Geólogo Guilherme Estrella teve trajetória ímpar na geofísica do petróleo e atribui à ciência os feitos de que participou
O geólogo Guilherme de Oliveira Estrella conquistou o mérito de ter comandado a estratégica Diretoria de Exploração e Produção da Petrobras no período em que a companhia descobriu o Pré-Sal, feito que completa duas décadas este ano. Para muitos, foi sinal de sorte. Mas na verdade sua participação nesse momento histórico não foi mera coincidência do acaso ou coisa de afortunado. Desde as primeiras pesquisas feitas pela empresa no território marítimo brasileiro, ele esteve presente, acumulando conhecimentos que foram cruciais para conduzir o setor e obter tamanho êxito.
Conforme contou em seu depoimento ao projeto Memória Oral, do Clube de Engenharia do Brasil, quase cursou Engenharia, e chegou até a frequentar um pré-vestibular preparatório para a Escola Politécnica, mas foi tentado a se candidatar a uma vaga na Geologia por influência de um professor. Estudava no Ginásio Municipal Prefeito Mendes de Moraes, na Ilha do Governador, onde era professor e diretor o cientista José Lacerda de Araújo Feio, que também pertencia ao Museu Nacional. É que, ao contrário de outras universidades, no Rio de Janeiro, a então Universidade do Brasil não aprovou a criação de um curso de graduação independente de Geologia. O Conselho Universitário queria vincular essa área do conhecimento à Engenharia, o que não foi aceito pelo Ministério da Educação. Por isso, surge em 1958 a Escola Nacional de Geologia, vinculada ao Museu, onde Estrella passaria a estudar em 1961.
Assim que se formou, prestou concurso para a Petrobras e ironicamente ficou em 32º lugar num certame para 30 vagas. Foram as desistências de cariocas que não queriam se mudar da cidade que fizeram com que ele fosse chamado para ingressar na estatal para trabalhar na Bahia. Atuou a partir de 1965 em perfurações no Recôncavo. Mas sua vontade de conhecer cada vez mais sobre o território brasileiro e sua dedicação ao trabalho o levaram a percorrer outros estados. Foi selecionado para compor um seleto grupo de seis geólogos que iriam iniciar um levantamento na plataforma continental em águas rasas. Foi o início de décadas de estudos e análises, cujo processo acumulativo de informações e conclusões acabou levando à descoberta do Pré-Sal. Isso porque foi de vital importância o conhecimento sobre a composição e o histórico das rochas que formam o fundo do mar, sobretudo as geradoras de petróleo, e a camada de sal. Pela avaliação da idade de cada camada, foi ganhando força a ideia de que a espessa faixa de sal era de formação mais nova, frente às rochas porosas que se escondiam debaixo dela. Daí, a grande possibilidade de se encontrar matéria orgânica no fundo dessa camada impermeável.

“O presidente Lula e a presidenta Dilma disseram que o Pré-Sal foi o bilhete de loteria que nós ganhamos. Pera lá, não é bilhete de loteria. Sorte é na Mega Sena. Tem toda uma história de estudos geocientíficos e não é sorte do Estrella”, contou o geólogo.
Sorte nunca faltou a Estrella, mas como diz um velho ditado “Sorte é o que acontece quando a preparação encontra a oportunidade”, e preparação e empenho sempre lhe sobraram. Não é à toa que se destacou tanto em todos os projetos do qual participou, atuando ativamente nas descobertas dos campos de Miranga e Fazenda da Onça, na bacia do Recôncavo Baiano.
Também acompanhou as pesquisas na Bacia do Espírito Santo (1965-1972) e exerceu a função de Geólogo de Interpretação de Bacias Sedimentares de Sergipe e de Alagoas (1972-1974). Entre 1974 e 1976, foi responsável pela Avaliação Geológica de contratos de exploração da Petrobras.
É também um feito seu a descoberta do campo de Majnoon, no Iraque, na segunda metade da década de 1970, quando atuou pela subsidiária Braspetro no país do Oriente Médio. Foi a maior descoberta da história desse braço internacional da Petrobras e revelou reservas de mais de 10 bilhões de barris.
Estrella voltou para o Brasil em 1978, com a mesma obstinação pelo trabalho e pelo desenvolvimento do país de sempre. Atuou nessa época na identificação dos dados prospectados para a exploração das bacias da chamada Costa Leste do território marítimo. Nos anos 1980, passou a chefiar o Laboratório de Geooquímica Orgânica do Cenpes, e colaborou em muito com a consolidação desse centro de pesquisas. Nesse órgão, participou da criação de uma biblioteca, de laboratórios, bem como da construção do primeiro robô brasileiro de inspeção submarina, o Tatuí.

Depois de alguns anos afastado da Petrobras, retornou em 2003 como diretor de Exploração e Produção, cargo que ocupou até 2012. Nessa fase, além da descoberta do Pré-Sal, contribuiu para a elaboração do novo marco regulatório do petróleo, que criou o regime de partilha, pelo qual a União mantinha seus direitos de propriedade sobre o mineral extraído pela empresas.
Entre as diversas homenagens que recebeu ao longo da carreira, estão títulos como o de Dr. Honoris Causa pela Universidade do Porto, em Portugal em 2009 e pela Universidade Federal de Ouro Preto (MG), em 2010. Também publicou trabalhos de excelente qualidade acadêmica para a Geologia do Brasil, entre eles o artigo “O estágio rift nas bacias marginais do Leste brasileiro”, que é uma referência para pesquisadores, professores e estudantes.
Por tantas contribuições ao país, a opinião pública brasileira recebeu com satisfação a notícia da decisão unânime dos ministros do Tribunal de Contas da União (TCU) de anulação de multa aplicada arbitrariamente contra ele, em outubro do ano passado. Foi reconhecida sua atuação com boa-fé, rigor técnico e compromisso com o interesse público, em contratos para sondas do pré-sal, apesar das acusações infundadas, que foram práticas comuns no âmbito do chamado lavajatismo.
Torcedor apaixonado pelo Botafogo, Estrella não abandona nunca sua obstinação e sua dedicação ao país. Não se cansa de dar palestras em que defende causas nacionalistas, sempre fiel à valorização do povo brasileiro, do potencial de desenvolvimento do país e à necessidade de se construir uma pátria mais justa. Nunca abandona o princípio de que o petróleo e a energia devem servir em benefício de todos, não lhe faltando razão.




