

Departamento de Geologia UFRJ

Na sua intervenção o Prof. Atlas avançou em pontos que considerou cruciais e ainda pouco esclarecidos.

21 – Confiabilidade das Informações Veiculadas pela Mídia

O primeiro deles refere-se à confiabilidade das informações divulgadas na mídia sobre terras raras, potencial mineral do país, seus recursos e reservas. A resposta direta é que essas informações, em sua maioria, não são confiáveis. Muitas vezes, a mídia apresenta as terras raras como uma solução grandiosa para o Brasil, destacando reservas supostamente entre as maiores do mundo. Entretanto, é fundamental compreender o contexto do termo “reserva”. No âmbito mineral, reserva significa um depósito onde já foi comprovada a viabilidade econômica de exploração. Na maioria dos casos, o que temos são apenas indícios ou, no máximo, depósitos sem comprovação econômica. Chamar essas ocorrências de reservas é incorreto, pois falta investimento em sondagem, capacitação e qualificação para tal.

De acordo com especialistas do Serviço Geológico do Brasil (SGB), o Brasil apresenta sim um potencial geológico relevante, mas nosso conhecimento ainda é insuficiente. O aprofundamento desse conhecimento é essencial para atrair investimentos: quanto mais compreendermos nossa geologia, melhores serão as oportunidades de análise e decisão para investidores. Sem um diagnóstico geológico sólido e preciso, as empresas não se sentirão seguras para investir no país, independentemente de modelos econômicos ou de políticas isoladas.

22 – Necessidade de Estratégia de Longo Prazo

Apesar dos esforços históricos, desde o Brasil Império até a existência da CPRM, agora com atribuições de serviço geológico, não foi possível alcançar um nível de conhecimento geológico nacional capaz de garantir um ambiente seguro para investimentos. O país precisa de uma estratégia de longo prazo, estável e voltada para a geração de conhecimento geológico, o que se aplica também a outras áreas. Essas estratégias, no entanto, devem ser preditivas, não reativas. O caso das terras raras ilustra um erro recorrente nas políticas minerais nacionais: estamos sempre reagindo, e de forma tardia, em vez de prever as demandas e tendências do setor.

23 – Processo de Licenciamento Mineral

O processo de licenciamento para uma lavra mineral não é simples nem rápido. Ele envolve estudos prévios, aprovação de projetos de pesquisa mineral, e, mesmo na melhor das hipóteses, leva no mínimo seis anos para que o primeiro minério seja extraído, caso tudo ocorra conforme o planejado. Isso dificulta a previsão do cenário do mercado ao final desse período, tornando o setor ainda mais vulnerável às oscilações e mudanças globais.

24 – Desafios de Competitividade Internacional

O mercado internacional de terras raras é altamente competitivo. Além de países como Ucrânia, o destaque vai para a Austrália, que já firmou acordos bilionários com os Estados Unidos para o refino de terras raras, colocando-se muito à frente do Brasil. Enquanto isso, o Brasil insiste em exportar concentrados minerais, mantendo-se vulnerável às oscilações do mercado e ao surgimento de concorrentes com custos logísticos menores e processos mais integrados.

A verticalização da produção, ou seja, o domínio de toda a cadeia produtiva, da extração ao refino, é fundamental para reduzir essa vulnerabilidade. Exemplos de países como China e Canadá mostram que o sucesso vem do planejamento de longo prazo, com políticas industriais e tecnológicas alinhadas às necessidades do setor mineral, apoiadas por investimento estatal e estratégias consolidadas ao longo de décadas.

25 – Importância do Conhecimento Geológico e da Formação de Quadros Técnicos

Apesar de o Brasil contar com profissionais capacitados e um parque tecnológico funcional, falta uma política contínua e robusta de investimento em ciência, tecnologia e geração de conhecimento geológico. O volume de recursos investidos é insuficiente diante da demanda por pesquisas e manutenção de infraestrutura laboratorial. Sem políticas estáveis de longo prazo, o país tende a repetir fracassos passados e continuar sendo visto como “o país do futuro” — um futuro que nunca chega.

