Bloqueio do Irã acende alerta no Agro e reafirma urgência da pesquisa sobre fertilizantes

O recente agravamento das tensões no Golfo Pérsico, marcado pelo bloqueio do Estreito de Ormuz e a consequente disparada nos preços da ureia e do gás natural, expôs a vulnerabilidade estratégica da produção de alimentos no Brasil. Segundo dados da consultoria Agrinvest, aproximadamente 41% das importações de ureia do país passam justamente por essa rota, agora sob ameaça. Diante desse cenário, a soberania alimentar deixa de ser um conceito teórico para se tornar uma urgência de Estado. É neste contexto de crise global que as inovações da Coppe ganham protagonismo: pesquisadores da instituição já analisaram as tecnologias que transformam resíduos urbanos e biogás em fertilizantes nitrogenados, oferecendo uma blindagem real contra conflitos geopolíticos.

Do paradoxo à autonomia: o papel do PNF

O Brasil vive um paradoxo que ameaça sua segurança: apesar de ser um gigante exportador de alimentos (US$ 164,3 bilhões em 2024), mantém uma dependência crítica dos insumos que sustentam sua produtividade. Segundo análise do Insper Agro Global e dados da Embrapa, cerca de 90% do consumo de adubos no país é suprido por importações. Com a instabilidade no Irã e as restrições de grandes produtores como a Rússia e a China, o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF) encontra nas pesquisas da Coppe a materialização de suas metas: reduzir a dependência externa até 2050 através da economia circular.

A rota tecnológica para a soberania

Com a  recente interrupção da produção de gás natural liquefeito (GNL), utilizado na produção de fertilizantes nitrogenados, e o salto nos preços dos insumos no Egito, o Laboratório de Desenvolvimento de Softwares para Otimização e Controle de Processos (LADES), da Coppe, já detém as rotas científicas que eliminam a necessidade do gás natural importado. A tecnologia, coordenada pelos professores Argimiro Secchi e Príamo Melo, do Programa de Engenharia Química (PEQ), utiliza biogás de estações de tratamento de aterros sanitários e resíduos agropecuários e lixo orgânico urbano como matéria-prima.

“A produção convencional de uréia depende quase totalmente de fontes fósseis e emite aproximadamente uma tonelada de CO₂ para cada tonelada produzida”, explica o professor Príamo Melo. “Nossa solução não apenas descarboniza esse processo, como transforma um passivo ambiental em um ativo estratégico, reduzindo a exposição do agronegócio nacional a conflitos em regiões de instabilidade, como os que vemos hoje no Oriente Médio e Leste Europeu.”

Simulações computacionais do LADES indicam que a produção a partir de resíduos é tecnicamente viável e economicamente competitiva em cidades com mais de 600 mil habitantes. Os estudos mostram que é possível obter fertilizante com pureza superior a 90% a custos próximos aos do produto importado, que hoje sofre com a inflação decorrente de guerras.

Alinhamento com o Plano Nacional de Fertilizantes e economia circular

As inovações da Coppe possibilitam a materialização das diretrizes do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), política de Estado que estabeleceu metas ambiciosas para reduzir a dependência externa do país até 2050. O PNF prioriza justamente o desenvolvimento de tecnologias sustentáveis e a economia circular, conceito que propõe transformar resíduos em recursos, fechando ciclos produtivos e gerando valor a partir do que antes era descartado.

“Esta pesquisa entrega exatamente o que o PNF preconiza: inovação tecnológica nacional que promove soberania e eficiência”, destaca Melo, que também integra o Comitê Gestor de Estratégias para o Fomento à Produção de Fertilizantes no Estado do Rio de Janeiro. “Estamos convertendo um problema urbano, a gestão de resíduos, em uma solução estratégica para o campo.”

Ecossistema de inovação: CEFENP e Rede FertBrasil

A resposta brasileira à crise global será potencializada pela integração dessa tecnologia ao Centro de Excelência em Fertilizantes e Nutrição de Plantas (CEFENP), em implantação no Parque Tecnológico da UFRJ. O Centro, apresentado pelo Ministério da Agricultura na COP30, atuará como um hub para acelerar a transição dessas soluções já     avaliadas do laboratório para a indústria, conectando-as à Rede FertBrasil.

A relevância global dessa inovação já atrai olhares internacionais. No início de 2025, uma missão internacional de agricultura sustentável visitou o Rio de Janeiro para conhecer o projeto, e o professor Príamo Melo apresentou os resultados na Darsh Wasan Lecture 2025, nos EUA, evidenciando que a resposta para a segurança do campo brasileiro pode estar na gestão inteligente do lixo urbano e resíduos agropecuários.

Benefícios múltiplos

Além de mitigar a vulnerabilidade geopolítica, cada planta de produção de fertilizantes a partir de resíduos pode evitar a emissão de centenas de milhares de toneladas de CO₂ por ano. Para o Brasil, o avanço significa menos lixo enviado a aterros sanitários, fortalecimento da indústria nacional e a garantia de que a produção de grãos não ficará refém de bloqueios no Estreito de Ormuz.

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