O Clube de Engenharia do Brasil realizou nesta quarta-feira (21) o Ato em Defesa da Democracia, em apoio à soberania e às garantias democráticas no país. . Participam da organização do evento histórico, que precede o segundo turno das eleições presidenciais, outras organizações como a Federação Interestadual de Sindicatos de Engenheiros (Fisenge), o Sindicato dos Engenheiros no Estado do Rio de Janeiro (SENGE RJ) e o Instituto Brasileiro de Estudos Políticos (IBEP). O encontro reuniu representantes da ciência, da cultura, do meio jurídico, do movimento estudantil e de diversas entidades da sociedade civil.
Na abertura, Nísia Trindade, ex-ministra da Saúde, destacou a importância de fortalecer a ciência e a tecnologia como pilares do desenvolvimento nacional. Ela mencionou a carta assinada por mais de 15 mil cientistas em defesa de um projeto de país inclusivo, comprometido com a soberania e a justiça social, e um manifesto de Alexandre Padilha e ex-ministros da Saúde pela consolidação do Sistema Único de Saúde (SUS). Também ressaltou a necessidade de retomar o complexo econômico-industrial da saúde, articulando pesquisa científica, produção nacional e autonomia tecnológica.
O jurista Sérgio Santana, da Associação Brasileira de Juristas pela Democracia (ABJD), alertou para os riscos de retrocessos institucionais e sociais, defendendo a mobilização permanente das entidades democráticas diante de um Congresso Nacional que considera majoritariamente alinhado à extrema direita. A ex-ministra da Cultura Ana de Hollanda enfatizou o papel do Clube de Engenharia como espaço de resistência intelectual e defendeu maior participação de artistas, intelectuais e estudantes na conscientização política da sociedade. Já Bete Mendes, atriz e ex-parlamentar, levou uma Constituição brasileira ao encontro para simbolizar a defesa das liberdades, da educação pública, da saúde, da cultura e da soberania nacional. Em sua intervenção, criticou os ataques às instituições democráticas e defendeu a continuidade de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento e à inclusão social.
A questão da soberania energética foi central na fala do geólogo Guilherme Estrella, reconhecido por sua atuação na descoberta do pré-sal. Ex-diretor da Petrobras, ele argumentou que a autossuficiência em petróleo e gás é fundamental para a independência econômica do Brasil e criticou as privatizações e as mudanças regulatórias que, em sua avaliação, reduziram a capacidade de decisão do Estado sobre o setor energético.
Outros participantes, como Agostinho Guerreiro, ex-presidente do Clube, também relacionaram a história política brasileira às disputas em torno do petróleo, da industrialização e da autonomia nacional. O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Octávio Costa, por sua vez, alertou para os riscos representados pela maioria conservadora no Congresso e defendeu a mobilização em favor da soberania brasileira, inclusive no controle de recursos estratégicos, como as Terras Raras.
“Então é o seguinte usando a frase de Ulysses Guimarães quem trai a constituição é traidor da pátria e eles são traidores da pátria e quando querem submeter o Brasil ao poder dos Estados Unidos”, afirmou o presidente da ABI.
A defesa da democracia e a necessidade de manter a organização popular para além das eleições também foram pontos de bastante convergência entre os participantes. Bruna Martins, representando o Instituto dos Advogados Brasileiros (IAB), afirmou que as instituições jurídicas devem proteger a Constituição, os direitos fundamentais e a vontade popular, denunciando tentativas de manipulação do processo eleitoral.
“Eu quero reafirmar aqui, de maneira absolutamente inequívoca, que nós estamos atentos ao que acontece no país. A sociedade brasileira vai poder contar com o Instituto dos Advogados e não nos calaremos. nem por medo, nem por conveniência. Porque o silêncio das instituições diante de ameaças à democracia não é neutralidade, é omissão”, garantiu Bruna Martins.
Cristina Araripe, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), destacou a responsabilidade pública dos cientistas e a importância de combater o negacionismo e a intolerância. A professora e pesquisadora Dulce Pandolfi defendeu a mobilização cidadã permanente. O presidente da Casa de Rui Barbosa, Alexandre Santini, alertou para os riscos de desmonte das instituições culturais e elogiou a atuação de artistas e estudantes na defesa da democracia.
O ex-presidente do Clube Raymundo Oliveira ressaltou a necessidade de preservar a unidade política e manter a participação popular após o pleito, mas alertou para o conjunto de forças no âmbito geopolítico que precisam ser enfrentadas.
“O império é muito forte ainda. Não vai ser fácil derrotar. Mas nós estamos cumprindo a nossa parte. A parte do Brasil é importante. O Brasil é uma esperança hoje do mundo”, ressaltou Raymundo Oliveira.
A juventude foi apontada como uma das principais forças de renovação política. Marissol Lopes, estudante secundarista e dirigente da Associação dos Estudantes Secundaristas do Rio de Janeiro (AERJ), relatou a atuação do movimento estudantil em defesa da educação pública, da recuperação de disciplinas como História, Filosofia e Sociologia e do combate ao assédio nas escolas. Ela defendeu a aproximação entre estudantes e trabalhadores e afirmou que a mobilização precisa continuar independentemente do resultado eleitoral. O produtor teatral Eduardo Barata relatou os impactos da pandemia e das políticas do governo Bolsonaro sobre o setor cultural, lembrando as dificuldades enfrentadas por artistas e produtores. Ao citar um texto do ator Wagner Moura, reforçou a ideia de que a escolha eleitoral envolve a defesa da vida, da educação, da cultura e da dignidade humana. O jornalista Marcelo Auler, por sua vez, criticou a insuficiência da cobertura da grande imprensa sobre os riscos à democracia e defendeu uma atuação mais vigilante dos jornalistas e da sociedade.
No encerramento, o ex-ministro Roberto Amaral defendeu uma estratégia de mobilização voltada especialmente aos eleitores abstencionistas, indecisos e às populações das periferias, ressaltando que a vitória eleitoral deveria ser acompanhada pela retomada da organização política de base. Márcio Girão, ex-presidente do Clube, chamou a atenção para os riscos da concentração de poder tecnológico e da vigilância digital, associando a soberania nacional à capacidade brasileira de desenvolver sua própria infraestrutura tecnológica.
Já a jornalista Hildegard Angel fez um apelo contundente em defesa da vida, diante dos riscos de violência política e social.
“Eles estão sedentos de sangue e nós temos que não nos ater a academicismos, teorias ou teses. Vamos no popular. É vida ou é morte! Escolha o seu lado!”, declarou Hildegard Angel.
O Ato foi comandado por mesa composta pelo presidente do Clube de Engenharia do Brasil, Francis Bogossian, o presidente do Senge RJ, Clóvis Nascimento, do presidente emérito do IBEP, o ex-ministro Roberto Amaral, e do engenheiro Olimpio Alves dos Santos, representando o Fisenge.