O conhecimento da gênese dos depósitos minerais e a elaboração de mapas geológicos detalhados, como o apresentado pelo SGB, são ferramentas fundamentais. Entretanto, ainda estamos atrás de países que começaram a desenvolver esse conhecimento muito antes, como Canadá e Austrália, o que explica, em parte, a preferência de investidores por esses mercados.

26 – Conclusão: Perspectiva Realista para o Brasil

Em síntese, o Brasil precisa mudar sua postura frente ao setor de terras raras e mineração em geral. É necessário investir de maneira consistente e planejada, estruturando políticas que perdurem por décadas e proporcionem segurança ao investidor. Sem essa mudança, dificilmente o país conseguirá superar os desafios e assumir posição de destaque mundial, permanecendo refém de políticas reativas e investimentos insuficientes. Embora a visão apresentada possa soar pessimista, ela reflete uma análise realista do cenário atual e a urgência de uma transformação estrutural.

27 – Conclusão das apresentações

As terras raras assumiram papel central na agenda internacional contemporânea em razão de sua relevância para a transição energética, a digitalização da economia e aplicações sensíveis nos setores de defesa, infraestrutura crítica e indústria de alta tecnologia. A elevada concentração da produção, do processamento e da fabricação de bens intermediários e finais confere a esses elementos caráter estratégico, com implicações diretas para a segurança econômica e tecnológica dos Estados.

O Brasil dispõe de ativos geológicos relevantes, associados a diferentes ambientes mineralógicos, com destaque para depósitos de argilas iônicas favorecidos por condições tropicais. Tal potencial confere ao país posição de interesse no debate internacional sobre segurança de suprimentos e reconfiguração das cadeias globais de valor, especialmente no momento em que parceiros estratégicos buscam ampliar o número de fornecedores confiáveis e ambientalmente responsáveis.

Não obstante, o potencial brasileiro ainda não se traduz plenamente em capacidade de influência geopolítica. A participação nacional permanece concentrada, em grande medida, nas etapas iniciais da cadeia produtiva, com projetos voltados à exportação de concentrados e óxidos para processamento no exterior. Essa inserção limita a captura de valor, restringe a autonomia tecnológica e reduz o espaço de manobra do país em negociações estratégicas internacionais.

Do ponto de vista geopolítico, a etapa de separação e refino constitui o principal ponto de controle da cadeia de terras raras, concentrando conhecimento sensível, capital intensivo e capacidade de definir fluxos comerciais. A ausência de instalações industriais em escala comercial no território nacional mantém o Brasil dependente de decisões externas e exposto a eventuais restrições de mercado, como já observado em episódios anteriores que impactaram setores industriais estratégicos.

O Brasil conta, entretanto, com capacidade científica e tecnológica que pode sustentar uma estratégia soberana, fruto da atuação de instituições públicas de pesquisa, universidades e centros tecnológicos que dominam, em escala piloto e préindustrial, etapas críticas da cadeia, incluindo separação, metalização e fabricação de ímãs permanentes. Esses ativos constituem base relevante para o fortalecimento da autonomia tecnológica e para a construção de parcerias internacionais de maior densidade estratégica.

Sob a ótica da política externa, as terras raras representam oportunidade para o Brasil qualificar sua inserção internacional, ampliando o diálogo com parceiros estratégicos, atraindo investimentos produtivos, promovendo cooperação científicotecnológica e contribuindo para cadeias globais mais diversificadas e sustentáveis. Tal abordagem é coerente com a tradição diplomática brasileira de defesa do multilateralismo, da previsibilidade das relações econômicas e do uso estratégico de seus recursos naturais em favor do desenvolvimento nacional.

Em síntese, o desafio brasileiro consiste em converter potencial geológico em instrumento de política externa e de segurança econômica, por meio de coordenação entre políticas mineral, industrial, científica e diplomática. A consolidação de uma cadeia produtiva mais integrada permitirá ao Brasil transcender o papel de fornecedor de insumos primários e afirmarse como ator relevante na governança internacional de minerais críticos, reforçando sua autonomia estratégica e seu protagonismo no cenário global.

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