Microrreatores nucleares: a corrida silenciosa das potências, ou energia portátil como novo vetor de poder militar

Microrreatores nucleares: a corrida silenciosa das potências, ou energia portátil como novo vetor de poder militar

Reator de pesquisa Argonauta, no Rio de Janeiro, onde será instalado o microrreator brasileiro . Crédito: Acervo IEN
Microrreatores nucleares: a corrida silenciosa das potências, ou energia portátil como novo vetor de poder militar
20 anos do Pré-Sal

Por Olga C. R. L. Simbalista

Nos anos de 1950 e 1960, o programa de energia nuclear norte americano construiu e operou reatores compactos de 2 a 10 MW para alimentar de forma confiável e sem dependência de logística de combustível para locais de difícil acesso. O programa produziu máquinas confiáveis e uma experiência real em locais como geleiras na Groenlândia, uma base de pesquisas na Antártica e locais remotos no continente como o Alasca, mas que com o tempo foram substituídos por unidades a diesel, mais simples.

Atualmente, o Projeto Pele. De um reator de alta temperatura, desenvolvido pelo Exército é um projeto de interesse somente estratégico. Já o Projeto Janus, que se encontra em fase de licitação, faz parte de uma política industrial, que busca vendedores privados para, com recursos federais, projetar, construir, licenciar e operar o primeiro de uma série de microrreatores para fornecer eletricidade para instalações do Exército a preços de mercado. O Exército funciona como uma âncora, financiando riscos técnicos e regulatórios e deverá transportar, também, orbitais comerciais, com financiamento da NASA desde os anos 2000.

O Projeto norte-americano Pele não é um caso isolado. Discretamente, grandes potências militares também avançam no desenvolvimento de microrreatores nucleares para garantir autonomia energética em bases remotas e operações avançadas.

No Reino Unido, a Rolls Royce desenvolve o Small Modular Reactors – SMR e conceitos de reatores compactos e, embora com foco civil, esses sistemas são vistos como dual-use, com potencial para aplicação estratégica e militar.

Na França, o Commissariat à l”Énergie Atomique – CEA e o ecossistema nuclear francês estudam reatores compactos e móveis para defesa de territórios ultramarinos, explorando a forte expertise do país em segurança nuclear e miniaturização.

A Rússia possui a experiência mais longa com reatores nucleares móveis e flutuantes, incluindo aplicações no Ártico. A lógica é clara: energia contínua para regiões isoladas e ambientes extremos, com fortes valores estratégicos.

A China investe em microrreatores para áreas remotas, ilhas artificiais e bases avançadas. Embora menos transparente, o esforço chinês indica busca por auto suficiência energética militar em cenários contestados.

O Brasil, com capacidades técnicas nucleares relevantes, desafios territoriais singulares e vastas áreas remotas, já iniciou a fase de pesquisa e desenvolvimento em microrreatores nucleares, envolvendo a Marinha. O foco inicial é atender áreas isoladas e reduzir a dependência de combustíveis fósseis, com potenciais implicações estratégicas para logística, presença estatal e soberania territorial.

O padrão é inequívoco: energia nuclear portátil está se tornando um multiplicador estratégico, reduzindo vulnerabilidades e ampliando a liberdade de ação militar.

( Fonte Parcial: Tomorrow Forces)

Autoria

Olga Simbalista

Olga Simbalista

Bio: Engenheira eletricista e nuclear, é vice-presidente do Clube de Engenharia, faz parte da Diretoria da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN), do Instituto Ilumina e do Board da American Nuclear Society.

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